25 de jul de 2016

Por que reeleger Haddad e eleger Freixo e Luciana, por Aldo Fornazieri

Fernando Haddad, Marcelo Freixo e Luciana Genro...o eixo do bem contra o neoliberalismo tupiniquim
Com as convenções partidárias do final de semana praticamente foi dada a largada para a disputa municipal em São Paulo. É verdade que o quadro ainda é movediço e que existem ainda fatores indeterminados que não permitem claramente a visualização por inteiro do cenário da disputa. Ao menos três candidaturas que jogarão um papel importante foram definidas: Fernando Haddad (PT), Luiza Erundina (PSol) e João Doria (PSDB)
As eleições acontecerão num contexto de anomalias: crise política com todo o drama do golpe político; grave crise econômica; crise moral pelo quadro generalizado de corrupção dos principais partidos políticos e crise de legitimidade das instituições e dos políticos em face da descrença da sociedade, não só com os políticos, mas com a própria política. Outra anomalia que marcará esse pleito é a perda de protagonismo do PT, afundado em sua própria crise, arrastando consigo outros partidos de esquerda.
Em que pese a liderança nas pesquisas de Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, e de Luciana Genro, em Porto Alegre, ambos do PSol, as perspectivas para os principais partidos de esquerda e centro-esquerda – Psol, PC do B e PT – não são alvissareiras. Se nas pequenas e médias cidades o quadro não é animador, nas principais capitais do país as esquerdas podem ingressar um processo autofágico, resultado até mesmo a sua não passagem para o segundo turno. Ocorre que os dirigentes dos partidos e os próprios candidatos sequer aprenderam alguma lição com a tragédia do afastamento de Dilma Rousseff. As esquerdas preferem viver sob a égide da síndrome de Caim e Abel do que adotar uma responsabilidade compartilhada tendo em vista os fins maiores e os compromissos para com o povo mais sofredor das nossas cidades.
Se as esquerdas fossem responsáveis se uniriam em torno da candidatura Haddad em São Paulo, de Marcelo Freixo no Rio e de Luciana Genro em Porto Alegre, para ficar em três capitais importantes onde há alguma chance de vitória. Pensar numa unidade no segundo turno pode significar pensar tarde, fugindo à responsabilidade de lutar para levar um candidato comprometido com as mudanças sociais para disputar com o conservadorismo.
Assim, as candidaturas de Erundina em São Paulo, de Jandira Freghali no Rio e de Raul Pont em Porto Alegre precisam ser postas sob a advertência de contribuírem com um maior desgraçamento das esquerdas. Não se trata aqui de discutir a qualidade desses candidatos, todos com as melhores recomendações vindas de suas lutas e de suas biografias. Existem aqui dois desafios a serem enfrentados: 1) o da estratégia das esquerdas em face ao avanço conservador; 2) o da superação do anátema da divisão das esquerdas tendo em vista construir uma nova história, que seja a da unidade com pluralidade, colocando em ênfase os interesses da mudança social em benefício dos segmentos sociais mais necessitados.
Apostar no futuro
Haddad, Freixo e Luciana Genro, cada um a seu modo, cada um com suas virtudes, cada um com suas limitações, são, nessas três capitais, os que melhor representam as potencialidades de futuro, da mudança social e da mudança da esquerda. O ponto de inflexão do atual momento histórico ocorreu nas manifestações de 2013. Mesmo que de forma arbitrária, pode-se dizer que 2013 criou um novo paradigma de classificação dos políticos: os políticos pré-2013 e os políticos pós-2013. Os primeiros estão caminhando para o ocaso. Os segundos se dividem em dois grupos: os que realmente estão comprometidos com mudanças sociais e com uma nova forma democrática de governar e os que constituem uma espécie de horda de oportunistas, carreiristas e aventureiros da política. Os comprometidos são poucos e os aventureiros são muitos. Haddad, Freixo e Luciana estão entre os políticos que melhor compreenderam o espírito do nosso tempo, o emaranhado trágico em que ele está envolvido e o esforço hercúleo que é preciso dispender para extrair gotas de esperança dos escombros da política.
Tome-se aqui o caso de Haddad. Nos primeiros meses de sua gestão foi tolhido pelo vendaval de junho. Percebeu logo a natureza da crise que as ruas insinuavam: as administrações municipais estavam inseridas num círculo vicioso de derrotas por correrem atrás de demandas crescentes e problemas insanáveis com recursos cada vez mais escassos. As ruas revelaram uma crise de serviços de qualidade e de garantia de direitos. Era preciso criar um novo paradigma de governo: governar as demandas represadas e os problemas urbanos do passado olhando para o futuro e criando condições para que medidas antecipadoras evitassem o advento de novos problemas.
Seria preciso criar um novo paradigma de governo capaz de mediar os problemas do presidente e do passado com soluções para o futuro. Somente assim seria possível correr para o futuro deixando de correr para o passado. O imediatismo e o eleitoralismo não cabem nesse conceito. Com esta nova forma de ver a administração, Haddad perturbou o comodismo e as mentes conservadoras. Haddad percebeu que se a administração olhasse só para o passado e suas encrencas de problemas, não existiriam soluções.
Uma série de políticas públicas orientadas para o futuro começaram a ser implementadas: redução da velocidade nas avenidas para que o fluxo de carros fosse mais contínuo e se perdesse menos tempo no trânsito; ampliação de faixas exclusivas e corredores de ônibus para que as pessoas possam ficar mais tempo em casa com suas famílias; construção de uma rede de ciclovias e ciclofaixas e investindo nos deslocamentos a pé conectando São Paulo com o paradigma de mobilidade do século XXI, com todos os seus benefícios ambientais, de bem viver etc..
São Paulo começou a correr para o futuro com a introdução do conceito de ocupação dos espaços urbanos, com a destinação de avenidas e ruas para usufruto exclusivo das pessoas para que possam caminhar, se encontrar e se divertir aos domingos; com a redução das mortes por atropelamento; com a instituição de programas humanizadores como Braços Abertos, Transcidadania; com a redução do tempo de espera nas filas dos hospitais e postos de saúde através da construção de uma rede de Hospitais-Dia; com a oferta de milhares de novas vagas em creches e pré-escolas. A gestão Haddad foi a que mais ampliou a oferta dessas vagas.
Em suma, o que foi mudado foi a troca do paradigma da construção de túneis e elevados pelo fornecimento de mais e melhores serviços, com custos menores. O que mudou foi olhar mais para as pessoas e menos para os carros e para a especulação imobiliária predatória. Ciclovias, avenidas abertas para as pessoas, eventos culturais, parques lineares, mobilidade urbana, entre outras iniciativas, constituem um complexo de inovações que se articulam para que as pessoas ocupem os espaços públicos e tenham uma relação com a cidade mais aberta, mais intensiva, mais humana e mais humanizadora.
Haddad derrubou muros e preconceitos, perturbou os conservadores e contrariou interesses avessos ao bem público da cidade. Entregou mais a cidade aos munícipes com os conselhos participativos que precisam ser aperfeiçoados. Contribuiu para que a cidade tenha um estatuto de esperança para o futuro, com a aprovação do Plano Diretor. Erros certamente foram cometidos e há o peso desabonador do PT. Por isso, a candidatura à reeleição precisa propor um pacto com a militância, com os movimentos sociais e com a sociedade paulistana. Pacto orientado para o futuro, com o compromisso de que a cidade será governada de forma democrática e participativa, com o compromisso de que as soluções dos problemas sejam construídas em parceria com as comunidades.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Enviado por Eri Santos Castro.
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