
Tomo iniciativa de publicar um excelente depoimento sobre os 50 anos da revolução cubana, por quem viveu de perto parte dessa história. O texto que segue é de Igor Lago.
Agora em fevereiro, iremos à Havana realizar um documentário e uma série de entrevistas, que serão reunidas num livro sobre os 50 anos da revolução cubana.
Caro Eri,
Grato pela referência. Mas, acho que não a mereço. Tenho a idéia de que cometemos menos deslizes na vida quanto menos formos lisonjeados. Deveríamos correr da vaidade humana a todo instante, para evitar que ela nos determine a vida. Títulos, encomendas, honrarias várias deveriam ficar para as homenagens pós-vida.
Tenho uma idéia que carrego comigo, a saber: Já pensou como o mundo seria diferente se a cada pessoa homenageada em vida fosse dado não uma medalha, título ou prêmio qualquer, mas uma ação voltada para incrementar os benefícios que estimularam aquela pessoa a ser homenageada?
Me explico: Se a Assembléia Legislativa, a Câmara ou o Governo quiserem homenagear fulano(a) por seu trabalho cultural, por exemplo, algum(a) de nosso(a)s grandes poetas. Poderiam fazê-lo de uma forma mais simbólica e produtiva, ou seja, poderiam dedicar uma verba de seu orçamento para doar livros de poesia da pessoa homenageada para as escolas públicas do estado e dos municípios. Assim, o ego individual da pessoa seria alimentado com uma consequência coletiva. Mas, infelizmente, não é o que ocorre no nosso Maranhão. Escolas públicas, prédios públicos, praças públicas são batizados com nomes de pessoas vivas, muito vivas. Parecem servir como uma espécie de culto às personalidades. Raros são os homens públicos que conseguem fugir dessas tentações egocêntricas em nossa terra. Mas, nada como a esperança, que nos alimenta a perseverar por um futuro melhor.
Voltando ao tema, o de ter ido a Cuba estudar medicina, acho que foi uma daquelas coisas que acontecem em nossas vidas de forma única. Foi uma grande oportunidade para um jovem da ilha, filho de classe média-média, que não tinha certeza do que queria fazer. Tinha feito o vestibular sem preparo, pois tinha passado um ano nos EUA, num programa de intercâmbio cultural e, quando voltei à minha cidade, engajei-me de corpo e alma na campanha eleitoral de meu pai, a de prefeito em 1985.
No ano seguinte, fazendo cursinho, o meu pai com viagem para participar de um congresso em Cuba, falei-lhe para averiguar a possibilidade de estudar medicina por lá. Também tinha outros sonhos, como o de ir para a Rússia - país que sempre me fascinou e me fascina por sua história, cultura, povo.
O amigo e companheiro João Francisco, pessoa que tenho grande admiração e honra por conhecer desde os meus anos de garoto, sempre falava da Rússia quando nos visitava na Travessa Clóvis Bevilacqua no Anil, pois ele esteve por lá durante um ou dois anos. No dia do aniversário de minha querida irmã Ludmila (26/06/1986) recebemos em casa um telegrama avisando que havia ganho a possibilidade de estudar em Cuba, que me apresentasse em Cuba no mês de agôsto...
Foi uma mistura de alegria e, confesso, de dúvidas. Iria ou não? Fui, convivi com maravilhosos colegas cubanos e das mais diversas nacionalidades, fiz-me médico. Tivemos uma formação humanista da medicina. Estudamos Filosofia, Espanhol,...Cuba, um país pequeno em termos territoriais e de economia em relação ao nosso. Mas, ao igual que o nosso, muito rico pela sua história, pelo seu povo, por sua cultura (Alejo Carpentier, Lezama Lima, Beny Moré, Pablo Milanes, Silvio Rodriguez, Alicia Alonso, Teófilo Stevenson,...).
O bloqueio foi cruel a esse país. Não digo que foi o único responsável pela sua situação econômica, mas acho que tem sua culpa de forma considerável. Há, o que é reconhecido por cubanos das mais alta qualidade revolucionária, muitas falhas e erros do próprio modelo econômico e sistema que adotaram, excesso de burocracia, igualitarismo,etc. Não nos cabe isto aqui.
Mas, Cuba resistiu esses 50 anos, bem ali, a 120 km da Flórida, numa posição geográfica estratégica que os EUA tiveram que engolir. Sabotaram a vida desse país desde o começo da Revolução, fizeram atentados, assassinaram pessoas, invadiram e foram derrotados em Playa Girón e nas montanhas Escambray, cultivaram pragas agrícolas, tentaram matar seu líder Fidel várias vêzes, caluniaram e caluniam por meio de suas agências de informação tudo o que se refere a Cuba.
Podem falar o que quiserem de Cuba, mas acho que estamos atrás quando consideramos o ser humano em primeiro lugar. Seus índices de analfabetismo e de mortalidade infantil estão aí para qualquer discussão nesse sentido. Um gari tem o segundo grau. Não é qualquer país que tem mais de 20% de sua população com nível universitário.
Quando me perguntam a respeito de Cuba respondo: Devemos seguir o exemplo. O de colocar o ser humano em primeiro lugar. O homem precisa de comida, saúde, educação e emprego. O resto, corre atrás. Foi o que fez este país durante todos esses anos, apesar de todo bloqueio, toda falta de investimento internacional por parte das instituições bancárias mundialmente conhecidas (BIRD, Banco Mundial, FMI).
Caro Eri,
Grato pela referência. Mas, acho que não a mereço. Tenho a idéia de que cometemos menos deslizes na vida quanto menos formos lisonjeados. Deveríamos correr da vaidade humana a todo instante, para evitar que ela nos determine a vida. Títulos, encomendas, honrarias várias deveriam ficar para as homenagens pós-vida.
Tenho uma idéia que carrego comigo, a saber: Já pensou como o mundo seria diferente se a cada pessoa homenageada em vida fosse dado não uma medalha, título ou prêmio qualquer, mas uma ação voltada para incrementar os benefícios que estimularam aquela pessoa a ser homenageada?
Me explico: Se a Assembléia Legislativa, a Câmara ou o Governo quiserem homenagear fulano(a) por seu trabalho cultural, por exemplo, algum(a) de nosso(a)s grandes poetas. Poderiam fazê-lo de uma forma mais simbólica e produtiva, ou seja, poderiam dedicar uma verba de seu orçamento para doar livros de poesia da pessoa homenageada para as escolas públicas do estado e dos municípios. Assim, o ego individual da pessoa seria alimentado com uma consequência coletiva. Mas, infelizmente, não é o que ocorre no nosso Maranhão. Escolas públicas, prédios públicos, praças públicas são batizados com nomes de pessoas vivas, muito vivas. Parecem servir como uma espécie de culto às personalidades. Raros são os homens públicos que conseguem fugir dessas tentações egocêntricas em nossa terra. Mas, nada como a esperança, que nos alimenta a perseverar por um futuro melhor.
Voltando ao tema, o de ter ido a Cuba estudar medicina, acho que foi uma daquelas coisas que acontecem em nossas vidas de forma única. Foi uma grande oportunidade para um jovem da ilha, filho de classe média-média, que não tinha certeza do que queria fazer. Tinha feito o vestibular sem preparo, pois tinha passado um ano nos EUA, num programa de intercâmbio cultural e, quando voltei à minha cidade, engajei-me de corpo e alma na campanha eleitoral de meu pai, a de prefeito em 1985.
No ano seguinte, fazendo cursinho, o meu pai com viagem para participar de um congresso em Cuba, falei-lhe para averiguar a possibilidade de estudar medicina por lá. Também tinha outros sonhos, como o de ir para a Rússia - país que sempre me fascinou e me fascina por sua história, cultura, povo.
O amigo e companheiro João Francisco, pessoa que tenho grande admiração e honra por conhecer desde os meus anos de garoto, sempre falava da Rússia quando nos visitava na Travessa Clóvis Bevilacqua no Anil, pois ele esteve por lá durante um ou dois anos. No dia do aniversário de minha querida irmã Ludmila (26/06/1986) recebemos em casa um telegrama avisando que havia ganho a possibilidade de estudar em Cuba, que me apresentasse em Cuba no mês de agôsto...
Foi uma mistura de alegria e, confesso, de dúvidas. Iria ou não? Fui, convivi com maravilhosos colegas cubanos e das mais diversas nacionalidades, fiz-me médico. Tivemos uma formação humanista da medicina. Estudamos Filosofia, Espanhol,...Cuba, um país pequeno em termos territoriais e de economia em relação ao nosso. Mas, ao igual que o nosso, muito rico pela sua história, pelo seu povo, por sua cultura (Alejo Carpentier, Lezama Lima, Beny Moré, Pablo Milanes, Silvio Rodriguez, Alicia Alonso, Teófilo Stevenson,...).
O bloqueio foi cruel a esse país. Não digo que foi o único responsável pela sua situação econômica, mas acho que tem sua culpa de forma considerável. Há, o que é reconhecido por cubanos das mais alta qualidade revolucionária, muitas falhas e erros do próprio modelo econômico e sistema que adotaram, excesso de burocracia, igualitarismo,etc. Não nos cabe isto aqui.
Mas, Cuba resistiu esses 50 anos, bem ali, a 120 km da Flórida, numa posição geográfica estratégica que os EUA tiveram que engolir. Sabotaram a vida desse país desde o começo da Revolução, fizeram atentados, assassinaram pessoas, invadiram e foram derrotados em Playa Girón e nas montanhas Escambray, cultivaram pragas agrícolas, tentaram matar seu líder Fidel várias vêzes, caluniaram e caluniam por meio de suas agências de informação tudo o que se refere a Cuba.
Podem falar o que quiserem de Cuba, mas acho que estamos atrás quando consideramos o ser humano em primeiro lugar. Seus índices de analfabetismo e de mortalidade infantil estão aí para qualquer discussão nesse sentido. Um gari tem o segundo grau. Não é qualquer país que tem mais de 20% de sua população com nível universitário.
Quando me perguntam a respeito de Cuba respondo: Devemos seguir o exemplo. O de colocar o ser humano em primeiro lugar. O homem precisa de comida, saúde, educação e emprego. O resto, corre atrás. Foi o que fez este país durante todos esses anos, apesar de todo bloqueio, toda falta de investimento internacional por parte das instituições bancárias mundialmente conhecidas (BIRD, Banco Mundial, FMI).