4 de abr de 2014

A política habitacional na Venezuela: construir 'Minha casa,minha vida"-moradia popular nos melhores bairros, os bairros da burguesia

Caracas: Projeto habitacional leva chavistas a ocupar reduto oposicionista

Iniciado por Chávez e mantido por Maduro, Misión Vivienda pretende entregar 2 milhões de unidades até 2017. Em bairros ricos, ex-moradores de favelas sofrem preconceito e até agressões


Caracas – Martha Jiménez usa a gargalhada como camuflagem contra a vergonha. Na mesa do café da manhã, em um domingo de sol tímido, ela parece querer confessar um crime que não teve culpa de cometer: “Houve muitos companheiros e camaradas que não tiveram a mesma sorte que eu. Fiquei no Hotel Eurobuilding, o hotel mais caro de Caracas. Aí me trataram espetacularmente bem. Eu fui uma pessoa mais de sua clientela por dois anos e meio. Vivia como rico.”

Hoje, Martha está igual a todos os que conversam sentados à mesa: tem um apartamento ao lado da estação do metrô Bellas Artes, no distrito La Candelária, de típica classe média venezuelana. São três quartos e uma sala-cozinha ampla com televisão, máquina de lavar, geladeira, fogão, três sofás e uma televisão que nesta manhã reprisa o Alô, Presidente, programa que Hugo Chávez levava ao ar todas as semanas, durante cinco ou seis horas, respondendo a questões dos espectadores.

Ela e 155 famílias se mudaram para o local em 27 de dezembro de 2012, data que ninguém ali pretende esquecer. Bem como ninguém deixará para trás as memórias das inundações que dois anos antes abalaram centenas de famílias pobres na capital. Forçadas a deixar casas soterradas ou em situação de risco, aquelas pessoas despertaram a atenção do então presidente, que decidiu criar mais uma das “missões” de seu governo: a Gran Misión Vivienda.

As famílias desalojadas ficaram durante dois anos hospedadas em refúgios e hotéis pagos pelo Estado. Martha, doente, acabou no Eurobuilding, motivo de sua vergonha. Uma diária ali não sai por menos de R$ 1.900, segundo a cotação oficial, mas ela não teve de desembolsar um tostão. Dia e noite contou com alimentação, hospedagem e motorista. “Mas lá tinha de se arrumar. Não podia sair com o cabelo assim”, diz, e aponta para a touca que lhe prende os fios grisalhos, enquanto recorda os olhares inconformados de hóspedes durante seus passeios pela piscina.

Os dias de tamanho conforto, porém, não eram algo que desejasse manter para sempre. Nascida e crescida nos morros da Caracas pobre, Martha queria a liberdade que um hotel jamais poderia lhe proporcionar e ansiava por retornar à convivência normal de um bairro, com vizinhos, mercado, reuniões, noites com a família, a comida preparada no próprio fogão. Foi com prazer que ela recebeu a notícia de que estavam para se mudar para o prédio em La Candelária. Os vizinhos é que não apreciaram a ideia.

“Queriam o terreno para quadras de basquete, de beisebol, de futebol, do que fosse, mas que não viéssemos nós porque, como temos poucos recursos, não merecíamos estar aqui. Mas isso não importou ao presidente, porque ele nunca levou em conta a raça, a cor, de onde você vinha”, recorda Yaina del Valle Rodrigazo, uma moça de 30 anos, mãe de três filhos.
 Por João Peres, para o Rede Brasil Atual.
Enviado por Eri Santos Castro.
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