26 de jun de 2015

Wallerstein e nós: a esquerda tem futuro? Por Tarso Genro

Tarso Genro articula frente de esquerda a partir do Rio de Janeiro.

A OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – clube de excelência para a análise econômica e promoção da cooperação, integrado pelos 31 países mais desenvolvidos do mundo – divulgou, recentemente, trabalho em que conclui que o excesso de financiamento bancário “pode atrapalhar o desenvolvimento econômico e fixar  desigualdades de renda”. Estudo da Universidade Federal da Bahia, que aborda uma outra face do “custo Brasil”, por seu turno, informa que entre 1980 e 2014, o Estado brasileiro aplicou 861 bilhões em investimentos e 3 trilhões 584 bilhões, com pagamento de juros. Estes dados foram extraídos, não de um “blog” de esquerda, mas de artigo publicado pelo jornalista Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, que não teve muita divulgação nem atenção nas “redes”. Eles demonstram com clareza que os caminhos que estamos trilhando não oferecem perspectivas alentadoras para o futuro e que somos, como país, predominantemente  uma gigantesca máquina de transferência de recursos para a especulação global.

O jornal Zero Hora, pg.6, edição de 19 de junho, publica uma importante  informação, meio “perdida”  no interior de uma grande matéria, na qual fixa o período em que a educação no Estado do Rio Grande Sul  teve a  “melhora mais visível”, recuperando o terreno perdido desde 2010. São dados consolidados até o ano de 2013, o que indica que,  em apenas três anos do nosso Governo  -depois de um largo período de decadência-   a educação gaúcha inverteu a curva descendente e deu um salto de qualidade relevante. Lembro que a nossa política educacional, fundada na reestruturação curricular, recuperação da rede física das escolas, pagamento do mínimo do piso nacional, aumentos reais de salários para o magistério e formação continuada (juntamente com a situação das estradas no Rio Grande) foram os “carros-chefe” do combate sistemático que a RBS fez ao Governo, ininterruptamente,  durante os quatro anos do nosso  mandato.
Outro destaque recente -todos eles de baixa repercussão informativa-  foi a publicação do boletim “infoTE, que faz a comunicação interna na corporação  do Tesouro do Estado. O Boletim  alerta que a aprovação da Lei Complementar  148/14, “que substitui o indexador e reduz os juros da dívida com a União”, possibilitou a redução do seu estoque final  em vinte bilhões de reais. Repito: vinte bilhões de reais!  A luta, portanto, liderada pelo nosso Governo -enfrentando inclusive a indiferença e a resistência do Governo Federal-  com a ajuda do então Secretário do Tesouro Arno Augustin (e com apoio de alguns Governadores e  parlamentares de várias bancadas na Câmara e no Senado), -esta luta travada e liderada pelo nosso Governo-   reduziu,  por lei já sancionada,  vinte bilhões da dívida pública!  Mesmo assim, aquela   parte já conhecida  da crônica política  local  faz  um enorme esforço  para mostrar que está “começando agora” uma nova era (?), para  o enfrentamento da crise. Aliás com a  poupança de recursos que deveriam ir para a saúde, a educação e a segurança, que eram investidos prodigamente  por um “Governo gastador”: o nosso. O mesmo que reduziu a dívida em vinte bilhões!
Immanuel Wallerstein, economista e acadêmico de renome, uma das figuras intelectuais mais  brilhantes do mundo contemporâneo e reconhecido como fonte, por todos os economistas sérios   -menos aqueles que acham que a Bolsa  de Valores é o coração da humanidade- retratou, num artigo aqui neste Sul 21, o dilema fundamental da esquerda contemporânea.  Após saudar o surgimento das novas formações de esquerda que, na Europa,  tem galgado alguns governos locais e nacionais, Wallerstein propõe, em síntese, o seguinte dilema: seremos capazes de fazer alguma coisa, imediatamente, para “aliviar a dor e o sofrimento das pessoas comuns”, combinando estas medidas imediatas com esforços de médio prazo,  para influir na “luta bifurcada por um novo sistema?” De maneira simples e direta  Wallerstein  vai ao fundo da questão.
Os “partidos-movimento”, que estão surgindo constituem,  não só uma crítica  à política tradicional como um todo, mas também uma rebelião contra os partidos originários da  social-democracia e comunistas,  que aderiram aos remédios “ortodoxos” para lidar com a crise de financiamento do Estado, ou arremetem -estes partidos-  contra todas as formações políticas que, chegando aos Governos, aplicam medidas de caráter distributivo de renda, mas não retiram o Estado da escravidão da dívida.
O impasse é verdadeiro, mas resta saber como, na democracia, sob o cerco de uma mídia parcial que faz a a cabeça da cidadania e influi poderosamente nas eleições que tornam os governos legítimos,  pode-se “aliviar o sofrimento das pessoas” e  -ao lado deste alívio objetivo e imediato-  ir trilhando  um novo caminho por dentro desta mesma democracia  Na bifurcação”  do “sistema-mundo” , para usar a expressão de  Wallerstein  -dominado  pelos bancos centrais dos países ricos e pelas suas agências de risco-  está uma placa que leva  para a “cooperação interdependente”, espaço no qual os ricos e os muito ricos seriam os fortemente onerados, para melhorar a vida de todos. E uma outra placa, que mantém o caminho do “sistema-mundo”  atual, trilhado com apoio no complexo midiático “partidarizado” pela ortodoxia, fortalecido pela ilusão que a corrupção (que é verdadeira),  é o único problema a ser superado para  que o capitalismo seja justo..
As informações do artigo de Clovis Rossi (que mostram uma consciência avançada sobre as origens da crise que vivemos); os dados sobre educação, apontados pelo jornal Zero Hora (que por si só são uma crítica aos seus preconceitos sobre  a educação pública);  a realidade da redução da dívida pública do Rio Grande ( ressaltada pelos técnicos do Tesouro Estadual),   desenham um pequeno esboço para responder às indagações de Wallerstein. Um esboço que, evidentemente, não esgota o assunto, mas mostra que não podemos deixar de ter esperanças. Nem deixar de fazer política. Tomara que não ocorra, mas não  é improvável  -refiro-me à ortodoxia financeira do Banco Central Alemão, que manda na Europa- que eles esmaguem a Grécia. Mesmo assim, não podemos desistir,  porque  — como diz  Juan Gelman, no seu magnífico poema “O jogo que jogamos” —  “se me dessem para  escolher, eu escolheria esta saúde de saber que estamos muito enfermos”. Ou seja: não temos ainda as respostas completas , mas já temos as perguntas bem formuladas.
Teve uma grande e justa repercussão na mídia, o cruel assassinato dos jornalistas franceses do “Charlie Hebdo”,  por muçulmanos fundamentalistas, dor fundada que todos nós compartilhamos. Não estamos vendo a mesma expressão de dor,  espalhada no mundo, provocada pelo assassinato de nove pessoas negras, na Igreja Metodista Episcopal Africana, na Carolina do Sul. Grande repercussão teve, também, aqui no Brasil, o movimento de repúdio de partidários do Presidente Maduro, contra os Senadores excursionistas,  que foram a Venezuela visitar golpistas, presos pelo Poder Judiciário de um país soberano. Nenhuma repercussão simpática, porém, apareceu nas colunas dos jornalistas democratas e liberais, à posição do Governo grego,  que defende a soberania do país contra um verdadeiro cerco de Stalingrado do capital financeiro, que subordina a ordem interna dos países “devedores”,  aos interesses da especulação global.
Parece que o domínio neoliberal, como cultura política e juízo sobre a condição humana, chegou ao seu limite na decomposição dos valores do  humanismo democrático das Luzes. Depois disso, o próximo passo é o fascismo. Esta parte das classes médias, que estão seduzidas pela sublimação histérica do presente, envolvidas pelo consumismo tedioso das grifes de ocasião e pelos 300 mil,  investidos no mercado financeiro, deveriam dar uma olhada na História,  para ver onde seus filhos foram parar em circunstâncias como essa, de decomposição da democracia. Foram para os cárceres, quando resistiram ao fim da democracia nos seus próprios países, ou foram para as trincheiras de guerra,  em lugares muito distantes. A inscrição “Jô Soares morra”, não é um acidente. É um sintoma. Assim como é um sintoma que a dor passe a ter cor e a dignidade de outras nações nos seja indiferente. Volto a Juan Gelman, no mesmo poema, para encerrar, num verso  que funde poesia, filosofia e existência: “Se me dessem para escolher, eu escolheria esta inocência de não ser um inocente”.

Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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