23 de abr de 2014

A "chegada" de Edinho Lobão e o ritual da NARIGAÇÃO

A "chegada" e o ritual da NARIGAÇÃO
LITURGIA POLÍTICA à moda maranhense
Impressionante como as liturgias políticas do Maranhão ainda são oitocentistas: vide a cerimônia de "chegada" de Edinho 30 (o lobinho Lobão Filho) no aeroporto do Tirirical.
No poema "Nariz Palaciano", o escritor Trajano Galvão narrou a "chegada" de um Presidente de Província nos tempos do Império.
Acompanhe, com o poeta, a "chegada" do novo Presidente ao porto de São Luís e sua condução até o palácio do governo, nos idos de 1856.
(obs.: mantive a grafia do século XIX)

O NARIZ PALACIANO
Trajano Galvão
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Festivaes repicam os sinos,
Trôa no Forte o canhão;
Correm velhos e meninos,
Ferve todo o Maranhão!
Veem doutores, veem soldados,
E os publicos empregados
Com seo illustre inspector.
– Porque acorre tanto povo?
Chegou Presidente novo,
Nosso Deus, nosso Senhor...
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Mineiro papa-torresmo,
Ou bahiano carurú?
Seja quem for, – é o mesmo,
Temos nariz, e elles...
Presidente maranhense?
Que tolo ha’hi que em tal pense?!
Nem por graça isso se diz...
Indio ou chim, não nos desbanca;
Não ha mais forte alavanca,
Do que um vermelho nariz.
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Feliz tres e quatro vezes
Quem rubro nariz sortio!
Nos políticos revezes
Que narigudo affundio?
Diz errada voz imiga,
Que impéra só a barriga
Nos negócios do paiz;
O que a mente minha alcança,
É que, si o lucro é da pança,
O trabalho é do nariz.
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Por isso, no grande entrudo
Que chamam governo cá,
Folga muito o narigudo
Quando nos chega um pachá.
Pencas agudas e rombas,
Mil elephantinas trombas,
N’esse dia tomam sol:
Qual torreia, qual se achata,
Qual na ponta faz batata,
Qual se enrosca e é caracol.
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Bem como na culta França,
Cada qual seos animaes
Leva cheio de esperança,
Aos concursos regionaes:
Este, – um carneiro merino,
Aquelle, – um toiro turino,
Outro, – um cavallo andaluz!
Tal, quando o mandarim salta,
Um por um, a illustre malta,
Seo rubro nariz conduz.
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E, assim como então é d’uso
A chusma da feira erguer
Aos céos o rumor confuso
Dos que veem comprar, vender;
O anho bala, grunhe o cérdo,
Ornêa o jumento lerdo,
Brioso nitre o corcél;
– Tal a turba narigada
Nos trombones a chegada
Festeja do bacharel.
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Vem, por entre esta harmonia,
O da Côrte homem cortez,
Faz à esquerda cortezia,
À dextra mesura fez...
Mil narizes sobem, descem;
(Não de pudor) enrubecem
No furor de cortejar.
Vibram talhos de montantes,
D’essas espadas gigantes
Que Roldão soube jogar...
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Na camara do seo palacio,
Vindo da Municipal,
Vê-se o illustre pascacio
Como pisado n’um gral:
Curte comsigo, nem geme,
Que um bom nariz é bom leme
Posto à popa... em bom logar!
Um por um os monstros olha,
Que o trabalho está na escolha...
Do que melhor lhe quadrar.
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Por mais que se ponha em guarda,
Apezar de quanto diz,
Vista béca, ou vista farda,
Por força leva nariz...
Porque diz em consciência:
– “Pondo de parte a excellencia,
Tu, Presidente, o que és?
Julgas-te inqualificavel?
És um ente narigavel
Da cabeça até os pés...”
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Embora prudente e calmo,
Si um nariz de guarnições,
Poder suspender-te um palmo
N’estes tempos de eleições,
Vae tudo comtigo abaixo;
Mais asneiras que um borracho,
Juro-te que has de fazer...
Pois como do teo officio
Terás pleno exercício
Si suspenso o has de exercer?
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Permitta Vossa Excellencia
Que aos sábios ponha a questão;
É caso de consciência,
É um quid juris ratão:
– “N’estes contractos occultos,
Dizei vós, sábios consultos,
Que tendes as leis de cór,
Quem é que fica lesado?
– O mui nobre narigado,
Ou o vil narigador?...”
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Maranhão - 1856
In: GALVÃO, TRAJANO. Sertanejas (com um prefácio de Raymundo Corrêa, da Academia Brasileira de Letras). Rio de Janeiro, Edição da Imprensa Americana (Fábio Reis & C.), 1898. p. 79-82.
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Adendo:
Se não entendeste, caro amigo, a poesia do escritor,
De PUXA-SACO hoje chamamos o tal NARIGADOR,
Só que aquele – puxa o saco,
Enquanto este – cheirava o c...

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