Queremos
uma visão global, holística da mulher. Isso implica uma dimensão pouco
referida no dia de hoje: a porção Deus que está em cada mulher. Talvez
reside nisso a irradiação, a ternura e o amor que elas difundem na
criação e em sua relação com os homens, com os filhos e filhas, com os
maridos e com todos que estão à sua volta. Pedi ao colaborador do Blog,
Leonardo Boff, que é teólogo , filósofo e escritor, para que escrevesse
alguma coisa sobre o tema. E ele acedeu prontamente.
Agradeço essa iluminação que vai dar um ar de transcendência ao dia de hoje, dedicado à mulher .
Beijos a todas as amigas e irmãs e a todos os homens que sabem o valor das mulheres!
A porção feminina de Deus
Por Leonardo Boff
O ser humano, masculino e feminino, é
inteiro mas inacabado e só encontra
acabamento e descansa plenamente se
repousar em Deus. Isto significa: por mais que o homem e a mulher estejam,
inarredavelmente, imbricados um no outro, se busquem, insaciavelmente, eles não
encontram nessa relação a resposta de seu vazio abissal. Antes pelo contrário,
quanto mais ela se aprofunda, mais radicalidade ela pede e mútua ultrapassagem
solicita.
Ambos, pois, são chamados a se auto-transcenderem, na direção daquilo que
os pode realmente saciar, vale dizer, na direção de Deus. Ai repousam e se
perdem para dentro do infindável Amor e da radical Ternura, sem deixarem de ser
o que sempre foram e serão, homens e mulheres. É a pátria e o lar da infinita
identidade e realização.
O feminino encontrará o Feminino fontal e
o masculino o Masculino eterno. Dar-se-á o que todos os mitos narram e todos os
místicos testemunham: o esponsal definitivo, o festim sem hora de terminar e a
fusão do amado e da amada no Amado e na Amada transformados.
1. Homem e mulher: Deus por
participação
Queremos ir mais longe do que perguntar o
que significa o masculino e feminino em nosso caminho para Deus e o que
significa o masculino e feminino no caminho de Deus para nós. Ousamos
radicalizar a questão: que significa o masculino e feminino para
Deus mesmo?
Responder
a tal questão equivale a
estabelecer o quadro final (escatológico) do feminino e do masculino,
não apartir deles mesmos mas a partir da última Realidade. No termo do
infindável
processo de evolução ou no termo de nosso percurso pessoal pela morte
que
poderão esperar o homem e a mulher? Que Deus preparou para nós? Qual é a
nossa
configuração terminal? Aqui não apenas os seres humanos somos implicados
mas o
próprio Deus.
Para os cristãos, Deus é comunhão de
divinas Pessoas, cada qual se comunicando absolutamente as outras. As Pessoas
são diferentes para poderem se relacionar
umas com as outras, sairem de si mesmas em doação às demais e assim se unirem e se uni-ficarem no amor.
Essa mesma lógica essencial do
Deus-comunhão-de-Pessoas se verifica no ato da criação. Deus-comunhão cria o
diferente dele para poder seu auto-comunicar e se entregar totalmente a esse
diferente. Esse é o sentido divino da criação e, no caso em tela, do ser humano
enquanto masculino e feminino: criar um receptáculo que pudesse acolher Deus
quando esse Deus decidisse sair totalmente de si e entrar no ser humano, homem
e mulher.
Deus mesmo encontra uma realização
que antes não tinha em si, uma realização no outro diferente dele. O masculino
e feminino propiciam a Deus ser “mais” Deus, melhor, ser Deus de forma
diferente. Por isso masculino e feminino são importantes para Deus. Permitem
que Deus se faça também masculino e feminino (1).
Para que pudesse acolher Deus, o próprio
Deus dotou o ser humano, homem e mulher, com esta capacidade. Isso significa:
deu-lhe um desejo ilimitado e uma sede insaciável pelo Infinito, de tal forma que somente Deus mesmo,
como Infinito, pudesse ser o objeto secreto do amor, do desejo e e da sede
insaciável.
Esse
ser será um ser trágico porque,
ontologicamente, infeliz e frustrado na medida em que não identifica,
nestemundo, o objeto de sua plena realização. Percorrerá os céus e as
terras, osabismos e as estrelas, os mistérios da vida e os anelos mais
escondidos do
coração para encontrar o porto onde possa em fim descansar.
Dentro da presente ordem da criação não
encontrará em lugar nenhum esse objeto ansiado e desejado. Quando, porém, Deus
mesmo sai de si e se encarna num ser
humano e assim transfere seu ser Infinito para dentro do ser
humano,então criou as condições para que este ser humano encontre o que
ardentemente
desde sempre desejava. O cálice preparado para receber o vinho, fica
repleto
desse Vinho Precioso. Encontrou o Santo Graal.
O ser humano, homem e mulher, atingiu, finalmente, sua plena
hominização, fazendo-se um com Deus(2). Deixará de ser trágico para ser
bem-aventurado.
Tal fato nos faz entender o que a
tradição cristã com razão sempre afirmou: “a completa hominização do ser humano
supõe a hominização de Deus e a hominização de Deus implica a completa
divinização do ser humano”(3). Em
outras palavras, o ser humano, homem e mulher, para tornar-se verdadeiramente ele mesmo, deve poder realizar as
possibilidades depositadas dentro dele, especialmente essa de poder ser um com
Deus, de superar a distância entre Deus e criatura e conhecer uma
identifica-ção (ficar idêntico) com Deus.
Quando ele chega a tal comunhão e
uni-ficação (fica um) a ponto de formar
com Deus uma unidade sem confusão, sem divisão e sem mutação, então atingiu o
ponto supremo de sua hominização. Quando isso irrompe, Deus se humaniza e o ser
humano se diviniza. Com isso o ser humano é superado infinitamente e realiza a
sua natureza de projeto infinito. O termo da antropogênese reside, pois, nateogênese, no nascimento do ser humano
em Deus e no nascimento de Deus no ser humano.
Tal evento de ternura deve acontecer em
todos os seres humanos, homens e mulheres. A fé cristã viu esse desígnio
antecipado e, assim trazido à plena consciência, no homem de Nazaré, Jesus. Dele se diz que era o
Filho, a segunda Pessoa da Trindade e que nele se encarnou, assumindo nossarealidade humana integral (Jo 1,14).
2. Maria a espiritualização do Espírito Santo
Desde então se sabe que o masculino
e o feminino, presentes em Jesus, penetraram no mistério mais íntimo de
Deus.
São parte do próprio Deus. Para sempre e por toda a eternidade. Pouco
importa o
que ocorrer com o fenômeno humano. Ele já virou Deus e é, por
participação, a
última Realidade. O masculino explicitamente porque Jesus era um homem. E
ofeminino implicitamente porque estava presente em Jesus como parte de
sua
humanidade integral, sempre também feminina.
Mas convinha também que o feminino fosse
divinizado explicitamente para haver um equilíbrio no desígnio de Deus(4).
Efetivamente o texto bíblico de S. Lucas diz claramente que o Espírito, a
Terceira Pessoa da Trindade, veio sobre Miriam de Nazaré e, qual beduino, armou
sua tenda de forma permanente sobre ela (1,35).
O evangelista Lucas usa para a relação de Maria com o Espírito (que
para o hebraico é feminino e assim revela uma conaturalidade com Miriam) a figura da tenda (skené = episkiásei), figura
essa usada também pelo evangelista São João para expressar a encarnação da
Segunda Pessoa, o Filho, em Jesus (skené = eskénosen). Com isso quis sinalizar
a espiritualização (“encarnação”) do Espírito em Mariam. Miriam é elevada à
altura do Divino, é feita Deus, por participação. Consequentemente, diz o
evangelista Lucas: “é por isso (dià óti) que o Santo que nascerá de ti será
chamado Filho de Deus”(1,35). Só é Filho de Deus quem nasceu de alguém que é
Deus (por participação). E esse alguém é a beatíssima mulher, Maria de Nazaré.
Todas as mulheres, não só
Maria, são chamadas a essa divinização,
pois todas elas são portadores desta possibilidade de acolher Deus (o Espírito)
em si. Essa possilidade vai, um dia, se realizar plenamente. Caso contrário, um
vazio eterno existiria em sua existência de mulher. Então cada mulher, a seu
modo, será um com Deus.
Eis seu quadro final e terminal,
ser Deus por participação, Deus-Mulher, Deus-Esposa, Deus-Virgem, Deus-Mãe,Deus-Companheira. É a porção feminina de Deus.
Miriam de Nazaré, Maria, é uma
amostra antecipada daquilo que será realidade para todas as mulheres. Ela
representa a realização individual
desta revelação universal. Por ela ganhamos consciência de que o feminino foi
divinizado juntamente com o masculino. O
feminino, divinizado explicitamente em Maria, carrega consigo uma divinização implícita do masculino
presente nela.
Essa divinização do feminino não é
apenas apanágio dos cristãos. As grandes tradições espirituais e
religiosasafirmam o mesmo evento benaventurado sob outros códigos
culturais. Nas
diferenças de linguagem se pretende testemunhar a mesma realidade
sagrada. A
energia que opera esta identificação do homem e da mulher com Deus é a Kundalini para a India, o Yoga para os yogis,
o Tao para Lao Tsé, a Shekinah da mística judia da Kabala, o Espírito Santopara a tradição judaico-cristã.
Em todas elas se trata de alcançar
uma experiência de não-dualidade, de mergulho no Mistério a ponto de
identificar-se com ele, sem contudo, perder a própria identidade. Por isso
dizemos: todos somos e seremos Deus por participação.
Essa compreensão não penetrou ainda na
consciência oficial das Igrejas cristãs, marcadas pelo paradigma patriarcal.
Mas sempre esteve presente nos portadores principais da herança espiritual do
cristianismo que é o povo cristão(5).
Este adora Maria como Deus-Mãe. Na arte
sacra, nas ladainhas e mas invocações, Maria vem representada com todos os
atributos das antigas divindades femininas como o mostrou C. G. Jung. Maria é a
única grande Deusa do Ocidente como o é Kuan Yin do Oriente e o foi Isis para
as culturas antigas mediterrâneas(6) bem como é Yemanjá para a cultura
popular de tradição afro-brasileira.
Assim chegamos a um perfeito equilíbrio
humano-divino. O ser humano em sua unidade e diferença faz parte do mistério de
Deus. Não poderemos mais falar de Deus sem falar do homem e da mulher. Não
poderemos mais falar do homem e da mulher sem falar de Deus.
Escapa-nos o que significa, em
sua última radicalidade, essa imbricação
divino-humana. São mistérios que remetem a outros mistérios, mistérios
não como
limite da razão mas como o ilimitado da razão, mistérios que não metem
medoquais abismos aterradores mas que extasiam quais píncaros de
montanhas. No
fundo se trata de um único Mistério de comunhão e doação, de ternura e
de amor
no qual Deus e seres humanos estão indissoluvelmente envolvidos.
Sei que há feministas que não
aceitam esse tipo de reflexão e alegam que não precisam da divinização
paraserem plenamente mulheres. Eu apenas pondero: "estou lhe mostrando
uma
estrela; se você não a vê, não é um problema da estrela, mas um problema
seu". A oferta de sentido continua sendo válida.
Então podemos concluir: Deus não está
mais longe de nós, longe de modo nenhum. Ele é a nossa mais profunda e próxima
realidade, masculina e feminina. Somos Deus, enquanto homens e mulheres, por
graciosa participação.
Notas se rodapé
1) Veja as excelentes reflexões do teólogo católico Karl
Rahner, em Röper, A., Ist Gott ein Mann? Ein Gespräch mit Karl Rahner, Düsseldorf,
Patmos 1979; van Lunen-Chenu, M.-T. e Gibellini, R., Donna e teologia, Brescia,
Queriniana 1988; Hunt, M. e Gibellini, R., La sfida del femminismo alla
teologia, Brescia, Queriana 1980; excelentes são os números completos da
revista internacional Concilium dedicados à questão das mulheres: o n. 202 de 1985, A mulher invisível na teologia e na
Igreja; o n. 238 de 1991, Mulher-mulher e o n. 281 de 1999, A não ordenação da
mulher e a política do poder.
2) Uma reflexão mais detalhada se encontra em meu livro A Trindade, a Sociedade e a Libertação,
Petrópolis, Vozes 1979.
3)
Veja a articulação dessa idéia em Boff, L., O evangelho do Cristo
cósmico, Rio de
Janeiro, Record 2009; Id., Jesus Cristo libertador. Ensaio de
cristologia
crítica para o nosso tempo, Petrópolis, Vozes 1972, 272-275; veja também
asboas reflexões de J. Ratzinger,Introdução ao Cristianismo, S. Paulo,
Herder l970, 189-190.
4)
A argumentação teológica dessas afirmações se
encontram em meu livro O rosto materno de Deus, Petrópolis, Vozes 1979,
92-117
e difundida em outras obras minhas; veja também a discussão desta idéia
entre
as feministas que, em sua grande maioria, não assumiram o quinhão de
divindade
pertencente à mulher, ficando por isso, dependentes da divinização do
masculino
em Jesus, impedindo uma libertação realmente total da mulher: Irigaray,
L.,Equal to wohm? em Differences 1(1989) 69ss; Rae, E., Women, the
Earth, the
Divine, N. York, Orbis Books 1994, 81-93; Johnson, E., Aquela que é,
Petrópolis, Vozes 1995. 294-302; Burns, J. E., God as Woman, Woman as
God,
N.York, Paramus 1973 e outras.
5) Veja as reflexões bem documentadas de Walker, B. G.,
Retoring the Goddess, N. York, Promethes Books 2000, 341-356; famosas são as
reflexões de C.G. Jung ao mostrar que os católicos em seu inconsciente coletivo
e contra sua Igreja oficial, têm Maria como divindade; para toda esta questão
veja Unterste, P. Der Archetypus des Weiblichen in der chritlichen Kultur, em
Die Quartenität bei C.G. Jung, Zurique 1972.
6) Veja Blofeld, J., A deusa da compaixão e do amor. O
culto místico de Kuan Yin. S. Paulo, IBRASA 1995.