Um grupo de amigos, e de amigas, é um microcosmo. Sabemos que, no seu
interior, existem, como na sociedade mais ampla, uma série de tensões
acumuladas – amor, sim, mas também rivalidade, agressão e mesmo ódio,
misturados a certa libido de grupo que não raro se traduz em violentos
casos extraconjugais, culpa, ciúmes recíprocos e desconfianças. Sem que o
diretor se preocupe em teorizar muito, é tudo isso que está em jogo
neste 'Até a Eternidade', de Guillaume Canet.
A história é a seguinte: um grupo de amigos decide manter a
programação de férias na praia mesmo após um deles ter sofrido um
acidente e permanecer em coma no hospital. Ludo (Jean Dujardin) é esse
personagem que, embora ausente a maior parte do tempo, ocupará os
pensamentos dos outros personagens. Estes se mandaram em férias de verão
na estupenda casa de praia do mais bem sucedido entre eles, Max
(François Cluzet).
O próprio Max, com sua paranoia e exibicionismo, é uma das figuras
centrais. A outra é Marie (Marion Cotillard), carente e sexy, com uma
história pontuada por namoros febris. Há também outras figuras, todas
decupadas de modo a evitar a caricatura. Descrevemo-los assim apenas por
conforto de narrativa, mas Canet trata de fazê-los complexos e
contraditórios – isto é, humanos. Em todo caso, há sempre aquele tipo
folgazão e extrovertido que logo mostrará seu lado frágil. As esposas um
pouco apagadas, mas que depois se colocarão à frente da cena. E, claro,
uma inevitável saída do armário, que terá importância central na trama,
tanto quanto, ou mais, que o acidente de Ludo.
Até a Eternidade é uma celebração da amizade, como outros filmes bem
maiores do que ele como Nós Que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. A
amizade não deve ser idealizada, como aliás o filme não o faz. É, como
já se disse, tão ambígua e sujeita e contradições como qualquer encontro
entre humanos (dizem que é assim por causa da infinita complexidade do
cérebro e sua incapacidade de formular relações simples como as de causa
e efeito). Mas, feitas as contas, e pesando-se todos os seus contras, a
amizade ainda sai com saldo muito positivo.
Essa valorização do grupo formado por pessoas com quem se tem
afinidade, com quem rimos e pelas quais podemos chorar, é a linha
dominante de Até a Eternidade. Um filme terno, divertido e emocionante.
Talvez um pouco comprido demais (154 minutos), mas é essa longa duração
que permite cenas mais complexas, cenas que exigem o tempo para que se
expressem em sua completude.
Bastante francês (quem lá viveu sabe que os
níveis de rivalidade podem deixar os nossos no chinelo), é também
universal. Em especial pela tonalidade afetiva e por essa valorização
das coisas realmente importantes, de que tomamos consciência toda vez
que perdemos alguém próximo, para nos esquecermos da lição no dia
seguinte.
Por Luiz Zanin Oricchio, no Estadão.
Enviado por Eri Santos Castro.
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