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19 de mar. de 2013

'Página 12': O JORNAL QUE INCOMODA FARDAS E BATINAS. O Papa Francisco foi conivente com os crimes da ditadura militar da Argentina



  DOSSIÊ: Horácio Verbitsky, do 'Página 12', resgata documentos e testemunhos que evidenciam a conivência   do cardeal Bergoglio com a ditadura argentina. Em Roma, no sermão dominical, o Papa Francisco  fala em 'perdão', 'tolerância' e 'misericórdia
Na manhã seguinte ao anúncio de um Papa argentino, o  jornal 'Página 12'  sacudiu Buenos Aires com a manchete: ‘Dios, Mio!'. Na última 6ª feira, como relata o correspondente de Carta Maior, Eduardo Febbro, o porta-voz  da Santa Sé reclamou do que classificaria como ‘acusações caluniosas e difamatórias' envolvendo o passado do Sumo Pontífice. 

Atribuiu-as a ‘elementos da esquerda anticlerical'. Alvo: o ‘Página 12'. A cúpula da Igreja acerta ao qualificar o ‘Página 12' como ‘de esquerda' - algo que ostenta e do qual se orgulha praticando um jornalismo analítico, crítico, ancorado em fatos. Mas erra ao qualificar seu afinco como 'anticlerical'. O destaque que ele dispensa  ao tema dos direitos humanos não se restringe a  investigar as relações do cardeal Bergoglio com a ditadura. Fundado em maio de 1987, o ‘Página 12' é reconhecido como o grande ponto de encontro da luta pelo direito à memória argentina. A fidelidade a essa diretriz levou-o, naturalmente, a investigar os crimes e os cúmplices da ditadura. Tornou-se o acelerador de uma transição que muitos gostariam de postergar e maquiar. 



A única verdade é a realidade 
 
A primeira coletiva de imprensa do porta-voz do papa Francisco foi para separá-lo de Jorge Mario Bergoglio, acusado pela entrega de sacerdotes à Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Como os testemunhos e os documentos são incontestáveis, o caminho escolhido foi o desacreditar quem os divulgou, qualificando o jornal Página/12 como “esquerdista”. As tradições se conservam: é a mesma coisa que Bergoglio disse de Jalics e Yorio diante daqueles que os sequestraram. O artigo é de Horácio Verbitsky.

Enviado por Eri Santos Castro.
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13 de nov. de 2011

Tarso Genro analisa a crise econômica mundial


Em entrevista ao jornal Página/12, da Argentina, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), fala sobre a doença de Lula e manifesta convicção de que o ex-presidente superará sua enfermidade da mesma maneira que o fez a atual presidenta brasileira. Além disso, analisa a crise econômica mundial, defendendo que o Brasil está preparado para enfrentá-la em melhores condições que a maioria dos outros países. "O primeiro assalto do neoliberalismo mundial é o assalto aos direitos sociais e, agora, vergonhosamente, começa o assalto aos direitos políticos".

O dono da voz. Ainda que Lula praticamente não tenha pronunciado uma palavra desde que foi diagnosticado com um câncer na laringe há onze dias, sua autoridade política parece ter se fortalecido. “Lula já é um líder completo e total no Brasil, já alcançou um grau de popularidade que é quase unanimidade. A doença está desatando uma torrente de afeto e de afirmação da memória política do presidente”, pondera seu correligionário Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, estado onde a presidenta Dilma Rousseff desenvolveu sua carreira política.

Página/12: Assim que os médicos manifestaram otimismo sobre a recuperação de Lula, reapareceram especulações jornalistas sobre a candidatura dele em 2014...

Tarso Genro: Até agora ninguém fez uma análise profunda do impacto, esperamos que seja uma questão passageira, que o presidente supere o problema como já o superou a presidenta Dilma (curada de um câncer linfático). Creio que ninguém no PT está analisando isso desde esta perspectiva. Espero que Lula permaneça sendo o ponto de equilíbrio do PT e siga sendo o maior líder popular da América Latina, em nossa opinião.

Página/12: Está descartado um terceiro mandato de Lula?

Tarso Genro: A volta do presidente não está influenciada pela doença, mas é certo que há uma torrente de solidariedade que pode abrir a possibilidade de ele voltar. Em minha opinião, Lula pode voltar, mas não para suceder a Dilma (em 2014). O presidente vai sair desta, tem muita saúde e se ele quiser voltar mais tarde (2018) será muito bem acolhido por nós todos, por toda a esquerda e inclusive pelo centro democrático.

Página/12: Qual sua análise sobre as comemorações do câncer que apareceram na internet?

Tarso Genro: O que se observa é que a doença de Lula causou duas reações em duas direitas. Há uma direita civilizada, que compartilha os princípios da democracia política, e outra direita mais fascistóide, que revelou nutrir um ódio de classe em relação a Lula, algo que já conhecíamos, e esse asco circulou por meio de algumas notas na imprensa e, principalmente, das redes sociais. Não há um pensamento unânime na direita.

Página/12: Dilma disse no G20 que o Brasil está em condições de suportar a crise, mas o PIB mostra uma desaceleração e fechará o ano abaixo de 4%.

Tarso Genro: Não tenho dúvidas de que essa crise europeia e, de modo mais geral, do capitalismo, não terá nenhum efeito no Brasil, no governo da presidenta Dilma e nos governos que o sucederem, se forem da mesma extração programática e ideológica que este. O Brasil não está exposto a um quadro como o da Grécia. É preciso compreender que o primeiro assalto do neoliberalismo mundial é o assalto aos direitos sociais e, agora, vergonhosamente, começa o assalto aos direitos políticos.

Quando o poder financeiro mundial reage ante à proposta de um referendo na Grécia e tutela politicamente o governo de Papandreu está impondo uma força normativa sobre a Constituição grega. Isso significa uma crise profunda no sistema neoliberal que se vê obrigado a fazer isso. Quando Dilma diz que não somos completamente imunes, ela faz uma advertência: nós não vamos dançar a dança que eles estão promovendo, não seguiremos seus ritmos, suas políticas, por isso temos políticas anticíclicas, com taxas de juros subsidiadas para as nossas indústrias, com políticas de promoção da agricultura familiar, aumento de salários, reforço do setor público. O Brasil tem que ser precavido porque o assalto aos países emergentes vai continuar.

Página/12: Qual o impacto da reeleição de Cristina em uma região que também sofre alguns efeitos da crise?

Tarso Genro: Creio que, nestas eleições, houve dois candidatos afinados em suas posições sobre a globalização, que são a presidenta Cristina e, pelo que conheço do debate, o candidato Binner. Creio que a vitória da presidenta fez justiça ao nível de confiança que ela conquistou entre os trabalhadores, setores médios e setores produtivos que sabem que a conexão com a globalização não deve ocorrer de joelhos. Creio que a vitória coincide com o sentimento que há hoje na América Latina de que nós devemos reforçar nossas relações continentais, ter um projeto de cooperação independente com a União Europeia, reforçar os Brics e promover reformas internas que distribuam renda gerando novos protagonistas e novas demandas, incluindo centenas de milhares de pessoas no mercado formal, no consumo, na educação e na saúde, de modo que essas pessoas se tornem cada vez mais exigentes. O caso da Argentina é muito interessante. O presidente Kirchner tomou medidas independentes, que não levaram em conta as recomendações do setor financeiro. Com isso, a Argentina se recuperou e voltou a conviver com o sistema financeiro mundial, porque ninguém existe sem conviver com esse sistema.

Página/12: O Brasil paga as taxas de juro mais altas do mundo. Isso pode tornar o país mais vulnerável diante das turbulências internacionais? O poder político ainda não conseguiu romper sua dependência do poder financeiro?

Tarso Genro: Isso é certo, o poder político ainda não conseguiu ser completamente independente do poder financeiro. A força normativa do capital financeiro é uma força tremenda, eu diria que é supraconstitucional, ela afeta os princípios jurídicos submetendo os países de diferentes maneiras. Nós sabemos que é preciso fazer concessões, mas sabemos quais serão nossos próximos passos para nos liberarmos dessa tutela e o governo de Dilma já começou a reduzir as taxas de juro. Isso é um sinal de uma postura de mais força frente às exigências do sistema financeiro global.

Página/12: Na América do Sul o debate sobre a democratização dos meios de comunicação está na ordem do dia. O Brasil se somará a essa corrente?

Tarso Genro: Esse debate está aberto no país. Há quem, desde a perspectiva de certos meios de comunicação, dizem que queremos controlar a comunicação. Isso pode ser ignorância ou má fé. Ignorância, porque o controle da imprensa está vedado na Constituição, e se a autoridade quisesse não poderia fazê-lo, e não fará isso. O Brasil é um país que adquiriu um nível de maturidade democrática. Pode ser má fé da parte de quem teme o direito à livre circulação da opinião, que não tem nada a ver com censura. O processo de circulação de opiniões na América Latina está controlado pelos proprietários dos meios de comunicação e, quando nós falamos de democratização, nos referimos ao direito de as pessoas, as classes sociais, os grupos, os partidos, os agentes sindicais tenham um acesso mais consolidado para fazer circular seus pontos de vista.

Dou um exemplo. Nós estivemos durante 30 anos submetidos pelos grandes meios à divulgação unilateral de ideias que diziam que as experiências políticas humanitárias igualitárias não existiam mais, que tudo seria mercado e neoliberalismo, e agora vemos, na verdade, que tudo isso era falso. Foram 30 anos de lavagem cerebral. Não queremos estatizar os meios de comunicação, nem impedir que as empresas obtenham lucro com a informação, queremos um sistema institucional que permita que as opiniões circulem com mais equilíbrio. Isso é o que está em jogo hoje no Brasil.

Darío Pignotii - Página/12.
Editado por Eri Santos Castro.
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25 de ago. de 2011

"Como mudar o mundo", o novo livro de Eric Hobsbawm

Imperdível: leitura obrigatória


Após se sentir parte da geração com a qual se extinguiria o marxismo da vida política e intelectual do Ocidente, as crises financeiras, a espiral conflitiva do capitalismo e as mudanças na América Latina deram a Eric Hobsbawm, aos 94 anos, a alegria de voltar a Marx.

Em seu novo livro, que tem o sugestivo título Como mudar o mundo, o historiador refuta com sua habitual lucidez as más interpretações, arquiva os preceitos que envelheceram e utiliza as ferramentas oferecidas pelo autor de O Capital para entender o mundo no século 21 e fazê-lo um lugar melhor.

Aos 94 anos, depois de publicar suas extraordinárias memórias (Tempos Interessantes), o grande historiador inglês Eric Hobsbawm – que dedicou sua vida à análise e explicação da era moderna, desde a Revolução Francesa até os estertores do século 20 – tinha um livro a mais para escrever: Como mudar o mundo. Após se sentir parte da geração com a qual se extinguiria o marxismo da vida política e intelectual do Ocidente, as crises financeiras, a espiral conflitiva do capitalismo e as mudanças na América Latina lhe deram a alegria de voltar ao seu querido Marx. No livro, refuta com sua habitual lucidez as más interpretações, arquiva os preceitos que envelheceram e utiliza as ferramentas oferecidas pelo autor de O Capital para entender o mundo no século 21 e fazê-lo um lugar melhor.

Imaginem a cena: Eric Hobsbawm, reconhecido historiador inglês de corte marxista, e George Soros, uma das mentes financeiras mais importantes do mundo, encontram-se para um jantar. Soros, talvez para iniciar a conversa, talvez com o objetivo de continuar alguma outra, pergunta a Hobsbawm sobre a opinião que este tem de Marx. Hobsbawm escolhe dar uma resposta ambígua para evitar o conflito, e respondendo em parte a esse culto à reflexão antes que ao confronto direto que caracteriza seus trabalhos. Soros, ao contrário, é conclusivo: “Há 150 anos esse homem descobriu algo sobre o capitalismo que devemos levar em conta”.

A estória parece quase seguir a estrutura de uma piada (“Soros e Hobsbawm se encontram em um bar...”), mas é o melhor exemplo que o historiador inglês encontra para mostrar, no começo do seu livro, essa ideia que está pairando no ar há tempos: o legado filosófico de Karl Marx (1818-1883) está longe de ter se esgotado e, muito pelo contrário, as publicações especializadas da atualidade, o discurso político cotidiano, a organização social de qualquer país não fazem outra coisa que invocar o seu fantasma para lidar com esse angustiante problema que tomou o nome histórico de “capitalismo”.

No livro, recentemente publicado em castelhano, que leva o sugestivo título Como mudar o mundo, Hobsbawm volta a oferecer seu indiscutível talento para colocar as proposições daquele filósofo alemão que seguem tendo uma vigência definidora para construir o presente.

Repassemos antes a presunção de morte que se pendurou no pescoço de Marx durante o último quartel do século 20: a crise do petróleo de 1973 desencadeou um processo político e econômico que organizou o que Hobsbawm qualificou como reductio ad absurdum das tendências da economia de mercado. A situação provocou o surgimento de governos conservadores nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha (com Ronald Reagan e Margaret Thatcher à frente de seus países), ao mesmo tempo que implicou em diversos territórios a implantação de economias de claro corte financeiro, situação que na América Latina trouxe aparelhado o surgimento de governos de fato que impuseram este tipo de organização pela força, suplantando as estratégias de desenvolvimento industrial e substituição das importações por facilidades para os capitais andorinha, a especulação e a desestruturação das organizações sindicais (somados, é claro, às estratégias de repressão dispostas há muito tempo antes dos golpes, como mostra a história nacional).

Aquela série de mudanças culminou com a queda do Muro de Berlim e do bloco soviético em 1989-1991: a URSS não podia resistir muito mais tempo com sua particular versão do marxismo e sua economia planejada. Francis Fukuyama, pensador norte-americano de corte neoliberal, se apropriou de algumas noções da filosofia hegeliana para dar a sentença final acerca desta sucessão de acontecimentos: estávamos diante do “fim da História”, o desaparecimento do mundo organizado em blocos opostos que havia marcado o destino de tudo o que conhecemos desde o final da 2ª Guerra Mundial em diante.

É neste panorama conciliador da economia globalizada e aparente pacificação social que, ao longo da década de 1990, todo o mundo deu por enterrado o pensamento marxista, inclusive com certas justificativas de índole ética: o nome de Karl Marx sempre vinha acompanhado de Joseph Stalin, entre muitos outros. Marx não era apenas uma má palavra para um guru econômico, mas também para um cidadão das zonas mais pobres da Rússia, que via com prazer a forma como caíam as estátuas de Lênin, Stalin e do próprio Marx.

Quem teria dito então que veríamos uma foto de Sarkozy lendo O Capital e o papa Bento XVI elogiando a capacidade analítica de seu autor?

Entre 2007 e 2009 (2001, para nós), uma série de crises do sistema capitalista financeiro (ou “capitalismo tardio”, tal como o identificaram pensadores como Frederic Jameson ou Jürgen Habermas), demonstrou que o que se pensou como o começo de uma era de tranquilidade em termos políticos, sociais e, sobretudo, econômicos para depois de 1989, na verdade não era nada disso. O mercado entregue pura e exclusivamente à “mão invisível” de Adam Smith, amparado pela domesticação do Estado, começou a trincar sem necessidade de conflito com outro sistema econômico-político.

A revolução não é um sonho eterno

Disse-o muito bem a Times após a queda financeira de 2008: “Voltou”. Quem? Marx. Três anos depois, o panorama não melhorou e neste clima pouco promissor, muitos revisam sua figura para recuperar o que foi que disse e o que se pode extrair de sua análise com o objetivo de superar a crise que afeta por estes dias as principais economias do mundo globalizado (basta revisar como começamos cada semana com uma nova “segunda-feira negra”, por não somar mais dias ao calendário).

Aos 94 anos, Hobsbawm observa acertadamente que Marx havia sentenciado qual seria o destino do capitalismo ao seguir a linha que em meados do século 19 insinuava com perfeita clareza: a concentração do capital em poucas mãos produziria um mundo onde apenas um número muito pequeno de pessoas teria o maior número de riquezas, ao passo que o sistema não poderia seguir o ritmo de seu próprio crescimento desproporcionado. A quantidade de riquezas produzidas e o contínuo aumento da população não permitiriam o desenvolvimento igualitário de todos os indivíduos, ao que se somava o fato de que o ritmo de crises cíclicas acabaria aumentando com o tempo até chegar ao ponto da inevitável queda do sistema.

Em 2002, o economista indiano Meghnad Desai já anunciava em um trabalho, A vingança de Marx, onde afirmava que muitos acreditaram que o pensamento do alemão se extinguiria com a queda dos Estados socialistas, mas as teses e observações realizadas nos trabalhos iniciais vão muito além desses 70 anos de governos comunistas que constituíram apenas um “episódio” da virada para o socialismo: os marxismos não ofuscam as observações de Marx, e é esse núcleo básico que é preciso voltar a ler.

Hobsbawm concorda com Desai: uma coisa são os trabalhos originais e outra a maneira como esses livros (com seus avatares particulares, suas más traduções ou suas publicações tardias) formaram escolas ao longo de todo o mundo. Essa história da escola marxista é a que terminou com a queda do Muro, e não a força política e filosófica das primeiras explicações. Este renascer de Marx é o que entusiasma agora um Hobsbawm que se apresentava um tanto decepcionado com a ideia de que, durante a década de 1980 até finais de 2000, o “mundo marxista ficou reduzido a pouco mais que um conjunto de ideias de um corpo de sobreviventes anciãos e de média idade que lentamente se ia erodindo”.

Quais são essas ideias? Que coisas de Marx é preciso conservar? Em primeiro lugar, a natureza política de seu pensamento. Para ele, mudar o mundo é o mesmo que interpretá-lo (parafraseando uma das míticas Teses de Feuerbach); Hobsbawm considera que há um temor político em vários marxistas de se verem comprometidos com uma causa, sabendo de antemão que, para entrar na leitura de Marx, teve que haver primeiro um desejo de tipo político: a intenção de mudar o mundo.

Em segundo lugar, a grande descoberta científica de Marx, a mais-valia, também tem lugar neste ensaio histórico de erro e acerto. Reconhecer que há parte do salário do operário que o capitalista conserva para si com o objetivo de aumentar os lucros, com a passagem do tempo é encontrar a prova de uma opressão histórica, o primeiro passo para chegar a uma verdadeira sociedade sem classes, sem oprimidos. Os operários estão conscientes dessa injustiça e só mediante uma organização política coerente poderão “dar uma reviravolta”. Ao contrário do que acreditavam os gurus da globalização, nem os operários nem o Estado são conceitos em desuso: Hobsbawm esclarece que “os movimentos operários continuam existindo porque o Estado-nação não está em vias de extinção”.

Por último, a existência de uma economia globalizada demonstra aquilo que Marx reconheceu como a capacidade destruidora do capitalismo, mais um problema a resolver que um sistema histórico definitivo. Hobsbawm chama a atenção, a partir do filósofo alemão, para essa “irresistível dinâmica global do desenvolvimento econômico capitalista e sua capacidade de destruir todo o anterior, incluindo também aqueles aspectos da herança do passado humano dos quais o capitalismo se beneficiou, como, por exemplo, as estruturas familiares”. O capitalismo é selvagem por natureza e seu final – ao menos, o final da ideia clássica de capitalismo – é evidente para qualquer pessoa no mundo.

É muito difícil dizer que da análise de Marx se possa tirar um plano de ação “à prova de bala”. A teoria marxista clássica falou muito pouco sobre modelos de Estado ou do que aconteceria uma vez instalada a revolução, mas muito sobre análise econômica: pensando o que acontece é que se pode saber como agir. O que Marx deu foram ferramentas, não receitas dogmáticas. Como bem disse Hobsbawm, os livros de Marx “não formam um corpus acabado, mas são, como todo pensamento que merece este nome, um interminável trabalho em curso. Ninguém vai convertê-lo em dogma, e menos ainda em uma ortodoxia institucionalmente ancorada”.

Mas, claro, a vida oferece surpresas: embora haja colocações de Marx que se conservam, há muitas outras que o curso da História (e dos homens que a vivem) mudou. Por exemplo, um dos paradoxos do século é que, embora Marx acreditasse que a revolução acabaria se dando em todo o mundo (“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”), os levantamentos que terminaram com o marxismo no poder durante o século 20 se deram em países bem diferentes da Alemanha, Inglaterra e França, o triângulo em que, para Marx, tudo começaria.

Por sua vez, o marxismo se misturaria com movimentos de mudança ou grupos que reconheciam diferentes injustiças sociais em territórios insuspeitados. Na Rússia, por exemplo, a filosofia marxista se mesclou com o nacionalismo agrário narodnik, ao menos em um primeiro momento. Na China, a revolução se deu em uma cultura agrícola não-ocidental, imperial e milenar. Por sua vez, todos esses modelos de país tinham muito pouco com a ideia original: assim como afirma Hobsbawm, “no período posterior a 1956, uma grande maioria de marxistas se viu obrigada a concluir que os regimes socialistas existentes, desde a URSS até Cuba e Vietnã, estavam longe daquilo que eles mesmos teriam desejado que fosse uma sociedade socialista, ou uma sociedade encaminhada ao socialismo”.

Talvez o artigo mais determinante seja aquele dedicado à redação do Manifesto do Partido Comunista, o texto breve de 1848 onde Marx e Engels declaravam a inevitável presença de um partido que não era, nessa época, o mesmo tipo de organização que o século 20 conhecerá depois das propostas operativas de Lênin. O objetivo fundamental da criação de um PC era distinguir sua proposta da de toda outra forma de avatar socialista, sobretudo em suas variáveis utópicas: de Saint-Simon aos falanstérios de Fourier, onde a liberdade sexual (e as correspondentes “orgias coreografadas”) se equiparavam a uma liberdade de trabalho. Um século e pouco depois, talvez esse PC tenha sido mal entendido.

Pensar a transição de sociedades agrárias para sociedades socialistas, ou revisar a mudança histórica do feudalismo ao capitalismo, foi um dos pontos que mais preocuparam o último Marx: ali se encontra a possibilidade de entender desde o presente os movimentos revolucionários em países com estruturas agrárias como as presentes na América Latina, África ou algumas zonas do Oriente. Para além das condições para que se dê a mudança (descontentamento social, consciência do conflito, etc.), o marxismo clássico do século 19 defendia a necessidade de certas condições objetivas para a revolução: desenvolvimento industrial e comercial em grande escala (longe do artesanato e do comércio “cara a cara”). A América Latina conheceu a refutação destas condições no Che Guevara: onde havia uma necessidade, não havia apenas um direito, mas também uma possível revolução. Hobsbawm, atento a este tipo de experiência, demonstra o interesse particular que existe para revisar a mudança ao socialismo fora dos limites da Europa.

A cintura cósmica de Marx

Em uma entrevista concedida ao jornal The Guardian, e realizada por Tristram Hunt – que acaba de publicar, oh casualidade, a biografia de Engels também resenhada nestas páginas – e publicada em janeiro deste ano, Eric Hobsbawm falou com entusiasmo da recuperação de certa linguagem econômica e política que se acreditava esgotada depois do auge liberal das últimas décadas do século 20: “Atualmente, ideologicamente, sinto-se mais em casa na América Latina porque segue sendo a única parte do mundo onde as pessoas ainda falam e conduzem sua política na velha linguagem, na linguagem do século 19 e do século 20 do socialismo, do comunismo e do marxismo”. Embora a pergunta apontasse para a saída de Lula do governo e a localização do Brasil dentro do grupo de países com perspectivas de liderança mundial (o BRIC, junto com a Rússia, a Índia e a China), a resposta renova a repercussão da conjuntura política latino-americana dentro do panorama mundial e a presença de diversos governos de esquerda e centro-esquerda no continente.

Um dos últimos artigos do livro, “Marx e o trabalho: o longo século”, assinala precisamente que as organizações proletárias com fins políticos não necessariamente vão de mãos dadas com a teoria marxista. O melhor caso para explicar seu ponto de vista o encontra em nosso intrigante país: “Os socialistas e comunistas, frustrados há tempos na Argentina, não podiam compreender como um movimento operário radical e politicamente independente podia desenvolver-se, na década de 1940, naquele país, cuja ideologia (o peronismo) consistia basicamente na lealdade a um general demagogo”.

A vitória de partidos operários no continente, alimentados pela perspectiva marxista de justiça e progresso igualitário, mas não ligados a organizações de claro corte comunista, apresenta a possibilidade de uma transição a um Estado socialista não mediada por uma revolução, assim como se colocou nos termos da URSS e da histórica Revolução de 1917, ou como o imaginário atual lê o futuro da revolução cubana de 1959. Em definitiva, há coisas que a própria História, não Marx ou suas muitas interpretações, demonstraram que são inviáveis: o socialismo russo fracassou por manter uma economia de guerra a curto prazo que se propunha objetivos difíceis que implicavam esforços e sacrifícios excessivos (desde concentrar todo o excedente e o esforço produtivo com a finalidade de conquistar o espaço exterior e mudar as práticas de produção agrária). Distinguir Lênin e Stalin do pensamento de Marx é um acontecimento dado nos últimos anos que pode mostrar as facetas mais interessantes para uma teoria do presente. Ou seja, algo necessário que permite pensar as circunstâncias atuais para escorar a mudança dentro da complexa geografia latino-americana.

O marxismo teve várias crises ao longo de sua história. Desde que se propôs colocar Hegel “de pernas para o ar” e transformar todo o discurso do espiritual em atenção ao material, já em 1890 apareceram os primeiros críticos às formulações básicas desta filosofia. Contudo, há algo nas ideias de Marx que segue interpelando o homem contemporâneo, que segue falando de uma mudança não considerada como mero desejo existencial ou aspiração utópica, mas como situação possível de levar a cabo na atualidade, sobretudo, pela via democrática e partidária.

Como bem pergunta Soros, e como escreve Hobsbawm: “Não podemos prever as soluções para os problemas que o mundo enfrentará no século 21, mas para que haja alguma possibilidade de êxito devemos fazer-nos as perguntas de Marx”.

Por Fernando Bogado* Página/12.
Publicado originalmente em português por IHU Online. A tradução é do Cepat.
Fonte: Blog do Prof. Evaldo e Amigos - "Como mudar o mundo", o novo livro de Eric Hobsbawm
Editado por Eri Santos Castro.
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18 de jan. de 2011

"A crise capitalista também é de urbanização"


David Harvey é um geógrafo britânico reconhecido internacionalmente. Estudou a relação entre as crises financeiras e urbanas. Em entrevista ao jornal Página/12, ele sustenta que a sucessão de crises no sistema é alimentada, entre outras coisas, por uma febre da construção que, por sua vez, provoca crise no capitalismo em sua atual etapa hegemonizada pelas finanças. Harvey defende ainda que existe uma estreita relação entre urbanização e formação das crises. Além dos Estados Unidos, cita como exemplo a Grécia e a Espanha. Parte da explicação da crise nestes países, defende o geógrafo, está vinculado a péssimos investimentos em infraestrutura.

Veja entrevista no página 12, via Carta Maior, aqui. 
Enviado por Eri Santos Castro.
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17 de dez. de 2010

A libertação (relativa) de Julian Assange

Tras salir en libertad, Assange muestra documentos legales

El fundador de Wikileaks, Julian Assange, quien salió ayer en libertad tras pagar una fianza en un tribunal en Londres, aseguró que continuará con su trabajo y protestará contra las acusaciones que pesan en su contra, informaron medios británicos. “Espero continuar mi trabajo y seguir luchando por mi inocencia en este tema y revelar cuando tengamos –que aún no la tenemos– la evidencia de estas acusaciones”, agregó ante sus seguidores el programador y hacker australiano, quien pasó ocho noches en prisión.
Assange fue liberado bajo fianza luego de que el Tribunal de Westminster desestimó un recurso de la fiscalía sueca para mantenerlo entre rejas mientras transcurre el proceso de extradición. Deberá permanecer en el Reino Unido y llevar una tobillera electrónica. Assange había sido acusado de violación, abuso sexual y coacción ilegal en Suecia por dos mujeres con las que mantuvo encuentros en Estocolomo, en agosto, y aunque niega los cargos rechaza ser extraditado al país escandinavo para ser interrogado.

Veja matéria completa no Página 12, aqui.
Enviado por Eri Santos Castro.