29 de nov de 2014

Não aprendemos a escrever a favor de governos, mas aprendemos a dizer AVANTE!

Por JM Cunha Santos


Grande parte da geração de jornalistas meus contemporâneos iniciou a carreira em plena ditadura militar. Governadores nomeados, cidades ocupadas por intendentes, sonhos de liberdade, a luta pela volta ao estado de Direito, pelo fim da tortura, pela anistia, por eleições diretas. E não aprendemos a escrever a favor de governos. O caráter e as circunstâncias nos impediam e quase tudo que se escrevia acabava na cesta de papel ao lado dos editores e censores.

Depois veio a democracia. A democracia, não a normalidade democrática. A especulação imobiliária da terra, a grilagem, prisões e mortes de lavradores e lideranças sindicais no Maranhão, a tortura, a violência policial, os menores abandonados, o abuso de poder econômico, a corrupção. E lá estávamos nós, mais uma vez, sem saber como se escreve a favor de um governo. A censura saiu dos quartéis e se instalou nas redações, se tornou econômica, judicial, até virar auto-censura. E quase tudo que a gente escreveu continuou lá, na cesta de papel ao lado dos editores e censores.

Hoje, quando o prefeito de São Luís, Edivaldo, representa a democracia pela qual tanto lutamos, preferimos não atacá-lo, torcemos para que faça uma grande administração e dê alguma paz ao povo de São Luís. E, de verdade, talvez nem haja motivos. E se alguém nos diz, “mas ele é evangélico”. “É? E daí? Eu também não sou mais ateu, não posso censurá-lo por uma fé que hoje, de qualquer forma, também é minha”.

Querendo ou não, sabemos que ele, o prefeito, também é símbolo dessa liberdade que lutamos tanto para alcançar.

Fecha-se o cerco, porque nós, que erguemos tantas bandeiras vermelhas, que discutimos, quase sem entender, Marx e Engels nas universidades, assistimos no Maranhão à primeira eleição de um governador comunista, Flávio Dino. Mas que diabos, nós que nem somos mais comunistas temos a obrigação de escrever a favor do primeiro governo comunista do país! Porque ele, afinal, representa o fim da última oligarquia nacional, o último resquício do coronelismo que nos perseguiu a todos, nos deixou em silêncio e ameaçados durante tantos anos, símbolos de uma geração que não se conformou.

E é esse o nosso maior dilema. De nada nos serviram tantos anos de experiência, de nada nos serviram as faculdades de comunicação. Somos demissíveis congênitos, porque não sabemos, não aprendemos a escrever a favor de governos e, agora, para sermos coerentes com a história e com nossos ideais, temos dois governos para defender.

E, o que é pior, quase 40 anos depois, não há lugar para nós na oposição que nesse Estado, fatalmente, se formará.

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