25 de abr de 2014

Falta liderança para deter o fim do mundo

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Os dados da equação climática sugerem que a humanidade perdeu o timmimg da mitigação capaz de refrear as causas do aquecimento global.

Artigo nesta página, assinado por Roberto Savio, da IPS – Agência de notícias Inter Press Service, expõe números de uma contagem regressiva que analisada com atenção provoca calafrios.

O capitalismo encurralou o futuro da humanidade em uma estreita pinguela de uma  década e meia, se tanto.

Esse seria o tempo disponível para limar divergências, pactuar metas, dividir  cotas  e iniciar,  por volta de 2020,  um corte de 40% a 70% no volume de emissões de gases de efeito estufa, a ser concluído até 2050.

A base  de referência seria o nível de emissões de 2010.

Detalhe: aquilo que se preconiza como imperativo para as próximas três décadas destoa brutalmente da tendência registrada nas três anteriores.

As emissões no período só fizeram crescer, em degraus ascendentes.

A redução heroica projetada agora marcaria a derradeira chance de se evitar que a temperatura média no planeta aumente mais  de 2 graus Celsius até o final deste século.

A ciência adverte que qualquer degrau além  disso adicionaria um roteador endiabrado à dinâmica dos eventos extremos, anulando qualquer esforço de readaptação da atividade humana no planeta.

Mais que a indiferença diante da fatalidade, a prostração na boca do funil reflete, em primeiro lugar, um déficit de liderança na condução da agenda ambiental.

Ressalvadas honrosas exceções, ao menos no Brasil, o ambientalismo  sempre resistiu em associar a sua luta à  superação da ordem neoliberal.

Exemplo dessa contradição é o discurso da ex-ministra Marina Silva, atual candidata a vice na chapa de Eduardo Campo.

O que temos aqui? Temos aqui um inebriante coquetel de socialismo e ambientalismo  ajoelhados no altar da ortodoxia mais rudimentar e obtusa.
Campos e Marina entendem que o governo Dilma é  ‘intervencionista’.

Seu ambientalismo é cevado nas reflexões do decrescimento evocadas pelo econeoliberal, André Lara Resende, formulador de uma agradável simbiose entre arrocho fiscal e vapores sustentáveis.

A classe média semi-culta e semi-informada se inebria.

Tudo o mais fica subordinado à mais estrita vigilância de um Banco Central independente,  avisa Marina Silva.

Não vamos longe por aí.

Neomalthusianos tingidos de verde deveriam admitir, a bem da verdade,  que a bandeira do 'decrescimento’  já se encontra em vigor em sociedades díspares, da África subsaariana às economias europeias às voltas com a deflação, sob o torniquete de Merkel & FMI.

Os desdobramentos em marcha na forma de desemprego, fome e diáspora jovem  estão longe de irradiar uma aurora sustentável.

 1/3 da humanidade ainda depende da queima de lenha ou carvão (leia-se, derrubada de florestas) para preparar uma simples refeição.

 Quase um bilhão de seres humanos vive no calabouço da fome crônica. Outro tanto moureja a terra nua dispondo tão somente da força muscular para extrair seu sustento.

Mais decrescimento que isso?

Para escapar à lógica do fim do mundo  –se é que ainda há tempo—  é   preciso incorporar as circunstâncias da história realmente existente à equação sustentável.

O artigo de Roberto Sávio lembra que isso está longe de ser resolvido:

‘Dez países causam 70% do total de poluição mundial (...) os Estados Unidos e a China são responsáveis por 55%  (dela); China: os países ricos que criaram o atual problema querem que tomemos medidas que atrasem nosso crescimento?’.

Não se trata de uma contabilidade estática.

Nas últimas décadas, a desregulação imposta a todos os níveis da atividade humana agravou os contornos da crise social e ambiental.

Se os fundos  especulativos conseguem dobrar o rendimento dos detentores da riqueza financeira em  prazos curtíssimos, todos os demais setores da economia capitalista terão que perseguir idêntica voragem. Do contrário, acionistas insaciáveis fritarão o fígado de gestores empedernidos numa grande fogueira de ações nas Bolsas de Valores.

A dominância financeira impõe há mais de 40 anos uma  aceleração predatória em todas as latitudes, do macro ao micro.

 Acelerar, no léxico dos mercados, significa desregular. O quê? Tudo: da proteção ao trabalho à exploração das riquezas naturais.

A  pedra de toque do jogo do fim do mundo  são os direitos de saque sobre a riqueza disponível, exercido pela  papelama rentista cujo montante supera os US$ 600 trilhões: 10 vezes a soma do PIB planetário.

Eis o moinho satânico do nosso tempo, cujo poder de esmagamento dissemina um padrão de retorno financeiro incompatível com os valores que orientam a vida em sociedade e com as taxas de regeneração dos sistemas naturais.

A omissão ‘verde’ não isenta a negligência da esquerda diante do colapso que o IPCC prenuncia.

A década de governos do PT tirou 50 milhões de brasileiros da miséria.

Nunca é demais reiterar aquilo que desespera o conservadorismo: isso mudou a geografia política do país. Talvez de forma irreversível nos marcos da legalidade.

O que mais o PT tem a dizer a esse universo que ascendeu ao consumo e, sobretudo, como pretende que ele assuma o comando de seu destino rumo a uma cidadania plena, se no meio do caminho tem uma pedra ambiental esmagadora?

Como assegurar que a renda do pré-sal, ademais de financiar a educação pública de qualidade, erga linhas de passagem para uma matriz energética verdadeiramente à altura dos desafios do século XXI?

Os cálculos do IPCC indicam que  o sopro da barbárie já respira no planeta.

Ou alguém acredita que um poder internacional dominado pela supremacia financeira, incapaz de regular o dinheiro, terá  reservas de responsabilidade para limitar as emissões poluentes no volume preconizado pelo IPCC, e  dentro do exíguo espaço de tempo que nos resta?

As linhas da urgência ambiental e a da prostração política  indicam que a batalha da mitigação, por ora,  foi perdida.

Resta saber se a esquerda será capaz de recuperar o tempo perdido para dar à humanidade uma segunda  chance de adiar o fim do mundo.

 Por Saul Leblon.
Enviado por Eri Santos Castro.
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