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27 de nov. de 2016

Fidel Castro, o último gigante do sec XX, e as incompreensões da esquerda acerca da democracia e da liberdade

O último gigante do século XX: Fidel foi o último dos grandes líderes carismáticos do século XX. O século XXI produziu, até agora, líderes menores, sem carisma, sem grandes causas, sem grande protagonismo. Parece que a busca da glória, como elemento essencial da atividade política, morreu. Fidel foi um líder ambíguo: pugnou pelas grandes causas da igualdade, da justiça e da fraternidade, mas deixou de lado a liberdade. É certo que em política não há inocentes, mas sem sujar as mãos, também nada de significativo se constrói. 

Em política, como nos ensinou o nosso mestre maior, geralmente se escolhe o mal menor. A história julgará se Castro conseguiu atenuar o mal e face da tragédia permanente da humanidade. Deixou legados enormes no campo da igualdade, justiça, educação e saúde. Suas ações não podem ser compreendidas fora do contexto da Guerra Fria, assim como, das incompreensões da esquerda acerca da democracia e da liberdade. 

Fidel não foi apenas um líder cubano, mas um líder mundial. Nos últimos anos da sua vida se dedicou a duas grandes causas da humanidade: a questão ambiental e os riscos de uma guerra nuclear. Chefiando um estado pequeno, foi um gigante frente ao maior gigante do mundo - os Estados Unidos - que tentaram matá-lo várias vezes. O seu espírito de luta deve servir como exemplo. Se as suas práticas como dirigente de Estado devam sofrer um balanço crítico, os seus ideais, em boa medida, devem ser preservados. Os desafios de hoje consistem em encontrar uma forma de promover a justiça, a igualdade, a solidariedade, a paz, a sustentabilidade ambiental com democracia e liberdade.

Sartre, Beauvoir e intelectuais franceses eram fascinados por Fidel Castro, até que a prisão do poeta Heberto Padilha...

mediaSimone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre em Havana, em 1960, ao lado de Fidel CastroAlberto Korda, 1960
Nota do Jornal Pessoal Eri Castro: "O socialismo sem democracia e o fascínio pelo aniquilamento do contraditório emperrou Cuba a ser melhor do que foi e é."

Os filósofos Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, a escritora Marguerite Duras, foram alguns dos muitos intelectuais franceses que se apressaram a visitar Cuba nos anos 60, encantados com a revolução. Para eles, "El Comandante" simbolizava a esperança.  










A morte do líder da revolução cubana, Fidel Castro, na sexta-feira (25), teve impacto internacional. Na França, o fato foi uma ocasião para se lembrar historicamente a admiração que ele despertou nas mentes mais brilhantes do país.
"Fidel Castro apareceu no momento em que os ideais stalinistas começavam a decair. Ele encarnava a esperança, como uma tábua de salvação", lembra o jornalista francês Jean Daniel, que encontrou Fidel em Cuba, em 1963.
O ex-ministro da Cultura francês, Jack Lang, do PS, lembra bem daquela época: " Fidel era o ídolo dos jovens, dos estudantes, ele havia vencido uma ditadura, assim como o imperialismo americano. Houve uma simpatia imediata, quase irresistível", diz, explicando que suas primeiras medidas em favor da educação, da saúde e da cultura ressoaram na França e em outros países que sonhavam com uma nova sociedade. "Naquele momento, Fidel simbolizava uma certa utopia, e alguns aderiram a isso até ficarem cegos".
No auge da Guerra Fria, o ator Gérard Philipe foi um dos primeiros a trocar um aperto de mão com Castro, em 1959, alguns meses depois do guerrilheiro ter vencido o regime de Fulgencio Batista. Muitos outros nomes famosos se sucederam nas visitas à ilha, como o ex-ministro da Saúde, Bernard Kouchner, escritores como Marguerite Duras, Jorge Semprun, o jornalista Claude Julien ou o renomado editor François Maspero.
"Havia naquele homem algo de romântico, algo de brilhante, o mito Castro é também a cor, a música, o romantismo cubanos", observa o jornalista Jean Daniel.
Para o filósofo Pascal Bruckner, Cuba vivia um regime totalitário que fascinava pela personalidade autoritária do dirigente e pelo perfil libertário da ilha: "Castro dava ao totalitarismo comunista um toque apimentado, mas foi um ditador terrível que manteve sua ilha na miséria e na fome até a morte".
Quando Fidel bateu a porta na cara dos franceses?
A admiração infinita da intelligentsia parisiense por Fidel dava a impressão de que não havia "um outro lado da moeda". Tanto que o exilado cubano Jacobo Machover, em seu ensaio político "Cuba, o acompanhamento culpado, os companheiros da barbárie" (2010), denuncia os intelectuais que "recusaram-se a criticar o horror que existe por trás da imagem de dirigentes revolucionários transformados em heróis românticos".
Mas alguns anos depois, "a ficha começou a cair". O intelectual francês Régis Debray, que foi muito amigo de Che Guevara, admitiu que frequentou muito a ilha cubana e que até 1989 ainda recebia a tradicional caixa de charutos Cohiba, da parte de Fidel Castro. "Mas tudo isso acabou devido a divergências políticas", confessou.
Em 1960, a visita de Sartre e Simone de Beauvoir a Havana dourou o regime castrista, tanto para os franceses quanto para a esquerda anti-americana. Sartre contou sua estada em 16 artigos escritos para o jornal France-Soir, intitulados "Tempestade sobre o Açúcar". O encontro dos filósofos com Che Guevara e Fidel Castro foi fotografado pelo cubano Alberto Korda, autor da famosa imagem de Che, "Guerrilheiro Heróico". A visita também inspirou a cineasta Agnès Varda a realizar, em 1963, um pequeno filme de propaganda, musical et poético, testemunhando a admiração dos intelectuais de Saint-Germain-des-Prés pela revolução do "líder maximo".
Mas a "lua de mel" com "El Comandante" terminou em 1971, quando o poeta cubano Heberto Padilla foi preso. Sartre rompe relações com Fidel em uma carta assinada por cerca de 60 artistas, políticos e personalidades francesas, condenando a detenção do escritor.
A resposta de Fidel Castro não demorou. Todos foram acusados de serem "agentes da CIA" e tiveram a entrada em Cuba proibida para sempre.

Com DCM.
Enviado por Eri Castro.
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29 de ago. de 2016

Impeachment político é golpe, Por Aldo Fornazieri


Desmoralizadas as teses de que a presidente Dilma cometeu crime de responsabilidade, condiçãosine qua non para legitimar a consumação de qualquer impeachment, os arautos do golpe agora se refugiam em outras duas teses estapafúrdias e grotescas: a de que o impeachment é eminentemente político dependendo da vontade política dos congressistas e de que ele deve ter respaldo na mobilização da sociedade. Em artigo anterior mostrei que o conceito de golpe não se aplica apenas à intervenção militar (O golpe, a salvação de Cunha e a história como um equívoco, por Aldo Fornazieri). Ali indica-se que a natureza do golpe consiste no fato de que ele é praticado por autoridades e funcionários públicos e que sua essência consiste na violação da Constituição.
O depoimento do professor Ricardo Lodi no Senado Federal, na condição de informante, nesses últimos dias do julgamento da presidente Dilma, reduziu a escombros a tese de que Dilma cometeu crime de responsabilidade. Lodi mostrou cabalmente que: 1) as chamadas “pedaladas fiscais”, que não são um conceito jurídico estabelecido em nenhum documento, não constituem crime de responsabilidade, pois não há nenhum prazo legalmente estabelecido para que o governo salde os breves débitos junto aos bancos públicos. O governo Dilma saldou esses débitos, no máximo, em quatro meses, o que está dentro de um limite de razoabilidade; 2) em 2015, o governo Dilma cumpriu a meta fiscal, redefinida pelo Congresso no final do ano. Mesmo que o governo não tivesse cumprido a meta fiscal não seria crime de responsabilidade, pois as contingências da economia podem impedir que um governo cumpra a meta fiscal. O que constitui crime de responsabilidade é o não cumprimento da Lei Orçamentária, coisa de que Dilma não é acusada; 3) os decretos suplementares não constituem crime de responsabilidade, pois há uma compatibilidade entre decretos complementares e contingenciamento do orçamento. Assim, os decretos de suplementação não elevam execução de despesa pública; 4) ademais, quanto a autoria dos decretos, eles são definidos por lei e não são de responsabilidade direta da presidente. Os próprios técnicos do Senado haviam concluído que Dilma não é responsável pelos decretos.
Então o que se tem é o seguinte: não há crime de responsabilidade. Porém, se quer julgar Dilma por prazos que legalmente não existem e se quer imputar a ela reponsabilidade que a lei atribui a autoria de terceiros. Impeachment sem crime de reponsabilidade, como tanto o disseram, é golpe. Impeachment que se reduz à vontade política dos congressistas é golpe. Impeachment que se fundamenta na vontade majoritária da população e em manifestações de rua, sem crime de responsabilidade política, é golpe.
O fundamento do impeachment deve ser jurídico

25 de jul. de 2016

Por que reeleger Haddad e eleger Freixo e Luciana, por Aldo Fornazieri

Fernando Haddad, Marcelo Freixo e Luciana Genro...o eixo do bem contra o neoliberalismo tupiniquim
Com as convenções partidárias do final de semana praticamente foi dada a largada para a disputa municipal em São Paulo. É verdade que o quadro ainda é movediço e que existem ainda fatores indeterminados que não permitem claramente a visualização por inteiro do cenário da disputa. Ao menos três candidaturas que jogarão um papel importante foram definidas: Fernando Haddad (PT), Luiza Erundina (PSol) e João Doria (PSDB)
As eleições acontecerão num contexto de anomalias: crise política com todo o drama do golpe político; grave crise econômica; crise moral pelo quadro generalizado de corrupção dos principais partidos políticos e crise de legitimidade das instituições e dos políticos em face da descrença da sociedade, não só com os políticos, mas com a própria política. Outra anomalia que marcará esse pleito é a perda de protagonismo do PT, afundado em sua própria crise, arrastando consigo outros partidos de esquerda.
Em que pese a liderança nas pesquisas de Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, e de Luciana Genro, em Porto Alegre, ambos do PSol, as perspectivas para os principais partidos de esquerda e centro-esquerda – Psol, PC do B e PT – não são alvissareiras. Se nas pequenas e médias cidades o quadro não é animador, nas principais capitais do país as esquerdas podem ingressar um processo autofágico, resultado até mesmo a sua não passagem para o segundo turno. Ocorre que os dirigentes dos partidos e os próprios candidatos sequer aprenderam alguma lição com a tragédia do afastamento de Dilma Rousseff. As esquerdas preferem viver sob a égide da síndrome de Caim e Abel do que adotar uma responsabilidade compartilhada tendo em vista os fins maiores e os compromissos para com o povo mais sofredor das nossas cidades.
Se as esquerdas fossem responsáveis se uniriam em torno da candidatura Haddad em São Paulo, de Marcelo Freixo no Rio e de Luciana Genro em Porto Alegre, para ficar em três capitais importantes onde há alguma chance de vitória. Pensar numa unidade no segundo turno pode significar pensar tarde, fugindo à responsabilidade de lutar para levar um candidato comprometido com as mudanças sociais para disputar com o conservadorismo.
Assim, as candidaturas de Erundina em São Paulo, de Jandira Freghali no Rio e de Raul Pont em Porto Alegre precisam ser postas sob a advertência de contribuírem com um maior desgraçamento das esquerdas. Não se trata aqui de discutir a qualidade desses candidatos, todos com as melhores recomendações vindas de suas lutas e de suas biografias. Existem aqui dois desafios a serem enfrentados: 1) o da estratégia das esquerdas em face ao avanço conservador; 2) o da superação do anátema da divisão das esquerdas tendo em vista construir uma nova história, que seja a da unidade com pluralidade, colocando em ênfase os interesses da mudança social em benefício dos segmentos sociais mais necessitados.
Apostar no futuro
Haddad, Freixo e Luciana Genro, cada um a seu modo, cada um com suas virtudes, cada um com suas limitações, são, nessas três capitais, os que melhor representam as potencialidades de futuro, da mudança social e da mudança da esquerda. O ponto de inflexão do atual momento histórico ocorreu nas manifestações de 2013. Mesmo que de forma arbitrária, pode-se dizer que 2013 criou um novo paradigma de classificação dos políticos: os políticos pré-2013 e os políticos pós-2013. Os primeiros estão caminhando para o ocaso. Os segundos se dividem em dois grupos: os que realmente estão comprometidos com mudanças sociais e com uma nova forma democrática de governar e os que constituem uma espécie de horda de oportunistas, carreiristas e aventureiros da política. Os comprometidos são poucos e os aventureiros são muitos. Haddad, Freixo e Luciana estão entre os políticos que melhor compreenderam o espírito do nosso tempo, o emaranhado trágico em que ele está envolvido e o esforço hercúleo que é preciso dispender para extrair gotas de esperança dos escombros da política.
Tome-se aqui o caso de Haddad. Nos primeiros meses de sua gestão foi tolhido pelo vendaval de junho. Percebeu logo a natureza da crise que as ruas insinuavam: as administrações municipais estavam inseridas num círculo vicioso de derrotas por correrem atrás de demandas crescentes e problemas insanáveis com recursos cada vez mais escassos. As ruas revelaram uma crise de serviços de qualidade e de garantia de direitos. Era preciso criar um novo paradigma de governo: governar as demandas represadas e os problemas urbanos do passado olhando para o futuro e criando condições para que medidas antecipadoras evitassem o advento de novos problemas.
Seria preciso criar um novo paradigma de governo capaz de mediar os problemas do presidente e do passado com soluções para o futuro. Somente assim seria possível correr para o futuro deixando de correr para o passado. O imediatismo e o eleitoralismo não cabem nesse conceito. Com esta nova forma de ver a administração, Haddad perturbou o comodismo e as mentes conservadoras. Haddad percebeu que se a administração olhasse só para o passado e suas encrencas de problemas, não existiriam soluções.
Uma série de políticas públicas orientadas para o futuro começaram a ser implementadas: redução da velocidade nas avenidas para que o fluxo de carros fosse mais contínuo e se perdesse menos tempo no trânsito; ampliação de faixas exclusivas e corredores de ônibus para que as pessoas possam ficar mais tempo em casa com suas famílias; construção de uma rede de ciclovias e ciclofaixas e investindo nos deslocamentos a pé conectando São Paulo com o paradigma de mobilidade do século XXI, com todos os seus benefícios ambientais, de bem viver etc..
São Paulo começou a correr para o futuro com a introdução do conceito de ocupação dos espaços urbanos, com a destinação de avenidas e ruas para usufruto exclusivo das pessoas para que possam caminhar, se encontrar e se divertir aos domingos; com a redução das mortes por atropelamento; com a instituição de programas humanizadores como Braços Abertos, Transcidadania; com a redução do tempo de espera nas filas dos hospitais e postos de saúde através da construção de uma rede de Hospitais-Dia; com a oferta de milhares de novas vagas em creches e pré-escolas. A gestão Haddad foi a que mais ampliou a oferta dessas vagas.
Em suma, o que foi mudado foi a troca do paradigma da construção de túneis e elevados pelo fornecimento de mais e melhores serviços, com custos menores. O que mudou foi olhar mais para as pessoas e menos para os carros e para a especulação imobiliária predatória. Ciclovias, avenidas abertas para as pessoas, eventos culturais, parques lineares, mobilidade urbana, entre outras iniciativas, constituem um complexo de inovações que se articulam para que as pessoas ocupem os espaços públicos e tenham uma relação com a cidade mais aberta, mais intensiva, mais humana e mais humanizadora.
Haddad derrubou muros e preconceitos, perturbou os conservadores e contrariou interesses avessos ao bem público da cidade. Entregou mais a cidade aos munícipes com os conselhos participativos que precisam ser aperfeiçoados. Contribuiu para que a cidade tenha um estatuto de esperança para o futuro, com a aprovação do Plano Diretor. Erros certamente foram cometidos e há o peso desabonador do PT. Por isso, a candidatura à reeleição precisa propor um pacto com a militância, com os movimentos sociais e com a sociedade paulistana. Pacto orientado para o futuro, com o compromisso de que a cidade será governada de forma democrática e participativa, com o compromisso de que as soluções dos problemas sejam construídas em parceria com as comunidades.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Enviado por Eri Santos Castro.
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30 de set. de 2015

Tarso Genro, Marina Silva, Marcelo Freixo, Sérgio Fausto e Guilherme Boulos: a crise da esquerda brasileira e sua superAÇÃO

O BRASIL ENFRENTA UMA CRISE POLÍTICA INÉDITA: No centro desta crise está a esquerda. Países vizinhos, governados por partidos de esquerda, também estão mergulhados em crise. Será o fim de um ciclo de esquerda no Brasil e na América Latina. Venha compreender e debater esta situação na FESPSP.(Ajude-nos a divulgar esse evento).
Venha compreender os caminhos que levaram a esquerda brasileira à atual crise e quais são as perspectivas para o futuro no Curso de Extensão Especial “A Crise da Esquerda”. 

Entre os palestrantes estão grandes nomes da política nacional, como Tarso Genro, Sérgio Fausto, Marcelo Freixo, Marina Silva e Guilherme Boulos.
Os encontros acontecem do dia 13 a 22 de outubro, das 19h às 22h. Inscrições e mais informações: http://bit.ly/1KOF3Nr

14 de set. de 2015

A esquerda com Jeremy Corbyn vence disputa interna pela liderança do Partido Trabalhista, na Inglaterra. O mundo sofrerá fortes influências

Inglaterra: a esquerda com Jeremy Corbyn vence disputa interna pela liderança do Partido Trabalhista. 

No Brasil, O PT precisa de construção de uma nova maioria

interna também para sair da crise. Com os mesmos atores 

não dar!


LONDRES — A vitória do esquerdista Jeremy Corbyn na disputa pela liderança do Partido Trabalhista britânico no sábado desencadeou uma avalanche de novas filiações à agremiação. Em publicação na sua conta na rede social Twitter na manhã de ontem, Iain McNicol, secretário-geral do partido, informou que em apenas 24 horas depois da eleição de Corbyn 15,5 mil pessoas se juntaram formalmente aos trabalhistas, fazendo o total de membros ultrapassar 325 mil, numa alta de quase 5%. Não se sabe quantos destes novos militantes estão entre as mais de 100 mil pessoas que pagaram 3 libras (cerca de R$ 18) só para se registrarem como apoiadores e ganharem o direito de votar na eleição de anteontem, mas o novo vice-líder do partido, Tom Watson, também eleito do sábado numa disputa paralela, disse esperar que muitos deles decidam se filiar oficialmente no caminho para as próximas eleições gerais no Reino Unido, previstas para 2020.

Mas se a acachapante vitória de Corbyn, que conquistou quase 60% dos votos na disputa, é um sucesso entre a militância trabalhista, o mesmo não se pode dizer da liderança do partido: até ontem, nada menos que oito integrantes do gabinete paralelo da oposição trabalhista no Parlamento — que reflete a estrutura do governo do atual primeiro-ministro do Reino Unido, o conservador David Cameron — anunciaram que vão deixar seus cargos, e muitos outros informaram apenas que estão “deixando suas opções em aberto”.

Além disso, em entrevista à rede de TV britânica BBC ainda na manhã de ontem, o próprio Watson deixou claras suas diferenças de posição com relação às ideias do novo líder, de tendências mais socialistas na área econômica e isolacionistas na política externa. O novo vice-líder, no entanto, também pregou a unidade do partido em torno do mandato de Corbyn, afirmando serem “zero” as chances de algum tipo de golpe para removê-lo. Preocupados com possíveis divisões nas fileiras trabalhistas, outras figuras importantes do partido, como Ed Miliband, predecessor de Corbyn na liderança, e o ex-vice-primeiro-ministro britânico John Prescott também fizeram declarações exortando a união.

— Não podemos negar que isto representa um enorme realinhamento político, mas Jeremy Corbyn obteve um grande mandato de nossos membros — avaliou Watson. — Digo a meus colegas para protegerem este espaço, respeitarem o mandato que ele recebeu de nossos membros e tentarem ficar unidos.

Já os conservadores também teriam motivos para comemorar a vitória de Corbyn. Segundo analistas, a guinada à esquerda dos trabalhistas deverá favorecer o Partido Conservador junto ao eleitorado britânico na votação de 2020, quando então deverá estar sob a liderança de George Osborne, segundo em comando do governo Cameron. O atual primeiro-ministro não perdeu tempo para capitalizar politicamente sobre isso e já partiu para o ataque, afirmando que sob a égide de Corbyn o Partido Trabalhista tornou-se uma ameaça à segurança do Reino Unido.

"O Partido Trabalhista representa agora uma ameaça para nossa segurança nacional, nossa segurança econômica e a segurança de nossas famílias", escreveu em sua conta no Twitter.


26 de jun. de 2015

Wallerstein e nós: a esquerda tem futuro? Por Tarso Genro

Tarso Genro articula frente de esquerda a partir do Rio de Janeiro.

A OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – clube de excelência para a análise econômica e promoção da cooperação, integrado pelos 31 países mais desenvolvidos do mundo – divulgou, recentemente, trabalho em que conclui que o excesso de financiamento bancário “pode atrapalhar o desenvolvimento econômico e fixar  desigualdades de renda”. Estudo da Universidade Federal da Bahia, que aborda uma outra face do “custo Brasil”, por seu turno, informa que entre 1980 e 2014, o Estado brasileiro aplicou 861 bilhões em investimentos e 3 trilhões 584 bilhões, com pagamento de juros. Estes dados foram extraídos, não de um “blog” de esquerda, mas de artigo publicado pelo jornalista Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, que não teve muita divulgação nem atenção nas “redes”. Eles demonstram com clareza que os caminhos que estamos trilhando não oferecem perspectivas alentadoras para o futuro e que somos, como país, predominantemente  uma gigantesca máquina de transferência de recursos para a especulação global.

O jornal Zero Hora, pg.6, edição de 19 de junho, publica uma importante  informação, meio “perdida”  no interior de uma grande matéria, na qual fixa o período em que a educação no Estado do Rio Grande Sul  teve a  “melhora mais visível”, recuperando o terreno perdido desde 2010. São dados consolidados até o ano de 2013, o que indica que,  em apenas três anos do nosso Governo  -depois de um largo período de decadência-   a educação gaúcha inverteu a curva descendente e deu um salto de qualidade relevante. Lembro que a nossa política educacional, fundada na reestruturação curricular, recuperação da rede física das escolas, pagamento do mínimo do piso nacional, aumentos reais de salários para o magistério e formação continuada (juntamente com a situação das estradas no Rio Grande) foram os “carros-chefe” do combate sistemático que a RBS fez ao Governo, ininterruptamente,  durante os quatro anos do nosso  mandato.
Outro destaque recente -todos eles de baixa repercussão informativa-  foi a publicação do boletim “infoTE, que faz a comunicação interna na corporação  do Tesouro do Estado. O Boletim  alerta que a aprovação da Lei Complementar  148/14, “que substitui o indexador e reduz os juros da dívida com a União”, possibilitou a redução do seu estoque final  em vinte bilhões de reais. Repito: vinte bilhões de reais!  A luta, portanto, liderada pelo nosso Governo -enfrentando inclusive a indiferença e a resistência do Governo Federal-  com a ajuda do então Secretário do Tesouro Arno Augustin (e com apoio de alguns Governadores e  parlamentares de várias bancadas na Câmara e no Senado), -esta luta travada e liderada pelo nosso Governo-   reduziu,  por lei já sancionada,  vinte bilhões da dívida pública!  Mesmo assim, aquela   parte já conhecida  da crônica política  local  faz  um enorme esforço  para mostrar que está “começando agora” uma nova era (?), para  o enfrentamento da crise. Aliás com a  poupança de recursos que deveriam ir para a saúde, a educação e a segurança, que eram investidos prodigamente  por um “Governo gastador”: o nosso. O mesmo que reduziu a dívida em vinte bilhões!
Immanuel Wallerstein, economista e acadêmico de renome, uma das figuras intelectuais mais  brilhantes do mundo contemporâneo e reconhecido como fonte, por todos os economistas sérios   -menos aqueles que acham que a Bolsa  de Valores é o coração da humanidade- retratou, num artigo aqui neste Sul 21, o dilema fundamental da esquerda contemporânea.  Após saudar o surgimento das novas formações de esquerda que, na Europa,  tem galgado alguns governos locais e nacionais, Wallerstein propõe, em síntese, o seguinte dilema: seremos capazes de fazer alguma coisa, imediatamente, para “aliviar a dor e o sofrimento das pessoas comuns”, combinando estas medidas imediatas com esforços de médio prazo,  para influir na “luta bifurcada por um novo sistema?” De maneira simples e direta  Wallerstein  vai ao fundo da questão.
Os “partidos-movimento”, que estão surgindo constituem,  não só uma crítica  à política tradicional como um todo, mas também uma rebelião contra os partidos originários da  social-democracia e comunistas,  que aderiram aos remédios “ortodoxos” para lidar com a crise de financiamento do Estado, ou arremetem -estes partidos-  contra todas as formações políticas que, chegando aos Governos, aplicam medidas de caráter distributivo de renda, mas não retiram o Estado da escravidão da dívida.
O impasse é verdadeiro, mas resta saber como, na democracia, sob o cerco de uma mídia parcial que faz a a cabeça da cidadania e influi poderosamente nas eleições que tornam os governos legítimos,  pode-se “aliviar o sofrimento das pessoas” e  -ao lado deste alívio objetivo e imediato-  ir trilhando  um novo caminho por dentro desta mesma democracia  Na bifurcação”  do “sistema-mundo” , para usar a expressão de  Wallerstein  -dominado  pelos bancos centrais dos países ricos e pelas suas agências de risco-  está uma placa que leva  para a “cooperação interdependente”, espaço no qual os ricos e os muito ricos seriam os fortemente onerados, para melhorar a vida de todos. E uma outra placa, que mantém o caminho do “sistema-mundo”  atual, trilhado com apoio no complexo midiático “partidarizado” pela ortodoxia, fortalecido pela ilusão que a corrupção (que é verdadeira),  é o único problema a ser superado para  que o capitalismo seja justo..
As informações do artigo de Clovis Rossi (que mostram uma consciência avançada sobre as origens da crise que vivemos); os dados sobre educação, apontados pelo jornal Zero Hora (que por si só são uma crítica aos seus preconceitos sobre  a educação pública);  a realidade da redução da dívida pública do Rio Grande ( ressaltada pelos técnicos do Tesouro Estadual),   desenham um pequeno esboço para responder às indagações de Wallerstein. Um esboço que, evidentemente, não esgota o assunto, mas mostra que não podemos deixar de ter esperanças. Nem deixar de fazer política. Tomara que não ocorra, mas não  é improvável  -refiro-me à ortodoxia financeira do Banco Central Alemão, que manda na Europa- que eles esmaguem a Grécia. Mesmo assim, não podemos desistir,  porque  — como diz  Juan Gelman, no seu magnífico poema “O jogo que jogamos” —  “se me dessem para  escolher, eu escolheria esta saúde de saber que estamos muito enfermos”. Ou seja: não temos ainda as respostas completas , mas já temos as perguntas bem formuladas.
Teve uma grande e justa repercussão na mídia, o cruel assassinato dos jornalistas franceses do “Charlie Hebdo”,  por muçulmanos fundamentalistas, dor fundada que todos nós compartilhamos. Não estamos vendo a mesma expressão de dor,  espalhada no mundo, provocada pelo assassinato de nove pessoas negras, na Igreja Metodista Episcopal Africana, na Carolina do Sul. Grande repercussão teve, também, aqui no Brasil, o movimento de repúdio de partidários do Presidente Maduro, contra os Senadores excursionistas,  que foram a Venezuela visitar golpistas, presos pelo Poder Judiciário de um país soberano. Nenhuma repercussão simpática, porém, apareceu nas colunas dos jornalistas democratas e liberais, à posição do Governo grego,  que defende a soberania do país contra um verdadeiro cerco de Stalingrado do capital financeiro, que subordina a ordem interna dos países “devedores”,  aos interesses da especulação global.
Parece que o domínio neoliberal, como cultura política e juízo sobre a condição humana, chegou ao seu limite na decomposição dos valores do  humanismo democrático das Luzes. Depois disso, o próximo passo é o fascismo. Esta parte das classes médias, que estão seduzidas pela sublimação histérica do presente, envolvidas pelo consumismo tedioso das grifes de ocasião e pelos 300 mil,  investidos no mercado financeiro, deveriam dar uma olhada na História,  para ver onde seus filhos foram parar em circunstâncias como essa, de decomposição da democracia. Foram para os cárceres, quando resistiram ao fim da democracia nos seus próprios países, ou foram para as trincheiras de guerra,  em lugares muito distantes. A inscrição “Jô Soares morra”, não é um acidente. É um sintoma. Assim como é um sintoma que a dor passe a ter cor e a dignidade de outras nações nos seja indiferente. Volto a Juan Gelman, no mesmo poema, para encerrar, num verso  que funde poesia, filosofia e existência: “Se me dessem para escolher, eu escolheria esta inocência de não ser um inocente”.

Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

29 de mai. de 2015

O 5º Congresso do PT e a falta de rumos, por Aldo Fornazieri

Com um conjunto de sete Teses, que expressam o pensamento das correntes e grupos internos, o PT realizará seu 5º Congresso de 11 a 13 de junho, em Salvador. O ponto que unifica todas as Teses é a crítica ao ajuste fiscal do governo. Até mesmo o grupo majoritário do Partido, denominado CNB (Construindo um Novo Brasil), que apresenta a tese “Manifesto” e se abriga na chapa “O Partido que Muda o Brasil”, faz críticas ao ajuste fiscal.
Por ser o grupo que vem liderando o partido, convém proceder a uma análise das proposições do CNB. O texto começa sob a égide do equívoco. Afirma que o “PT e seu governo” são alvos de uma “ofensiva sem precedentes que busca, como objetivo último, a destituição da Presidenta da República e a destruição do Partido dos Trabalhadores”. Essa ofensiva é atribuída às forças que foram derrotadas nas eleições de 2014. Reconhece-se que a maioria que elegeu Dilma “está perplexa e desmobilizada”.  Em seguida, o óbvio é posto em relevo: “O conservadorismo sempre esteve presente na sociedade brasileira”.
De obviedade em obviedade, a Tese do CNB vai adiante construindo a própria perplexidade do grupo que comanda o PT. O grupo não consegue entender o que aconteceu no período que vai da vitória em 2014 até as manifestações contra o governo e o partido em 2015. “Como doze anos de tão importante transformação social, econômica e política no país puderam ser desconsiderados em um espaço de tempo tão breve?”, indaga. Ao invés de construir uma história das mudanças das conjunturas e dos erros do governo, sustenta que o que faltou foi uma narrativa dos sucessos.
Note-se que até aqui, nenhuma palavra é dita acerca do baixo crescimento no primeiro mandado de Dilma, das contas públicas e externas no vermelho, da crise fiscal, da inflação alta, dos antigos dirigentes do partido condenados no mensalação e do escândalo da Petrobrás. A Tese se limita a dizer que a atual conjuntura não se limita pelo ativismo da direita. “Seu entendimento exige análise mais complexa, que envolva também o exame de responsabilidades que são nossas”.
O tema da corrupção só irá aparecer de forma mais significativa nos itens 44 a 49 da Tese. A corrupção, no entanto, não é apontada como a principal causa da perda da legitimidade do PT e do governo. Não é apontada como a causa do antipetismo que se disseminou na sociedade ainda no decurso do processo eleitoral de 2014. Antes de tudo, veiculam-se como principais causas da corrupção a falta de uma reforma política e ao Presidencialismo de Coalizão, o que é apenas uma meia verdade. Um partido honesto e comprometido com a república, com o que é o bem comum do povo, com a virtude e com a necessidade de ter uma conduta política e administrativa exemplar, não se corrompe, mesmo quando as instituições não são as melhores. Além de não corromper-se, luta com todas as forças para melhorar as instituições, conduta que não se viu no PT e nos governos petistas, que nunca se empenharam com todas as forças e com mobilização social para realizar uma reforma política.
O texto reconhece que as denúncias de corrupção, “verdadeiras ou não”, golpearam “duramente a imagem do Partido”. O desfecho desse reconhecimento é uma formulação confusa, que não explicita o que quer dizer: “Não podemos diluir nossas próprias responsabilidades na geleia geral em que se transformou grande parte do mundo político brasileiro”. Se acrescenta apenas que o PT precisa sair das “páginas policiais”. Mas o leitor não fica sabendo se, de fato, o partido errou gravemente para estar nas páginas policiais ou se as denúncias “são verdadeiras ou não”.
O fato relevante é que o que se diz sobre a corrupção não chega a ser uma autocrítica. O que prevalece ainda é a culpa dos “outros” ou das instituições. Não há nenhum reconhecimento de que o Partido não só se corrompeu do ponto de vista material, mas também do ponto de vista dos princípios, pois assumiu a ideologia do “novo rico”, do luxo, dos palácios e foi se afastando das ruas e das praças, cavando o fosso da arrogância entre os ocupantes de gabinetes e palácios e a plebe. Registre-se que, mais adiante, a Tese reconhece que o Partido se afastou dos movimentos sociais.
Para que Serve um Congresso
A Tese do CNB não parte daquilo que é central no atual momento do Brasil. Um centro, configurado em torno de dois pontos: a) a crise de legitimidade das instituições; b) o esgotamento do modelo de desenvolvimento econômico. Nesse sentido, a Tese do CNB, a exemplo das demais, é conjunturalista. Não há um enfoque estratégico. A perda de substância do PT se reflete também na qualidade das teses. No passado, o PT fez Congressos muito mais robustos, muito mais significativos, que apontavam rumos estratégicos para o Partido e para o país.
Um congresso partidário não pode ser concebido como um encontro qualquer. Um congresso partidário deve ser visto como um momento especial na vida de um partido, concebido como um encontro especial de filiados para estabelecer um acordo sobre os temas gerais e estratégicos, de caráter mais permanente e que apontem para o futuro. Precisa tratar de temas que têm uma perdurabilidade maior no tempo. Os enfoques meramente conjunturais em um congresso sinalizam que o partido está extraviado e dividido, incapaz de pôr-se em acordo naquilo que determina a sua existência.
Não resta dúvida de que há crise de legitimidade dos partidos, dos políticos e das instituições. Instaurada em 2013, essa crise não foi superada pelas eleições de 2014. A sociedade não se reconhece mais no atual sistema representativo. Nesse sentido, não é só o PT e o governo que estão em crise, mas a oposição partidária também. Oposição que sequer conseguiu falar nas manifestações anti-PT e anti-governo. A Tese do CNB atribui, equivocadamente, uma força à oposição que ela não tem. Mesmo com o baixo prestigio do governo Dilma, a oposição seria incapaz de sustentar por muito tempo uma campanha pelo impeachment. É essa fraqueza que a fez recuar do intento.
A Tese do CNB também não reconhece os equívocos da política macroeconômica do primeiro mandato. Equívocos como as desonerações fiscais, os empréstimos com juros subsidiados concedidos pelo BNDES a grupos econômicos privilegiados, o modelo de concessões, o desastroso modelo de contratações da Petrobrás etc. A própria política de crescimento pelo incentivo ao consumo já havia se esgotado em 2010.
O PT e o governo embarcaram na tese de que se havia produzido no Brasil uma “nova classe média”, quando, o que houve, foi um crescimento da formalização de empregos com  baixos salários. O modelo de desenvolvimento, nascido com o Plano Real, imbricado com a Constituição de 1988, continuado nos governos petistas, apresentava sinais de esgotamento no final dos mandatos de Lula. Nem o campo do governismo e nem o campo da oposição foram capazes de propor algo novo. No momento, não se vislumbra forças políticas e lideranças capazes de repactuar um novo programa de desenvolvimento do Brasil. O programa de TV do PSDB apresentado na semana passada e as Teses do Congresso do PT são exemplos desse impasse. Não há nada de novo sob o céu de anil.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e fundador da 'Nova Esquerda', corrente política da década de 90 que atuava no interior do PT.