Mianmar está expulsando o povo da etnia Rohingya e, com isso, milhares de famílias estão à deriva no mar, impotentes, forçadas a beber sua própria urina porque haviam sido rejeitadas pela Malásia, Tailândia e Indonésia. Todas as semanas, cidadãos sírios e africanos também correm o perigo de morrer afogados na costa sul da Europa ao arriscar a travessia assustadora, tida como a última esperança de escapar de tortura, fome e traficantes.
Estamos enfrentando a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, mas até agora os governos estão permitindo que pessoas morram em meio a um clima crescente de xenofobia. COMPAIXÃO, esse sentimento não existe na Europa.
Boom de obras sobre o filósofo político publicadas na Itália revela esforço para entender por que a Europa está em declínio
Com
a Itália no centro da crise europeia, parte da inteligência do país tem
tentado entender as raízes de seus problemas contemporâneos relendo
autores do passado que discorreram sobre os males crônicos do Estado
italiano.
Um deles é
Antonio Gramsci (1891-1937), que recebeu vários estudos recentes, como
os de Gerardo Pastore, Raul Mordenti e Michele Filippini, todos de 2011,
além de novas edições de sua obra. Gostaria de comentar aqui uma
pequena recolha, Odio Gli Indifferenti [Odeio os Indiferentes], saída pela editora Chiaralettere, de Milão, também em 2011.
A
coletânea traz alguns de seus textos mais provocativos do período
turbulento de 1917-1918 – basta pensar na revolução bolchevique e na
Primeira Guerra –, ainda durante sua militância no Partido Socialista,
anterior a sua destacada atuação no Partido Comunista Italiano, do qual
foi um dos fundadores, em 1921.
A maior parte dos textos pode ser encontrada no volume La Città Futura [A
Cidade Futura, 1982, com duas exceções importantes: o manifesto “Gli
Operai della Fiat” [Os Operários da Fiat], que originariamente fez parte
da recolha Socialismo eFascismo (1966), e o discurso
que fez no Parlamento, em 1925, em confronto direto com o então
primeiro-ministro fascista, Benito Mussolini (1883-1945), publicado
originariamente no jornal L´Unità, fundado e dirigido pelo próprio Gramsci.
Abdicar da vontade
Partindo
da fórmula de Friedrich Hebbel (1813-1863) de que “viver é tomar
partido”, Gramsci considera que a “indiferença” da maioria da população
pelos acontecimentos públicos e, portanto, pela conquista da cidadania
constitui um misto de “abulia”, “parasitismo” e “velhacaria” que é, ao
mesmo tempo, um “peso morto da história” e uma espécie de “fatalidade”
que “opera poderosamente na história”.
A
formulação paradoxal acentua a ideia de que o que ocorre ou deixa de
ocorrer se dá não tanto “porque alguns querem que ocorra como porque a
massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer (…)”.
Desobrigando-se
de se interessar pelo que fazem os pequenos grupos ativos do país, a
massa dos indiferentes toma os acontecimentos tramados na sombra – e
que, afinal, vêm à tona – como se fosse um “enorme fenômeno natural, uma
erupção, um terremoto, do qual todos são vítimas”.
Um
desastre, enfim, pelo qual ela não tem nenhuma responsabilidade. Entre
os absenteístas, uns se queixam, outros proferem impropérios, mas são
poucos os que se perguntam se a ação da vontade a que renunciaram
poderia ter interferido nos eventos tais como se deram. Alguns chegam
mesmo a vislumbrar formas teóricas para explicá-los ou soluções
razoáveis para tê-los evitado.
No
entanto, para Gramsci, porque os seus autores não se comprometeram a
tempo, segundo a urgência da ocasião, elas não são verdadeiras
contribuições à vida coletiva. Permanecem sempre soluções que chama de
“belissimamente infecundas” porque se reduzem a um “produto de
curiosidade intelectual”.
Para
ele, incorporar um “sentido de responsabilidade histórica” diante da
vida distingue-se radicalmente de um racionalismo abstrato, de uma
iluminação intelectual a entender a vida do espírito, como fazem os
“idealistas”. Reside, antes, na compreensão de que tudo que é
concretamente vivo solicita analogamente vida – isto é, uma vontade cuja
inteligência está vinculada à mudança que ela se empenha em promover. O peso do passado
Nesse
ponto, é importante notar, como muitas vezes ocorre na leitura dos
maiores intelectuais italianos, o peso da herança antiga no pensamento
mais vigoroso a respeito dos problemas contemporâneos.
É assim que, para evitar uma interpretação irracionalista de seu voluntarismo, Gramsci, como um estoico, insiste em que “padroneggiare le passioni e liimpulsi” [senhorear
as paixões e os impulsos], no âmbito da ação participante, é decisivo
para a sua eficácia e para evitar a irritabilidade fátua a que conduz o
automatismo da vida burocratizada.
Também,
para se confrontar com a “lamúria dos eternos inocentes”, Gramsci pede a
“conta das tarefas” que lhes cabiam, isto é, cobra a consciência do que
fizeram, e especialmente do que não fizeram. À maneira de Virgílio,
quando repreende a frouxidão do espírito de Dante ao apiedar-se dos
precitos, pretende que é um desperdício dispensar piedade aos
indiferentes, partilhar com eles as lágrimas próprias.
Ao
contrário, acusa-lhes a ausência de ação animada por “luz moral”, a
falta de “consciência viril” de fazer a parte devida na “cidade futura”,
a ser construída pela coletividade dos homens, dispensada a mitologia
dos deuses. Para Gramsci, à maneira de Maquiavel, a grande questão ainda
é fazer frente à fatalidade da fortuna com uma obra política que não
libera ninguém para ficar na janela.
Em
relação ao político profissional, Gramsci considera que, para que
trabalhe em favor de uma “harmonização da realidade”, falta-lhe
geralmente o mais importante: a capacidade de “fantasia dramática”, isto
é, a força moral da “simpatia humana” a ligá-lo ao sofrimento cotidiano
dos indivíduos – não do “povo”, categoria abstrata, a serviço de uma
“idolatria democrática”.
Quer
dizer, a ação política conseqüente está condicionada a um “sentimento
do mundo” – que a guerra, paradoxalmente, com sua imensa carga de
sacrifícios inúteis e com seu automatismo sanguinário, tornou mais
palpável.
Uma
capacidade interior, necessariamente intelectual e afetiva, que acolhe a
imaginação e a dor para não se entregar à crueldade e ao caos.
Por Alcir Pécora, professor de teoria literária na Unicamp. Sugestão de pauta: Virne Teixeira. Enviado por Eri Santos Castro. Compartilhe.