27 de jan de 2015

Leitura obrigatória: A crise do PT, por Aldo Fornazieri

A crise do PT tem solução: o caminho é pela esquerda!

A crise do PT é uma evidência que ganhou relevo a partir da entrevista da senadora Marta Suplicy ao Estadão, asseverando que ou o partido “muda ou acaba”. O presidente Lula já vinha emitindo juízos acerca da crise do partido mesmo durante a campanha eleitoral. Afirmou que o PT se tornou um partido igual aos outros, que se transformou num partido de gabinetes e que se corrompeu, tornando-se “uma máquina de fazer dinheiro”. 

Em diagnósticos mais recentes, Lula tem emitido a opinião de que o partido está burocratizado, de que está distante dos movimentos sociais e da juventude e de que há uma excessiva centralização. A existência da crise do PT, assim, não é uma invenção de intelectuais, da imprensa ou do PIG. É uma realidade admitida pelo maior líder do partido.
A redução da bancada federal petista, a estrondosa derrota do partido em São Paulo, a redução da margem de votos na vitória de Dilma em 2014 são resultados que devem ser debitados a dois grandes fatores: 1) aos erros do governo na condução da política econômica no primeiro mandato; 2) à imagem desgastada e de partido corrupto do PT, que carrega nos ombros os escândalos do mensalão e da Petrobras, além de outros escândalos que ganharam repercussão na opinião pública, com o empenho da grande mídia. 
Mas é preciso dizer que o empenho da mídia em desgastar o partido e o governo não anula e não isenta o PT e integrantes do governo da prática dos mal feitos. Também o fato de que no caso do mensalão a corrupção foi praticada para financiar campanhas, como admitiram ex-dirigentes, não torna a prática menos condenável. A imagem do PT como partido corrupto e a disseminação do antipetismo em amplos setores sociais são realidades que precisam ser enfrentadas se o partido quiser se reposicionar de forma correta nas disputas futuras.
A burocratização e a oligarquização são tendências naturais dos partidos, mesmo daqueles que nascem de bases populares e de massa, como é o caso do PT. Robert Michels evidenciou essa tendência em seu clássico “Sociologia dos Partidos Políticos” que completa, neste ano, o centenário de sua publicação. Michels mostra que os partidos de massa no início se caracterizam pela participação espontânea, pelo sentido coletivo e pelas práticas democráticas internas. 
Na medida em que a organização se consolida, os partidos se tornarem estruturas profissionais burocratizadas comandadas por chefes oligarcas que fazem perdurar seu mando no tempo e se tornam quase que inamovíveis. 
A militância vai se tornando cada vez mais uma massa de manobra, perde sua relevância e as direções só mudam quando ocorre uma feroz luta de novos chefes contra os velhos oligarcas. O PT não fugiu a essa “lei de bronze da oligarquia”, descoberta por Michels.
A corrupção partidária se relaciona a causas mais complexas. Em primeiro lugar há a questão clássica de que o poder corrompe. Ela se relaciona à natureza humana: sendo os seres humanos ambiciosos e egoístas propendem mais ao mal do que ao bem e só fazem o bem quando obrigados ou quando são portadores de grande virtù, sacramentou Maquiavel. 
Admitindo-se que o PT cresceu e se fortaleceu, na oposição, como partido da virtude, não só por defender a ética na política, mas por ser o partido que lutava por direitos e se colocava nas ruas ao lado dos movimentos sociais e dos mais necessitados, pode-se dizer que o poder provocou uma corrupção de princípios no partido. Lideres petistas e quadros intermediários, provenientes do movimento sindical, dos movimentos sociais e da intelectualidade da classe média, ascenderam social e economicamente com a ascensão do PT ao poder. 
Com o colapso da ideologia socialista e com a ausência de uma ideologia republicana da virtude no partido, houve um processo de acomodação às benesses de poder e de status social e econômico de muitos petistas. Arrogância, exibicionismo, sinais exteriores de riqueza e falta de humildade acompanharam essa acomodação. O cálculo pragmático dos interesses de poder substituiu as considerações de princípios e as virtudes necessárias para realizar as grandes transformações e construir a grandeza da república.
O PT perdeu a vitalidade virtuosa
Com a perda da vitalidade virtuosa do partido, os grandes embates congressuais e as mobilizações de rua em torno das reformas estruturantes, como a taxação das grandes fortunas, a reforma tributária equitativa e a reforma política, deixaram de existir. Daí à corrupção pecuniária e do Estado, seja para financiar campanhas, seja para benefício pessoal, foi um desdobramento natural da corrupção de princípios. 
Enfim, o poder enfraqueceu as antigas virtudes partidárias e amoleceu a disposição para a luta, resultando o afastamento das ruas, dos movimentos sociais e um bloqueio do debate interno. Muita gente, com razão, se sentiu traída pelo partido. Se o PT não desfizer sua imagem de partido corrupto estará realizando sua anti-história, seu anti-destino, pois ele foi a principal promessa da história republicana do Brasil de resgatar a justiça e conferir dignidade à política.
O PT pode mudar a ponto de retomar a trajetória de um partido virtuoso, capaz de apontar os caminhos das grandes reformas e mudanças do Brasil? A resposta a esta indagação é incerta. O poder, a perda da vitalidade virtuosa, a existência de um dirigismo burocrático e pragmático que vai se sobrepondo à antiga militância, são fatores que bloqueiam a mudança do partido. Nestes termos, o PT tende a se firmar como um partido normal, com diferenças circunstanciais em relação aos outros partidos. Com isso, o Brasil continuará penando na trágica normalidade da desigualdade, dos carecimentos sociais e da violência, por muito tempo. O PT ficará na história como o partido que promoveu uma política social integradora, mas insuficiente para uma transformação paradigmática do país.
Em que circunstâncias o PT poderia mudar? Infelizmente, não existem correntes internas ao partido com força suficiente e com lucidez política e programática capazes de liderar uma luta reformadora. As próprias correntes mais à esquerda são um misto de perdição em devaneios ideológicos com o pragmatismo necessário ao jogo dos interesses próprios.
Mesmo assim, restam algumas alternativas para o PT mudar. A primeira consiste na possibilidade de Lula assumir um movimento, fundado num projeto, de reforma e refundação do partido. 
Esse movimento, por um lado, deveria resgatar princípios virtuosos antigos, que davam força a combatividade militante ao partido e, por outro, precisaria construir um programa capaz de apontar o caminho da grande transformação do Brasil orientada para a redução das desigualdades, para a revolução científica e tecnológica e para o reposicionamento do país no contexto global. 
O que há de positivo neste aspecto é que Lula vem se mostrando inquieto com os descaminhos do partido. E só ele teria força e liderança suficientes para provocar essa reviravolta.
A segunda alternativa consiste na possibilidade de o governo Dilma se tornar um demiurgo capaz de construir um novo caminho, assentando não só as bases, mas fincando os principais pilares das grandes transformações do Brasil. Se o governo for capaz dessa façanha poderá exercer um poder de arrasto sobre o PT, obrigando-o a uma reforma interna. A terceira alternativa consiste na derrota eleitoral em 2018. 
Nesse caso, o saldo da experiência do partido em 16 anos de governo se revelaria negativo. O partido, provavelmente, passaria por um período de conturbações internas, de intensas disputas e de tentativas de mudança de rumos. E, por fim, poderá a administração Haddad alcançar estrondoso sucesso a ponto de ressignificar a imagem e o programa do partido junto à sociedade? Ainda não há elementos conclusivos para responder afirmativamente essa indagação. Como se vê, a história é generosa em oferecer ocasiões para que as grandes transformações ocorram. Mas ela é avarenta no que concerne ao surgimento de líderes virtuosos e capazes de comandar corpos coletivos com força suficiente para promover essas transformações.  
Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.
Enviado por Eri Santos Castro.
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