26 de out de 2015

O Estupro de Crianças – de Valentina à Araceli e o Preço que todas nós pagamos

Você teme pela sua filha? Deveria.

Valentina do MasterChef Jr. chegou até o programa porque, assim como as outras crianças selecionadas, é uma das 20 melhores crianças cozinheiras do país. O que bombou nas redes sociais depois do programa, no entanto, não foi o belo prato de Valentina, nem sua realização ao entregá-lo aos chefs-jurados. Mais do que seu sorriso de felicidade ao realizar seu sonho, o que bombou no Twitter foram os desejos sexuais expressos, por homens, a respeito de uma menina de 12 anos. Com seu corpo, seu rosto e seu comportamento infantil, Valentina recebeu uma gama de comentários sexuais, que questionavam desde o consentimento para um crime sexual e até a chamavam de “vagabunda”.
Valentina
Pra você que não sabe o que é a Cultura do Estupro, apresentamos esse comportamento que não está presente só na nossa sociedade. A cultura do estupro é o consenso sobre a prática do abuso sexual. É a sociedade que diz “sim, pode estuprar, isso está correto”.
Mas Valentina não foi a primeira.
Conhece a Araceli Sanchez? Tinha oito anos quando foi estuprada e morta por dois playboys no Espírito Santo em 1973. Voltava pra casa, depois de um dia na escola, e foi atraída para um mustang branco para dar um passeio com o “tio Paulinho”. Depois de dois dias mantida em cárcere por Paulo Constanteen Helal e Dante Michelini, Araceli teve o peito, a barriga e a vagina dilacerados por mordidas e agressões; seu queixofoi deslocado a golpes, e seu rosto foi desfigurado com ácido. A autoria dos crimes foi comprovada, e Paulo e Dante puderam descansar tranquilamente enquanto seus familiares ligados à ditadura garantissem sua absolvição. A família Constanteen Helal recebeu recentemente honrarias da Assembléia Legislativa pelo pioneirismo na maçonaria do Espírito Santo, e a avenida mais bonita da cidade em que Araceli foi morta foi nomeada de Avenida Dante Michelini, em homenagem ao avô de Dantino, o acusado.
araceli 2
E a Ana Lídia Braga, você conhece? Tinha sete anos de idade quando foi estuprada e assassinada, em 1970, pelo filho do então ministro da Justiça, o jovem Alfredo Buzaird Jr. Consta que Ana Lídia foi vendida pelo irmão, Álvaro Henrique Braga, para alguns filhos de políticos, e que teria sido levada ao sítio do então vice líder da ARENA, Eurico Resende. Lá foi assassinada quando Alfredo Buzaird Jr., Eduardo Ribeiro Resende e Raimundo Lacerda Duque estavam no sítio. A justiça atuou com bastante preguiça nas investigações: não houve análise do sêmen das duas camisinhas encontradas ao lado do corpo de Ana Lídia, as digitais no cadáver não foram especificadas, nem as marcas dos pneus de carros no local do crime. A própria família de Ana Lídia se mostrou passiva no decorrer das investigações. Em 1974, o Departamento de Polícia Federal solta comunicado que diz:
“De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através dos meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre caso Ana Lídia e
Rosana”.
 Ana lidia braga
E a Rosana Pandim? Desapareceu aos 11 anos de idade, em Goiânia, no mesmo ano do assassinato de Ana Lídia. Seu caso foi tido como “sequestro consentido”, embora não há registro de quem possa ter sequestrado a menina, uma vez que nenhum familiar estava envolvido no crime. O pai comprou um fusca e buscou a filha por conta própria até sua morte. O corpo de Rosana Pandim nunca foi encontrado. Rosana
Há uma infinidade de casos de estupro de meninas, registrados ou não. E podemos incluir o caso de Valentina nesta lista também. Sim, porque o que une os estupradores condenados de Araceli, Ana Lídia e Rosana  aos comentários sexuais sobre Valentina é a certeza, convicta e clara da impunidade sobre expressar, física, moral e literalmente a cultura do estupro infantil. As justificativas são sempre duas:
1ª – Foi apenas uma brincadeira.
2ª – Ela estava pedindo.
Os comentaristas podem se pendurar em argumentos pífios de liberdade de expressão, ou de que foi uma “simples brincadeira”, ou ainda nossa velha conhecida justificativa de que a menina não deveria ser “tão vagabunda” a ponto de despertar desejos sexuais. Seus nomes de login foram omitidos na reprodução dos comentários.
Paulo, Dante, Alfredo, Eduardo e Raimundo também se penduraram: suas ligações influentes na Ditadura garantiram sua liberdade e vida mansa.
Comentários 3
O abuso sexual pode ser uma incitação verbal, uma pressão psicológica, uma transcrição literal, um ato interrompido, uma ação coletiva, uma ação individual – é isso mesmo, estupro envolve muito mais do que penetração.
E hoje, homens que estupram não sofrem coerção pelo ato de estuprar. A constituição prevê, nós sabemos disso. Por isso chamamos de “cultura”: por mais que os instrumentos normativos garantam que o estuprador vá para a cadeia, isso não ocorre. E sabe por que?
Porque você ensina seu filho que as moças com saias curtas estão “pedindo”. Quando pronuncia a frase “está pedindo”, automaticamente está pronunciando, num dialeto social não verbal: “não é errado estuprar ou agredir, porque elas merecem isso”. O estupro é “cultural” porque é praticado e aceito pela população. É duro de ler, mas é a realidade. Quer mais uma prova de que o estupro é aceito em nossa sociedade?
O apresentador Rafinha Bastos declarou que mulheres gordas deviam agradecer caso um dia fossem estupradas. Isso porque são tão indesejáveis que seria a salvação de suas vidas caso um homem quisesse forçá-las ao ato sexual. Esta fala não rendeu nenhuma coerção ao apresentador. Fora o questionamento de alguns fãs – e eu diria até uma adesão de muita gente que pensa como ele – a fala rendeu muito mais audiência do que solicitações de explicação. Ele não se redimiu. E também nem tem porquê: a sociedade não exige dele que se redima, assim como não exige dos comentaristas de Valentina que se redimam. Afinal ela era uma “vagabunda”, não é? Pense no quão trágico e irônico é um homem sem camisa ensinar a seu filho que a a moça de saias curtas está pedindo “me estupre!”.
rafinha
A cultura do estupro é isso: vai desde o filho do delegado ao apresentador de TV, do pintor de parede ao médico com doutorado. Está entre homens, mulheres, e tristemente, entre crianças. Uma vez enquanto eu andava na rua, sem que eu percebesse, um garoto de uns nove anos apertou minha bunda, e saiu dando risada. Corri atrás dele, mas fui vencida na corrida. Um senhor que varria a calçada me socorreu, achando que ele havia me furtado, e quando eu disse o ocorrido, ele me disse: “também né dona, com essa legging!”.

Você teme pela sua filha?

Por Helena Vitorino.
Enviado por Eri Santos Castro.
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