21 de abr de 2014

Autos de devassa da Inconfidência Mineira

 
"...à vista das fortíssimas instâncias com que me vejo atacado e já sabendo os juízes tudo quanto sabem, até meus pensamentos mais íntimos, não posso continuar negando, pois, se o fizesse, seria faltando clara e conhecidamente à verdade. Por isso, resolvo dizê-la, ingênua e livremente, como ela é.

É verdade que se premeditava o levante.

É verdade que me encontrei com Maciel no Rio e lhe disse que o Brasil não necessitava de domínio estrangeiro.

É verdade que a todos falava de um motim e sedição contra a Coroa portuguesa.

É verdade que o povo sofre e que induzi muita gente a combater em Vila Rica.

É verdade que o povo ignora que se pode libertar a si mesmo e que induzi muita gente a que armasse o povo para que se libertasse.

É verdade que eu queria para mim a ação de maior risco e é verdade que se existissem mais brasileiros como eu, o Brasil seria uma nação florente.

É verdade que eu desejava meu país livre, independente, republicano.

É verdade que eu confiei demais, e é verdade que abandonei aqueles para quem outros diziam querer a liberdade.

E é verdade que só os abandonados arriscam, que só os abandonados assumem, e que só com eles eu deveria tratar.


É verdade que eu tenho culpa e só eu tenho culpa."


Obs.: Confissão de Tiradentes, conforme Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri a sintetizaram na magnífica peça "Arena Conta Tiradentes", juntando fragmentos de suas declarações nos "Autos de Devassa da Inconfidência Mineira" com trechos dos depoimentos de outros inconfidentes sobre ele.

Com Náufrado da Utopia.
Enviado por Eri Santos Castro.
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