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26 de mar. de 2015

Reparação histórica: Em documentário inédito, Maria Tereza resgata o marido Jango e conta bastidores

Comício da Central do Brasil, Jango ao lado da sua esposa Maria Teresa.
Uma pequena reparação histórica – assim pretende a viúva do ex-presidente João Goulart. Jango não estava ‘na farra’, como citam livros de História, na véspera da morte de Getúlio Vargas em 1954.
Quem corrige é a ex-primeira-dama Maria Tereza Goulart, em depoimento inédito para o documentário ‘Os herdeiros de Vargas’, dos jornalistas Yacy Nunes e Daniel Zarvos, que concluíram as filmagens na segunda-feira.
Na gravação, Maria Tereza diz que Jango estava em sua festa de aniversário de 14 anos (casariam-se dois anos depois). Sua tia América, casada com Spartacus Vargas – irmão de Getúlio – ofereceu à sobrinha um jantar em Copacabana, no qual Jango compareceu.
'HERDEIROS' NA TELA
As gravações de Maria Tereza e Denize Goulart, filha de Jango, foram as últimas do filme que agora vai à edição. Na etapa final, os diretores tiveram apoio do presidente do PDT, Carlos Lupi, e de Antônio Neto, da Central dos Sindicatos do Brasil.
Em parte do depoimento, segundo Yacy narra, Denize Goulart chorou ao lembrar que seu pai fazia regime para emagrecer para conseguir 'entrar nas roupas inglesas' que ela lhe mandou de Londres.
A filha do presidente exilado e seu irmão, João Vicente, tinham ido estudar em Londres após a derrubada de Isabelita Perón na Argentina (para onde tinham fugido depois que os militares invadiram o Uruguai) , em 1976.
'Meu pai pensava em ir morar em Paris, onde estavam quase todos os amigos que ele gostava, entre eles Waldyr Pires. Meu pai era muito bom administrador de fazendas e tinha convites para implantar na Europa projetos de gestão nesse setor, pois no tempo do exílio conseguiu ter ótimos rendimentos com nossa fazenda, perto de Montevideo', explicou a herdeira.
O documentário, um trabalho de pesquisa e entrevistas de anos da dupla de jornalistas, exibirá também depoimentos dos principais políticos do Brasil, entre eles os ex-presidente Lula e FHC.

21 de nov. de 2013

Congresso aprova projeto que anula sessão que afastou Jango

O Congresso aprovou, já na madrugada desta quinta-feira, o projeto de resolução que anula sessão do Congresso, realizada na passagem do dia 1º de abril para 2 de abril de 1964 e que declarou vaga a presidência da República devido à viagem do então presidente João Goulart (foto abaixo). A decisão do Congresso, na ocasião, abriu caminho para a instalação da ditadura militar. O presidente do Senado e das sessões do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que haverá uma sessão solene para proclamar o resultado da anulação da sessão de 1964.

A medida foi aprovada apesar da obstrução do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Militar, Bolsonaro fez discurso contra a proposta e pediu verificação de quorum, o que não foi aceito por Renan. O deputado reclamou, porque no dia anterior Renan havia aceito o mesmo pedido.


Por Cristiane Jungblut, O Globo.

Enviado por Eri Santos Castro.
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14 de nov. de 2013

O último comício de Jango, que sirva de exemplo para o PT do Maranhão




Dia 13 de março de 1964. A exumação de uma luta interrompida. Sua causa é atual. Que sirva de exemplo para o PT do Maranhão.

Jango: a exumação de uma construção interropida


Jango: uma agenda interrompida Em 13 de março de 1964, Jango pronunciou um discurso memorável, que dava a agenda das reformas estruturais o lugar que ela ainda cobra na história brasileira. É para a exumação dessa construção interrompida, que reafirma sua pertinência nos dias que correm, que Carta Maior chama a atenção. E o faz dando ao discurso da Central do Brasil o espaço de atualidade que a narrativa conservadora lhe sonegou.

Redação



Família afirma que ex-presidente foi assassinado pela ditadura

Corpo de Jango é exumado em São Borja (RS)


A exumação do corpo do ex-presidente João Goulart foi concluída na tarde desta quarta-feira, no cemitério Jardim da Paz, em São Borja (RS). O processo durou cerca de dez horas. Os 12 peritos chegaram ao cemitério por volta das 6h30m, mas os preparativos para a abertura do túmulo demoraram mais de uma hora. O corpo será levado de helicóptero até Santa Maria, de onde embarca amanhã, às 5h45m, para Brasília. Também nesta quarta, senadores apresentaram projeto para anular sessão que derrubou Jango.
O corpo de Jango deixará o cemitério em meio a honras militares. Dez soldados da Brigada Militar vão fazer uma reverência com espadas durante a passagem do corpo, que será conduzido por outros quatro soldados.

Por Flávio Ilha, O Globo.
Envaido por Eri Santos Castro.
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11 de jul. de 2012

Jornalista chilena defende investigação sobre morte de Jango


Mônica González, autora de várias investigações envolvendo a Operação Condor, acredita que a morte do ex-presidente brasileiro João Goulart durante seu exílio na Argentina tem "a marca" do esquema repressivo coordenado das ditaduras sulamericanas. A jornalista considera que há elementos suficientes para supor que o presidente João Goulart foi vítima da Condor e que a prova disso exige uma investigação coordenada em várias países.
 
Enviado por Eri Santos Castro.
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17 de jan. de 2012

A resistência de Igor Lago e o PDT

Desde o dia 01 de dezembro de 2011, o nosso Partido vive uma situação inédita: a de não existir formalmente! Nunca havia acontecido isto desde a sua fundação em 1980. O PDT maranhense foi um dos primeiros nove que se organizaram em nosso país, numa luta árdua para superar as barreiras impostas pelas leis da Ditadura. Ainda garoto, aos 11 anos, ajudava meu pai a organizar as fichas de filiação. Sob as lideranças de Neiva Moreira e Jackson Lago, o PDT cresceu, conquistou mandatos legislativos e executivos, chegando à prefeitura de nossa capital, de várias cidades de nosso estado e, finalmente, ao Palácio dos Leões, impondo uma derrota única à Oligarquia maranhense.
Após o falecimento de seu insubstituível líder, o PDT maranhense reorganizou-se em 211 dos 217 municípios. E caminhávamos rumo à Convenção Estadual para, conquistarmos assim, toda a autonomia de um Diretório. Daí a minha posição de estimular os companheiros a realizarem suas Convenções Municipais, termos o número necessário de Diretórios para convocar a Convenção que deve ser marcada pela Executiva Nacional, conforme o nosso Estatuto. Também estávamos programando a realização de um Encontro Estadual em dezembro, o que acabou não acontecendo devido à não prorrogação da Comissão Estadual. Além desses prejuízos, estamos na insólita condição de não poder discutir, ainda, os rumos que o nosso Partido deve tomar em São Luis e em muitos de nossos municípios.
Acredito que um partido democrático prima pelas boas práticas partidárias, dentre elas, a de que as instâncias tenham respeito entre si. Nada mais salutar para um partido que a sua instância municipal seja respeitada pela sua instância superior, isto é, a estadual, assim como o partido estadual pela sua instância superior, a nacional. Qualquer decisão de uma instância superior, sobre os destinos de sua instância inferior, deve ser feita baseada no que o consenso ou a maioria desta determinou. Isto chama-se Democracia!
Jango, Brizola, Darci Ribeiro, Doutel de Andrade, Francisco Julião, Abdias Nascimento, Getúlio Dias, Jackson Lago e tantos outros deram suas vidas por essa instituição. Não podemos desconhecer a nossa história, esquecer os nossos ideais e princípios. Estes, pelo que significam, são eternos.
Escrevo com indignação e com a firmeza que todos devemos ter ao encarar certas situações partidárias. É preciso que todos compreendam que o nosso partido tem que ser e deve ser diferente, que deve respeitar a sua história e o seu legado. Igualmente devemos nos preparar para os embates do presente e futuro, com os pés no chão e de cabeça erguida, sabendo dos desafios políticos, eleitorais e administrativos.
É o que temos tentado fazer aqui no Maranhão, ao honrar o legado de seu fundador Jackson Lago, assim como a história de vida de todos os seus fundadores, fazendo a política com P maiúsculo, fortalecendo o Partido para apresentar candidaturas próprias e, quando não possível, fazer alianças baseadas nos valores republicanos e éticos.
Acredito que, depois de uma grande e profunda discussão, encontraremos as melhores decisões.
E não posso deixar de lembrar que, “quando se tem indignação e coragem, damos lugar à Esperança”.

Saudações Trabalhistas!
Igor Lago
Imperatriz, 13 de janeiro de 2012.

29 de ago. de 2011

Tarso Genro presta homenagens pelos 50 anos da Legalidade

O Governo do Estado realiza nesta segunda-feira (29), às 17h, uma cerimônia em homenagem ao cinquentenário do Movimento da Legalidade, no Salão Negrinho do Pastoreio, no Palácio Piratini. O ato, que terá a presença do governador Tarso Genro e demais presidentes de poderes, lembrará a história do movimento de agosto de 1961 que assegurou a posse do vice-presidente João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros.
Além dos pronunciamentos, a solenidade terá o lançamento do portal da legalidade (www.legalidade.rs.gov.br) e do foto-livro "Os 50 anos da Legalidade em Imagens", ambos produzidos pela Secretaria de Comunicação e Inclusão Digital (Secom).

O site, que já está disponível, é uma ferramenta eletrônica que arquiva todo o conteúdo existente e produzido para as atividades especialmente preparadas pelo Governo do Estado. O portal apresenta desde a cronologia dos fatos da época, contados por meio de textos, imagens, vídeos e áudios, como também links que conduzem para páginas com bibliografias e dicas de leitura. A proposta é tornar o site um mecanismo de consulta para os interessados nos acontecimentos históricos relacionados ao período.

O foto-livro, elaborado e editado pela Diretoria de Jornalismo da Secom, apresenta cerca de 100 imagens entre fotografias e reprodução de revistas e jornais da época e seis depoimentos que se misturam contando a história dos 50 anos do movimento.
Jornalistas e historiadores realizaram durante meses pesquisa bibliográfica, e através do acervo fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, Museu da Brigada Militar e Agência RBS, selecionaram as melhores imagens fazendo com que o livro se tornasse uma verdadeira viagem a 1961, ano da Legalidade.

O site e o foto-livro integram as atividades preparadas pelo Governo do Estado para marcar os 50 anos do movimento, que incluem ainda a inauguração do Memorial da Legalidade, no dia 5 de setembro, às 14h30min, nos porões do Palácio, onde funcionou a rede da Legalidade, a exposição de totens e o musical, que deverá ocorrer, ao ar livre, nos dias 3 e 4 de setembro.
 
Da assessoria (Texto: Márcia Martins)
Editado por Eri Santos Castro.

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25 de ago. de 2011

Ou um governo de minoria, instável e incapaz de executar seu programa, ou um governo estável, mas que aceita lotear o aparelho de Estado entre corruptos

Leitura obrigatória. A arte de ouvir a oposição

ou a cegueira de não interpretar uma realidade

50 anos e um falso dilema - Artigo de José Serra

Faz hoje 50 anos que Jânio Quadros renunciou à Presidência, sete meses depois da posse. Fora eleito com mais de 48% dos votos e desfrutava grande autoridade e popularidade. Eu soube que ele existia ali pelos 10 anos de idade. Morava na Vila Bertioga, no Alto da Mooca, à época um bairro da periferia de São Paulo: sem rede de esgoto, nem pavimentação e iluminação na maior parte das ruas.
Eu acompanhava algo da política por jornal, rádio e xeretando as conversas dos adultos. Lembro-me de quando dona Rosa, mãe do meu melhor amigo, operária quando solteira, disse sobre a eleição para a Prefeitura de São Paulo: "Esse Jânio é sério, diferente dos políticos". Minha mãe votou nele, cujo rosto só conhecia de um santinho colado no bar da esquina. O tostão contra o milhão! A voz do candidato? Pelo rádio, era estranha, mal-humorada com os políticos, com um sotaque parecido com o do meu professor de Latim.
Vitorioso, JQ virou figura conhecida: magro, despenteado, vasto bigode, estrábico, terno e colarinho amassados, aparência de quem ainda vai tomar banho. Tive a primeira discordância explícita com meu pai, que não votava por ser estrangeiro, mas passou a detestar o novo prefeito: "Esse aí falava contra os ladrões, mas sua Prefeitura cobra "caixinha" no mercado" - ele tinha banca no Mercado Municipal. A discórdia piorou quando Jânio deixou logo a Prefeitura para se candidatar ao governo estadual, com meu "apoio" e o de dona Rosa. E atingiu o ápice quando concorreu a presidente. Dele foi meu primeiro voto. Achava que tinha feito bom governo, operoso e sem escândalos, e apoiara um sucessor melhor: Carvalho Pinto.
Plínio de Arruda Sampaio, auxiliar do novo governador, revelou que, à época, fizeram uma discreta investigação sobre possíveis irregularidades na sua administração e nada encontraram. O padrão dos anos 50 não durou até 1985, ao voltar à Prefeitura. Fez uma gestão que envergonharia o político de 30 anos antes.
Jânio foi o primeiro grande líder popular nacional fora do establishment. Não tinha sido projetado, como Adhemar de Barros, pelo Estado Novo nem fizera carreira, como Juscelino, com políticos e partidos do âmbito varguista. Ao assumir a Presidência, aos 44 anos, era um estranho em Brasília. A renúncia levou-me a participar pela primeira vez de manifestações de rua, mas não por sua volta, e sim pela posse do vice, João Goulart, o Jango. Naquele momento ninguém entendia por que um presidente forte e popular deixara o cargo.
É interessante que o atual debate sobre governabilidade se dê no cinquentenário da renúncia. Jânio lutou pela versão de vítima, segundo a qual sua queda foi resultado da ação de forças "terríveis" (e não "ocultas"), que o teriam impedido de governar.
O depoimento de seu secretário de Imprensa, Carlos Castello Branco, confirmou a hipótese: Jânio não foi forçado à renuncia e a usou como arma para voltar com poderes imperiais. Confirmou também que ele não intentou chefiar uma quartelada - até recusou oferta de seus ministros militares. Passou por sua cabeça emular Charles de Gaulle, que renunciara à chefia do governo francês no após-guerra, em meio aos embates da política parlamentar, e fora chamado para presidir o país, com grandes poderes, em 1959. No Brasil, a História não se repetiu nem como farsa.
Jânio apostou que os comandantes militares jamais aceitariam a posse de Jango, do PTB. O impasse só teria uma saída: a sua volta. Presidente e vice eram eleitos separadamente. Jango dobrara com o general Lott, candidato do PSD. Estava criado o cenário para a instabilidade e a conspiração. JQ até estimulara a chapa "Jan-Jan" - queria alguém de risco na linha de sucessão, na suposição de que as Forças Armadas jamais dariam posse a um varguista.
De fato, os ministros militares rejeitaram Jango, que estava em Cingapura, rumo à China, em missão oficial. Enviaram um pedido de impedimento ao Congresso, que formou uma comissão mista. Veio a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola (PTB), governador do Rio Grande do Sul. A comissão negou o impedimento e aprovou a solução parlamentarista, articulada pelo PSD. Os militares aceitaram. A manobra de Jânio se frustrara.
A UDN, principal apoio de Jânio, era antigetulista, conservadora, formada em 1945, e sempre batida nas urnas pela aliança getulista PSD-PTB. Jânio fizera uma campanha simbolizada na vassoura do poder para varrer a corrupção em Brasília. "Varre, varre vassourinha..." Isso de faxina é coisa antiga.
O presidente logo se afastou de parte dos que o apoiaram, mas sem formar uma base política consistente, apesar de ter nomeado ministros dos principais partidos da situação e da oposição. A maior novidade foi a "política externa independente", com um certo afastamento dos EUA, em plena guerra fria e no calor da revolução cubana, pela qual Jânio mostrava simpatia. Começou a reatar relações diplomáticas com a União Soviética. Não se menospreze o trauma que isso representava. A violenta reação de Carlos Lacerda, o maior líder da UDN, não tardou. Jânio tinha força para articular uma base majoritária no Congresso. Preferiu o autogolpe. Fracassada a manobra, abriu caminho para a instalação da ditadura em 1964.
Hoje o Brasil é um país institucionalmente muito mais maduro. É impensável as Forças Armadas entrarem no jogo político. E os governantes sabem que não mandam sozinhos. A saga janista constitui um caso para estudo do papel do indivíduo na História. As instituições e a vida dos brasileiros foram profundamente afetadas durante décadas pela decisão desequilibrada de uma só pessoa.
A explicação de JQ para a renúncia enfatizou sempre a contradição até hoje invocada para justificar malfeitos: ou um governo de minoria, instável e incapaz de executar seu programa, ou um governo estável, mas que aceita lotear o aparelho de Estado entre corruptos. Era um falso dilema ontem. É um dilema falso hoje.
JOSÉ SERRA - EX-PREFEITO E EX-GOVERNADOR DE SÃO PAULO

20 de jul. de 2011

Um lugar para Jango


João Goulart, que há 50 anos chegava à Presidência, é resgatado do limbo da memória do país em biografia que faz análise distanciada de paixões políticas
 
Fraco, medíocre, demagogo. Fujão, covarde, traidor. Direita e esquerda carimbaram vários adjetivos na imagem de João Goulart, o presidente deposto pelo golpe militar de 1964. Esquecido, quase sem lugar nos livros de história, Jango tem em torno de si silêncio. Jorge Ferreira, 54, professor de história do Brasil na Universidade Federal Fluminense, busca desinterditar a memória desse personagem com "João Goulart, uma Biografia". Nesta entrevista, ele fala do livro e diz que populismo não é um conceito teórico, mas uma desqualificação política. "Populista é sempre o outro, aquele de quem você não gosta", afirma.
 
Folha - Por que o sr. resolveu fazer esse livro?
 
Jorge Ferreira - Estudei Getulio Vargas e o trabalhismo, daí a curiosidade sobre João Goulart. Foram dez anos de trabalho. Creio que chegou o momento de retirar Jango do limbo da memória do país. Ele foi um personagem importante, mas as análises sobre ele não se distanciam das paixões políticas. Ora é definido como demagogo e incompetente, ora como vítima de um grande conluio de empresários brasileiros com o governo norte-americano. Quis conhecer o personagem para compreendê-lo, e não julgá-lo.
 
Folha - E o que encontrou de novo?
 
Jorge FerreiraO livro é um relato biográfico, enfocando sua vida política e privada. Evitei enfoques sensacionalistas. Talvez a maior novidade seja lembrar à sociedade brasileira que um dia Jango foi líder político de expressão. Como diz o historiador inglês Eric Hobsbawm, o papel do historiador é lembrar à sociedade o que aconteceu no passado. Foi o que eu fiz.
 
Folha - Quais foram as influências sobre Goulart?
 
Jorge FerreiraGoulart, assim como Brizola, era jovem quando Vargas instituiu a ditadura. Ele entrou para a política no período democrático. Em 1945 e 1946, a democracia liberal tinha grande prestígio. As esquerdas e o trabalhismo associaram os ideais democráticos com o nacionalismo, o desenvolvimentismo, as leis sociais e o estatismo. Nos anos 1950, o Estado interventor na economia e nas relações entre patrões e empregados era um sucesso na Europa. Os trabalhistas observavam a experiência inglesa com o programa de estatizações e também o sucesso da industrialização soviética, com o Estado interventor e planejador da economia. Também culpavam os Estados Unidos pela pobreza da América Latina.
 
Folha - Por que há pouco dados sobre o empresariado em relação a Goulart e aos militares?
 
Jorge FerreiraO golpe de 1964 não foi dado por empresários que usaram os militares. O golpe foi dado por militares com apoio empresarial. A Fiesp, em inícios de 1963, apoiou Goulart na efetivação do Plano Trienal. Ele teve apoio de setores conservadores, desde que estabilizasse a economia, controlasse a inflação e se distanciasse das esquerdas, sobretudo dos comunistas e dos grupos que apoiavam Brizola na Frente de Mobilização Popular. Os grandes empresários, os políticos conservadores e a imprensa se afastaram de Goulart e passaram a denunciar o "perigo comunista" no segundo semestre de 1963, quando a economia entrou em descontrole e Jango se aproximou das esquerdas. Com o comício de 13 de março de 1964, os golpistas crescem e se unificam. A revolta dos marinheiros foi a fagulha que faltava, desencadeando gravíssima crise militar. A crise do governo Goulart tem uma história. É preciso reconstituí-la, com documentos e provas, superando repetidos jargões.
 
Folha - No livro o sr. discute a questão do populismo. Por que populismo continua sendo um termo pejorativo?
 
Jorge FerreiraSou crítico em relação ao conceito de populismo. Populistas podem ser considerados Vargas e Lacerda, Juscelino e Hugo Chávez, Goulart e Collor, FHC e Lula. Personagens tão diferentes, com projetos díspares, com partidos políticos distintos são rotulados sob o mesmo conceito. Qualquer personagem político pode ser chamado de populista, basta não gostar dele. Populista é sempre o outro, o adversário, aquele de quem você não gosta. Não se trata de um conceito teórico, mas de uma desqualificação política. Eu prefiro nomear os personagens assim como eram chamados na época: Jango era trabalhista, Lacerda, udenista, e Prestes, comunista.
 
Folha - Qual é o maior legado de João Goulart?
 
Jorge FerreiraO governo Goulart foi o auge do projeto trabalhista, que começou com as políticas públicas dos anos 1930, em época de autoritarismo. Mas que se democratizou, se modernizou e se esquerdizou a partir da segunda metade dos anos 1950. Seus elementos fundamentais foram o nacionalismo, o estatismo, o desenvolvimentismo, a intervenção do Estado na economia e nas relações entre patrões e assalariados, a manutenção e a ampliação dos benefícios sociais aos trabalhadores, a reforma agrária e a liderança política partidária de grande expressão. Creio que muitas dessas tradições inventadas pelos trabalhistas ainda estão presentes entre as esquerdas brasileiras.

Por Eleonora de Lucena/Folha Online
Enviado por Eri Santos Castro.
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