3 de mar de 2016

Tarso Genro: "Podemos falar em ‘judeus da vez’ ou é palpite infeliz? Pra quem?"

Por Tarso Genro
Publiquei no Twitter uma nota comparando a situação de Lula, atualmente – pela perseguição e discriminação política que vem sofrendo da maioria da mídia e de setores do Ministério Público –  com a situação de perseguição que comunistas, sociais democratas e judeus, sofreram, pela direita fascista durante a República Weimar e após a ascensão de Hitler ao poder, em 1933. A Federação Israelita logo publicou uma nota indignada, rapidamente apoiada pela colunista Rosane de Oliveira, designando minha posição sobre o assunto como “palpite infeliz”. Como se eu comparasse o cerco de Lula ao assassinato de seis milhões de judeus! Atribuíram-me, portanto, uma posição digna de uma pessoa ignorante ou insana, posição que  não tenho e jamais dei qualquer indício de tê-la. Talvez queiram para passar alguma mensagem que eu ainda não compreendi muito bem: que não gostam de Lula? que não gostam da esquerda? que não gostam de se misturar com outros tipos de perseguidos? ou acham que é falsa, a afirmação sobre a perseguição midiática contra Lula?
Testemunhas de Jeová, homossexuais, deficientes físicos e mentais, comunistas, sociais-democratas, ciganos, eslavos, todos foram alvo da fúria insana do nazismo, na sua busca de “criação” do homem alemão “total”. A comunidade judia foi seu alvo mais amplo e preferido, com uma bestialidade que não tem precedentes. E ela foi uma bestialidade política, o que lhe redobra a gravidade. Foram ações de barbárie cometidas para tentar consagrar uma “raça” e uma nação, através de violências pensadas e executadas a partir de partidos e do Estado, como programa e como  estratégia. Hitler programou apropriar-se dos bens da comunidade judia e escravizá-la na economia de guerra (e o fez), também utilizando o argumento de que grandes intelectuais e políticos judeus, tiveram um papel importante na  formatação da República Weimar, que ele considerava como símbolo da decadência ocidental. Eles foram mortos, perseguidos e assassinados pela direita fascista, inclusive antes de Hitler chegar ao poder: o Holocausto teve atos preparatórios, políticos e de ação direta, não foi um mero acaso racial.
As perseguições foram combinadas com ações físicas de malfeitores fardados contra  os judeus, sociais democratas, intelectuais de todas as origens, comunistas e sindicalistas, e contra todos os que lutavam pela democracia e pela República. Quando eu disse, no Twitter, que Lula era o “judeu da vez” estava me referindo claramente a estas perseguições preparatórias ao que foi o Holocausto, como barbárie “científica” e coletiva. Por que a Federação quer proibir esta analogia? Não temos direito de fazê-la, porque ela, a Federação, detém o monopólio da dor, ou porque somos de esquerda e somos solidários com  Lula? Não sabem que, quando Flavio Koutzii era torturado na Argentina, os militares torturadores diziam que a situação dele era mais grave porque “era, além de comunista, judeu?”  Seria errado  ou ofensivo à Federação Judaica, dizer que ali Flavio Koutzii “era o judeu da vez”? Ou não?  Aliás, seria ofensivo dizer que os negros, na África do Sul, do “apharteid”, foram os “judeus da vez” dos racistas de todo o mundo? Creio que a Federação Israelita não assimila o fato de que a tragédia do Holocausto é uma tragédia universal e não uma tragédia somente de uma comunidade racial ou religiosa.
Faço estes esclarecimentos em respeito a vários amigos meus, judeus, de diferentes posições políticas, com os quais tenho dialogado por muitos anos, em torno de vários assunto políticos, filosóficos e históricos, e com os quais tenho aprendido muito e quem sabe também ajudado um pouco nas suas reflexões. Em homenagem a eles, lembro outros “judeus da vez”: Walter Rathenau, ex-Ministro da Reconstrução e das Relações Exteriores (1921) da República de Weimar, assassinado – primeiro na sua reputação – depois fisicamente (24 de  jun.1922), cujos sicários Hitler, quando chegou ao poder (em 1933), declarou “heróis nacionais”; Hugo Preuss, jurista de renome internacional, “pai da Constituição Alemã”, que serviu de “judeu da vez”, para que  a direita fascista apontasse a democracia da Constituição como encomendada pelo Presidente dos Estados Unidos (Wilson), pelos judeus e pelos comunistas, para “destruir Alemanha”; Mathias Erzberger, “judeu da vez” que negociou o armistício no fim da Primeira Guerra, apontado na mídia direitista e em milhares de cartazes nos muros de Berlim, como “o gênio mau do povo alemão”, assassinado num segundo atentado em 26 de agosto de 1921, pelo Oficial da Marinha Tillesen, logo exilado na Hungria e também  declarado “herói nacional”, por Hitler, em 1933.
Acho que a expressão “judeu da vez” deveria ser consagrada como homenagem aos milhões de mortos pelo nazismo, sejam eles judeus ou não. Para que nunca mais aconteça. Independentemente de que a Federação Israelita o permita.

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