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15 de abr. de 2015

Uma dor continental, por Tarso Genro

Para os militantes da minha geração, que estavam juntos na época da Guerra Fria, nos períodos dos regimes de exceção e de lutas legais e clandestinas nos anos 70, a morte de Eduardo Galeano, traz a dor da recordação e a lembrança de tempos que martelam na nossa memória. E a amassam. Raul Bopp num dos seus memoráveis poemas diz, a certa altura, num um dos seus melhores: “negro velho fuma diamba para amassar a memória”.
A morte de Galeano amassa a nossa memória e dela saem, na extremidade do nosso passado, as recordações que iluminam o presente: não pensem, aqueles que querem novamente um regime forte e de exceção no país, que os crimes cometidos à época, o foram somente contra os que pegavam em armas ou que eram contra os regimes ditatoriais.
Uma fúria repressiva que não tem freios, como ocorreu -por exemplo- aqui no Uruguai, onde estou neste momento, ou, com maior ou menor intensidade, em todos os países da América Latina, não tem limites. Milhares de jovens de todas as classes e de todas as origens políticas, que nada tinham a ver com a resistência, também foram abatidos ou torturados, pela simples suspeita levantada por uma cabelo longo, por contestar um professor que integrava os “serviços reservados” ou, simplesmente, por abrigar um amigo perseguido. Às vezes, inclusive, sem consciência do que pessoa tinha feito ou estava envolvida.
É uma simples lembrança, que registro sem expectativa que tenha influência em alguém que esteja com a cabeça pronta para defender a volta de um improvável regime militar no país, no qual as Forças Armadas cumprem um papel garantidor da soberania sobre o nosso território. Mas é uma lembrança que faço em homenagem a Eduardo Galeano, que escrevia e falava sempre se reportando principalmente aos jovens, que ele via como a verdadeira energia garantidora da ampliação dos territórios da liberdade e da igualdade.
Quis o destino que estivesse em Montevideo no dia do velório de Galeano. Anteontem à noite — bem tarde da noite —, nas antigas ruas da cidade velha, um vento úmido e quente soprava vindo do rio. As folhas caídas dos plátanos escorriam, melancolicamente, sobre as ruas da cidade na qual ele tanto amou e lutou. Foi uma dor imensa, só revelada depois. Quando uma grande lágrima continental, dos pobres, dos excluídos, dos torturados, se derramou como uma sinfonia noturna. E então Galeano viveu para sempre.
Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

13 de abr. de 2015

A morte mente

"A morte mente. Quando se imagina que uma pessoa morreu, ela está viva na memória, nas conversas, nas decisões." Eduardo Galeano que se "ENCANTOU", nesta manhã de abril.
www.erisantoscastro.blogspot.com.br

Encantou-se Eduardo Galeano, nesta manhã de abril

Foto de um usuário.
Encantou-se Eduardo Galeano, hoje (13), por volta das 9h. A informação foi confirmada por Eric Nepomuceno, cujo irmão é casado com a filha do escritor uruguaio. A teoria dos seis graus afirma que entre quaisquer duas pessoas no mundo há, no máximo, seis graus de relação pessoal; ou seja, por meio de seis contatos pessoais, você e o Papa podem estar conectados. Com Galeano, eu, que nunca o vi pessoalmente, só preciso transpor um único grau, representado pelo meu amigo Rogério Tomaz, frequentador da casa dele. Por isso, envio um abraço enlutado ao Rogério.
Assim, sinto abraçar também ao mais distinto cidadão da nossa Pátria Grande-A AMÉRICA LATINA- e desejo luz para sua passagem. Sua obra já é parte da nossa história, da nossa alma, e servirá ainda, por muitos anos, à causa da nossa emancipação.
Em 2009, o presidente da Venezuela Hugo Chávez presenteou seu colega americano, Barack Obama, com o livro As Veias Abertas da América Latina, clássico ensaio do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. O exemplar estaria autografado pelo autor.
Seu último livro Espelhos (2008) consiste em quase 600 histórias breves que, segundo Galeano, proporcionam ao leitor “viajar através de todos os mapas de todos os tempos, sem limites”.
Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos nos lembram.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, eles se vão?
Este livro foi escrito para que não partam.
Nestas páginas unem-se o passado e o presente.
Renascem os mortos, os anônimos têm nome:
os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos;
as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem;
o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que
desprezam o que ignoram;
os muitos mundos que o mundo contém e esconde;
os pensadores e os que sentem;
os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes e
os perdedores e os lindos loucos que foram e são o
sal da terra.

19 de mar. de 2013

Eduardo Galeano - 19 de março - Nascimento do cinema

Em 1895, os irmãos Lumière, Louis e Auguste, filmaram um brevíssimo curta-metragem que mostrava saída dos operários numa fábrica de Lyon.
Esse filme, o primeiro da história do cinema, foi visto por poucos amigos, muito poucos, e por ninguém mais.
Finalmente, no dia 28 de dezembro, os irmãos Lumière exibiram o filme para o grande público, junto com outros nove curta-metragens de sua autoria, que também registravam fugazes momentos da realidade.
No porão do Grand Café de Paris, aconteceu a estréia mundial do prodigioso espetáculo, filho da lanterna mágica, da roda da vida e de outras artes de ilusionistas.
Lotação completa. Trinta e cinco pessoas, a um franco o ingresso.
Georges Meliès foi um dos espectadores.Quis comprar a máquina filmadora. Como não quiseram vender, inventou outra.

7 de mar. de 2013

O espartilho e as bruchas

Por Eduardo Galeano.
 
No ano de 1770, uma lei inglesa condenou as mulheres enganadoras.
Essas pérfidas seduziam os súditos de Sua Majestade e os empurravam ao casamento utilizando artes más como "perfumes, pinturas, banhos cosméticos, dentaduras postiças, perucas, recheios de lã, espartilhos, armações, aros e brincos e sapatos de salto alto".
 
As autoras dessas fraudes, dizia a lei, serão julgadas segundo as leis vigentes contra a bruxaria, e seus matrimônios serão declarados nulos e dissolvidos".
 
O atraso tecnológico impediu que fossem incluídos nessa lei o silicone, a lipoaspiração, o botox, a cirurgia plástica e outros prodígios cirúrgicos e químicos.

5 de mar. de 2013

Mercedes Pinto: 'O divórcio como medida higiênica'



Em 1953, estreou no México um filme de Luis Buñuel chamada Ele. Buñuel, desterrado espanhol, havia filmado o romance de uma desterrada espanhola, Mercedes Pinto, que contava os suplícios da diva conjugal.
Ficou três semanas em cartaz. O público ria como se fosse um filme de Cantinflas.
 
A autora do romance tinha sido expulsa da Espanha em 1923. Ela havia cometido o sacrilégio de dar uma conferência na Universidade de Madri cujo titulo já fazia dela alguem insuportável: O divórcio como medida higiênica.
 
O ditador Miguel Primo de Rivera mandou chama-la. Falou em nome da Igreja católica, a Santa Mãe, e em poucas palavras lhe disse tudo:
- Ou se cala, senhora, ou vai embora.
 
E Mercedes Pinto foi-se embora.
 
A partir de então, seu passo criativo, que acordava o chão que pisava, deixou sua marca no Uruguai, na Bolívia, na Argentina, em Cuba, no México...


Por Eduardo Galeano.
Enviado por Eri Santos Castro.
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2 de mar. de 2013

Nesta ilha os assovios humanos são invejados pelos pássaros

Galeano - 2 de março - Digo assoviando
O assovio é a linguagem de La Gomera.
 
Em 1999, o governo das Ilhas Canárias decidiu que nas escolas fosse estudado o idioma perpetuado pelo povo que o assovia.
Nos tempos de antigamente, os pastores da Ilha de La Gomera se comunicavam assoviando, desde as montanhas distantes, graças aos barrancos que multiplicavam os ecos. E assim transmitiam mensagens e contavam o acontecido, noticias de quem tinha ido e de quem tinha vindo, ps perigos e as alegrias, os trabalhos e os dias.
 
Passaram-se dois séculos, e nesta ilha os assovios humanos, invejados pelos pássaros, continuam sendo tão poderosos como as vozes do vento e do mar.

26 de fev. de 2013

A PARTILHA DA ÁFRICA PELOS SEUS AMOS EUROPEUS



Galeano - 26 de fevereiro - África minha

No final do século XIX, as potências coloniais européias se reuniram, em Berlim, para repartir a África.

Foi longa e dura a luta pelo botim colonial, as selvas, os rios, as montanhas, os solos, os subsolos, até que as novas fronteiras fossem desenhadas e no dia de hoje de 1885 foi assinada, "em nome de Deus Todo-Poderoso", a Ata Geral.

Os amos europeus tiveram o bom gosto de não mencionar o ouro, os diamantes, o marfim, o petróleo, a borracha, o estanho, o cacau, o café, e óleo de palmeira,proibiram que a escravidão fosse chamada pelo seu nome,
chamara de "sociedades filantrópicas" as empresas que proporcionavam carne humana ao mercado mundial.
 
Avisaram que atuavam movidos pelo desejo de "favorecer o desenvolvimento do comércio e da Civilização", e, caso houvesse alguma dúvida, explicava, que atuavam preocupados "em aumentar o bem-estar moral e material das populações indígenas".
 
Assim a Europa inventou o novo mapa da África.
 
Nenhum africano compareceu, nem como enfeite, a essa reunião de cúpula.

6 de fev. de 2013

Bob Marley cantava o silêncio da fúria dos escravos guerreiros nas montanhas da Jamaica

6 de fevereiro - O grito
Bob Marley nasceu na pobreza e gravou suas primeiras músicas dormindo no chão do estúdio.
E em poucos anos se fez rico e famoso e dormiu no leito de plumas, abraçado a Miss Mundo, e foi adora por multidões.
Mas nunca se esqueceu de que ele não era apenas ele.
Pela sua voz cantavam o sonoro silêncio dos tempos passados, a festa e a fúria dos escravos guerreiros que durante séculos tinham enlouqueci seus amos ingleses nas montanhas da Jamaica.
 
Por Eduardo Galeano.
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21 de jan. de 2013

A origem do surf e a resistência dos caminhantes das águas do Havaí

Galeano - 21 de janeiro - Eles caminhavam sobre as águas
No ano de 1779, o conquistador inglês James Cook assistiu a um espetáculo muito estranho, na ilha do Havai.
 
Era uma diversão tão perigosa quanto inexplicável: na baia de Kealakekua, os nativos se divertiam ficando de pé sobre as ondas e deixando-se levar.
Terá sido Cook o primeiro espectador do esporte que agora chamamos surf?
Talvez se tratasse de algo mais que isso. Talvez houvesse algo mais nesse ritual das ondas. Afinal, aqueles primitivos acreditavam que a água, mãe de todas as vidas, era sagrada, mas não se ajoelhavam diante de sua divindade. Sobre o mar caminhavam, em comunhão com sua energia.
 
Três semanas mais tarde, Cook foi apunhalado por aqueles caminhantes da água. O generoso navegante, que havia dado a Austrália à coroa britânica, ficou na vontade de dar o Havai.

11 de jan. de 2013

'Eu não viajo para chegar> Viajo para ir.'

Galeano - 11 de janeiro - O prazer de ir
Em 1887, nasceu, em Salta, o homem que foi Salta: Juan Carlos Dávalos, fundador de uma dinastia de músicos e poetas.
Pelo que dizem os dizeres, ele foi o primeiro tripulante de um Ford T, o Ford Bigode, naquelas comarcas do Norte argentino.
Pelos caminhos afora, la' vinha seu Ford T, roncando e esfumaçando.
Vinha lento. As tartarugas paravam e se sentavam para esperar por ele.
Um vizinho se aproximou. Preocupado, cumprimentou, comentou:
- Mas, dom Dávalos... Desse jeito, o senhor não vai chegar nunca...
E ele explicou:
- Eu não viajo para chegar. Viajo para ir.

7 de jan. de 2013

Eduardo Galeano – 'Hugo Chávez es un demonio. ¿Por qué?'

Luisdomingospinheiro Pinheiro e outras 3 pessoas compartilharam uma foto de Valeria Parody.
LA DEMONIZACIÓN DE CHAVEZ - por EDUARDO GALEANO
Eduardo Galeano – Hugo Chávez es un demonio. ¿Por qué? Porque alfabetizó a 2 millones de venezolanos que no sabían leer ni escribir, aunque vivían en un país que tiene la riqueza natural más importante del mundo, que es el petróleo. Yo viví en ese país algunos años y conocí muy bien lo que era. La llaman la "Venezuela Saudita" por el petróleo. Tenían 2 millones de niños que no podían ir a las escuelas porque no tenían documentos. Ahí llegó un gobierno, ese gobierno diabólico, demoníaco, que hace cosas elementales, como decir "Los niños deben ser aceptados en las escuelas con o sin documentos". Y ahí se cayó el mundo: eso es una prueba de que Chávez es un malvado malvadísimo. Ya que tiene esa riqueza, y gracias a que por la guerra de Iraq el petróleo se cotiza muy alto, él quiere aprovechar eso con fines solidarios. Quiere ayudar a los países suramericanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, él paga con petróleo. Pero esos médicos también fueron fuente de escándalos. Están diciendo que los médicos venezolanos estaban furiosos por la presencia de esos intrusos trabajando en esos barrios pobres. En la época en que yo vivía allá como corresponsal de Prensa Latina, nunca vi un médico. Ahora sí hay médicos. La presencia de los médicos cubanos es otra evidencia de que Chávez está en la Tierra de visita, porque pertenece al infierno. Entonces, cuando se lee las noticias, se debe traducir todo. El demonismo tiene ese origen, para justificar la máquina diabólica de la muerte.
LA DEMONIZACIÓN DE CHAVEZ - por EDUARDO GALEANO

Eduardo Galeano – Hugo Chávez es un demonio. ¿Por qué? 

Porque alfabetizó a 2 millones de venezolanos que no sabían 
leer ni escribir, aunque vivían en un país que tiene la riqueza 
natural más importante del mundo, que es el petróleo. 

Yo viví en ese país algunos años y conocí muy bien lo que era.
La llaman la "Venezuela Saudita" por el petróleo. 
Tenían 2 millones de niños que no podían ir a las escuelas porque no tenían documentos. 

Ahí llegó un gobierno, ese gobierno diabólico, demoníaco, que 
hace cosas elementales, como decir "Los niños deben ser 
aceptados en las escuelas con o sin documentos". Y ahí se
cayó el mundo: eso es una prueba de que Chávez es un
malvado malvadísimo. 

Ya que tiene esa riqueza, y gracias a que por
la guerra de Iraq el petróleo se cotiza muy alto, él quiere 
aprovechar eso con fines solidarios. Quiere ayudar a los
países suramericanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, él paga con petróleo.

Pero esos médicos también fueron fuente de escándalos.
Están diciendo que los médicos venezolanos estaban furiosos por la presencia de esos intrusos trabajando en esos barrios pobres. 

En la época en que yo vivía allá como corresponsal de Prensa Latina,
nunca vi un médico. Ahora sí hay médicos. La presencia de los médicos cubanos es otra evidencia de que Chávez está en la Tierra de visita, porque pertenece al infierno. Entonces, cuando se lee las noticias, se debe traducir todo. 

El demonismo tiene ese origen, para justificar la máquina diabólica de la muerte.

27 de dez. de 2012

Matsuo Bashô, o viajante por Eduardo Galeano

Eri Castro compartilhou o status de Emir Sader.

Galeano - 27 de dezembro - O viajante
Matsuo Bashô nasceu determinado a ser samurai, mas renunciou às guerras e foi poeta. Poeta caminhante.
Um mês depois da sua morte, lá pelo ano de 1694, os caminhos do Japão já sentiam falta dos passos de suas sandálias de palha e das palavras que deixava penduradas nos tetos que lhe davam albergue. Como estas:
Os dias e os meses são viajantes da eternidade.
Assim passam os anos.
Viajam cada minuto de seus dias os que navegam o mar ou cavalgam
a terra, até que sucumbem debaixo do peso do tempo.
Muitos velhos morrem na viagem.
Eu só sucumbi à tentação das nuvens, as andarilhas do céu.

23 de dez. de 2012

Os filhos dos dias de Eduardo Galeano

Livros bons foram publicados muitos em 2012 (basta olhar o catalogo da Boitempo, com Marx, Zizek, Harvey, entre outros). Mas escolho o livro do ano, pelo seu valor e pela censura que sofre da velha midia daqui, que tentamos minimizar reproduzindo textos aqui diariamente, Os filhos dos dias, do Eduardo Galeano.

16 de dez. de 2012

O homem verde

Ontem (15) teria sido o aniversário de Chico Mendes.
Teria sido.
Mas os assassinos da Amazönia matam as árvores incömodas, e tambem matam as pessoas incömodas.
Pessoas como Chico Mendes.
 
Seus pais, escravos por dívidas, haviam chegado aos seringais vindos do distante deserto do Ceara.
 
Ele aprendeu a ler aos vinte e quatro anos.
 
Na Amazönia organizou sindicatos e juntou os solitários, peöes escravizados, índios desalojados, contra os devoradores de de terras e seus bandoleiros a soldo, e contra os especialistas do Banco Mundial, que financiam o envenenamento dos rios e o bombardeio das selvas.
 
E foi marcado para morrer.
 
Os tiros entraram pela janela.
 
Por Eduardo Galeano.
Enviado por Eri Santos Castro.
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11 de dez. de 2012

Fernando Pessoa levava dentro dele 126 hóspedes

 O poeta era uma multidão
 
Pelo que se acreditava, Fernando Pessoa, o poeta de Portugal, levava dentro dele outros cinco ou seis poetas.
No final de 2010, o escritor brasileiro Jose Paulo Cavalcanti concluiu sua pesquisa de muitos anos sobre "alguém que sonhou ser tantos".
Cavalcanti descobriu que Pessoa não abrigava cinco, nem seis: levava cento e vinte e sete hóspedes em seu corpo magro, cada um com seu nome, seu estilo e sua história, sua data de nascimento e seu horóscopo.
Seus cento e vinte e sete habitantes haviam assinado poemas, artigos, cartas, ensaios, livros...
Alguns deles tinham publicado críticas ofídicas contra ele, mas Pessoa nunca havia expulsado nenhum, embora deva ter sido difícil, suponho, alimentar uma família tão numerosa.
Por Eduardo Galeano.
Enviado por Eri Santos Castro.
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7 de dez. de 2012

De Gregório de Matos a Eurípedes

Galeano - 7 de dezembro - A arte não tem idade
No ano de 1633, mais dia, menos dia, nasceu Gregório de Matos, o poeta que melhor sabia debochar do Brasil colonial.
 
Em 1969, em plena ditadura militar, o comandante da sexta região denunciou seus poemas, que dormiam o sono dos justos faia tres séculos na biblioteca da Secretaria de Cultura da cidade de São Salvador da Bahia, como sendo "subversivos", e os atirou na fogueira.
 
Em 1984, num pais vizinho, a ditadura militar do Paraguai proibiu uma peça que ia estrear no teatro Arlequin, por se tratar de "um panfleto contra a ordem, a disciplina, o soldado e a lei". Fazia vinte e quatro séculos que a peça, As troianas, havia sido escrita por Eurípides.
 
Por Eduardo Galeano, via Emir Sader.
Enviado por Eri Santos Castro.
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2 de dez. de 2012

Hoje é o 'Dia Cotra a Escravidão'. Conheça Jonh Brown

Em meados do século XIX, John Brown, branco,traidor da sua classe, assaltou um arsenal militar na Virginia, para entregar armas aos escravos negros das plantações.
 

O coronal Robert Lee, chefe da tropa que cercou e capturou Brown, foi promovido a general; e pouco depois comandou o exército que defendeu a escravidão durante a longa guerra do Sul contra o Norte dos Estados Unidos.
Lee, general dos escravagistas, morreu na cama. Foi enterrado com honras militares, música marcial, disparos de canhão e palavras que exaltaram as virtudes "desse grandioso gënio militar da América".
 

Brown, o amigo dos escravos, foi condenado por assassinato, conspiração e traição ao Estado. Morreu enforcado em 1859, no dia de hoje.
No dia de hoje, que por casualidade e' o Dia contra a Escravidão.


Por Eduardo Galeano.
Enviado por Eri Santos Castro.
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30 de nov. de 2012

Qualquer semelhança com Barrerinhas é mera coincidência


De Emir Sader
Galeano - 30 de outubro - Encontro no Paraíso
 
No ano de 2010, começou outra conferencia mundial, a de número mil e um, em defesa do meio ambiente.
Como de costume, os exterminadores da natureza recitaram poemas de amor.
Aconteceu em Cancun.
Melhor lugar, impossível.
'A primeira vista, Cancun e' um cartão postal, mas essa aldeia de pescadores se transformou, no ultimo meio século, num modernisimo e gigantesco hotel de trinta mil quartos, que no caminho da sua prosperidade esmagou dunas, praias virgens, bosques virgens, manguezais e todos os obstáculos que a natureza colocava diante do seu exitoso desenvolvimento. Até a areia das praias foi sacrificada, e agora Cancun compra areia alheia.

14 de out. de 2012

O dia em que a Bolívia deu às costas para o McDonald's, fechando todas as suas lojas

Galeano - 14 de outubro - Uma derrota da Civilização
No ano de 2002 fecharam as portas os oito restaurantes McDonald's na Bolívia.
Apenas cinco anos durou essa missão civilizadora.
Ninguém a proibiu. Aconteceu simplesmente que os bolivianos lhe deram as costas, ou melhor, se negaram de dar-lhes a boca. Os ingratos se negaram a reconhecer o gesto da empresa mais exitosa do planeta, que desinteressadamente honrava o país com sua presença.
O amor ao atraso impediu que a Bolívia se atualizasse com a comida de plástico e os vertiginosos ritmos a vida moderna.
As empanadas caseiras derrotaram o progresso. Os bolivianos continuam comendo sem pressa, em lentas cerimönias, teimosamente apegados aos antigos sabores nascidos no fogão domiciliar.
Foi-se embora, para nunca mais, a empresa que no mundo inteiro se dedica dar felicidade para as crianças, a mandar embora os trabalhadores que se sindicalizam e a multiplicar os gordos.