28 de fev. de 2008


O significado do novo salário mínimo

Diferentemente do período de privatização, desregulamentação e precarização neoliberal, o Brasil vai criando mecanismos de defesa amparados na capacidade produtiva e na criatividade de seu povo, o significado do novo salário mínimo, de R$ 412,40( mais de 200 dólares, na época de FHC não chegava a 100 dólares) consolida-se como o mais importante instrumento de distribuição de renda que temos no país.O Presidente Lula honra o acordado com as centrais, seguindo firme na defesa do fortalecimento do salário mínimo, que incide diretamente sobre 17,8 milhões de assalariados e 17 milhões de aposentados.


A política de valorização do salário mínimo é uma das principais conquistas da classe trabalhadora durante o governo Lula e vem tendo forte impacto positivo na melhoria da qualidade de vida da população brasileira, contribuindo enormemente para a estabilidade do país.
Conforme o anunciado pelo governo, o salário mínimo passa a valer R$ 412,40 em 1º de março – 8,52% a mais do que o valor atual (R$ 380), com aumento real (acima da inflação) de 3,7%. O reajuste dá continuidade à política de valorização dos últimos anos, já que, desde abril de 2003, o aumento real do mínimo chega a 35%, o maior em décadas.
Cumprindo o acordado com as centrais sindicais, o governo estabeleceu como cálculo para o índice de reajuste deste ano a variação do crescimento do PIB dos dois últimos anos (2006 e 2005), somado à inflação do último ano, com base no INPC. Mais: em 2009, o salário mínimo será antecipado para 1º de fevereiro, e em 2010 para 1º de janeiro, adiantamento que se traduz como melhoria concreta no bolso do trabalhador.
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Ao apostar na pujança do mercado interno, na valorização do trabalho, na geração de emprego e distribuição de renda, o governo federal também aciona um antídoto contra a crise que abala os Estados Unidos e promete contaminar parte da economia internacional.
Assim, em 2007 houve aumento de 5,85% no emprego formal (carteira assinada), com saldo positivo de 1,6 milhão de novos postos de trabalho e crescimento em todos os setores. Os números estão aí: 587.103 empregos nos serviços (+5,29%), 405.091 no comércio (+6,56%) e 394.584 na indústria de transformação (6,09%).
Para as cassandras da mídia e da oposição, que tentam inviabilizar a justiça social no país mantendo a perversa desigualdade e concentração de renda, a vida vai ficando cada vez mais dura.

26 de fev. de 2008

O fim do abuso de processos contra jornalistas

A remoção do mais tóxico dos entulhos deixados pela ditadura militar, a Lei de Imprensa, sancionada em fevereiro de 1967, tardou quase 20 anos. Qualquer que seja a resposta, a demora é mais uma demonstração de que, no Brasil, as transformações institucionais modernizadoras nunca são prioridade dos que estão no governo. Não fosse o que a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) considerou "uma campanha coercitiva contra os meios de comunicação sem precedentes no País" - os 56 sincronizados pedidos de abertura de processo por dano moral contra dois jornais e uma agência noticiosa, subscritos por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus -, sabe-se lá quanto tempo ainda passaria até que se pudesse comemorar o fim das ameaças à liberdade de imprensa que, por interferência de forças ocultas (mas nem tanto), continuaram pairando no ar depois de promulgada a Constituição Cidadã.

Mas o fato é que, meras 48 horas depois de o deputado Miro Teixeira, em nome do seu partido, o PDT, requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) a revogação da lei autoritária ,o relator da matéria, ministro Carlos Ayres de Britto, concedeu liminar que suspende no todo ou em parte uma vintena dos seus 77 artigos. Mais: ele determinou a paralisação imediata dos processos abertos com base nos artigos visados, bem como de suas conseqüências eventualmente em curso.

"Imprensa e democracia", ponderou Britto, "são irmãs siamesas." E fez uma frase que irá para a história da afirmação das liberdades civis no Brasil: "O que quer que seja pode ser dito por quem quer que seja." É bem verdade que a liminar incide, entre outros, sobre dispositivos que o STF, em decisões tópicas, já considerara incompatíveis com a Carta de 1988.A diferença é que a iniciativa de Miro Teixeira, se for acolhida pelo Supremo no julgamento do mérito ainda sem data marcada, validará a premissa de que a Constituição prevalece sobre uma lei que não só lhe é antagônica, como tampouco se justifica a qualquer título. Nas democracias em que o princípio da liberdade de expressão e o direito à informação coexistem, embora não sem tensões, com o direito à reparação por lesões à honra, imagem e intimidade, os Códigos Civil e Penal devem ser suficientes para punir as transgressões da mídia.

Se a legislação comum brasileira não o for, que se a aperfeiçoe. Inadmissível, como assinalou o ministro Britto, citando o artigo 220 da Constituição, é restringir "a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo".Rigorosamente coerente com a Lei Maior, a liminar derruba as punições a jornalistas por supostos delitos de imprensa - mais severas, aliás, do que as previstas no próprio Código Penal, no capítulo dos crimes contra a honra (por exemplo, 3 anos de detenção em vez de 2, em casos de calúnia).

Caem também as multas por notícias falsas, deturpadas ou ofensivas à dignidade alheia; a imunidade de altas autoridades da República à exceção da verdade; e a apreensão sumária de periódicos por subversão da ordem política e social ou por ofensa à moral e aos bons costumes. Um dos artigos suspensos é o que permite a censura a espetáculos e diversões. Outro é o que proíbe a estrangeiros a propriedade de organizações de comunicação de massa. Em relação a ambos, a liminar cria um ruído jurídico, dado que a Constituição deles já trata (a censura é admitida e a participação estrangeira, aceita, até o limite de 30% do capital da empresa).

O essencial é que a abolição da Lei de Imprensa, se se concretizar, não tornará a mídia inimputável nem premiará a leviandade jornalística. Em contrapartida, fará cessar a "escalada de intimidação", como apontou o deputado Miro Teixeira, "que tem efeitos mais agudos contra os veículos de pequeno e médio portes, muitas vezes distantes da fiscalização popular dos grandes centros". E, acima de tudo, consagrará a visão contemporânea das condições para o exercício legítimo da atividade informativa, enunciadas pelo ministro Ayres Britto: "A imprensa não é para ser cerceada. Não é para ser embaraçada. É para ser facilitada e agilizada."

Pela primeira vez na história o Brasil é credor externo


As contas externas de janeiro apresentaram duas faces. A boa notícia é que foi confirmado que o saldo dos ativos brasileiros no exterior, de US$ 203,190 bilhões, supera o valor da dívida externa, de US$ 196,207 bilhões, tornando o Brasil credor internacional. A ruim é que as transações correntes do balanço de pagamentos apresentaram, no mês, um déficit de US$ 4,292 bilhões, valor superior às expectativas.

A posição de credor externo do Brasil foi alcançada graças ao aumento das reservas internacionais, que, no final de janeiro, somavam US$ 187,507 bilhões. A manutenção dessas reservas tem um custo elevado, que se estima, para 2008, em R$ 19,540 bilhões, em conseqüência da diferença entre os juros que o governo paga por sua dívida interna (R$ 25,290 bilhões, incluindo swaps) e os que recebe como remuneração das reservas, que, admitindo uma taxa cambial de R$ 1,70 por dólar, deverá ser de R$ 5,75 bilhões. Quanto mais o real se valoriza, maior é o custo para o governo, ao mesmo tempo que uma redução da taxa básica de juros nos EUA diminui as receitas.
Quando uma floresta mantida de pé valerá mais que uma tombada?

Na floresta densa, ao contrário do cerrado, a rapina ambiental chega muito antes da agropecuária. Entender esse ponto é fundamental. Quando vem a derrubada, em corte raso, as serrarias já extraíram a melhor madeira de lei. Primeiro, caem as cobiçadas árvores de mogno, ipê e cedro. Depois, deitam o jatobá e a maçaranduba. Tudo escondido.
O crime ecológico, quando detectado pelo satélite do Inpe, estoura na mídia e bate na cara do agricultor, mas apenas resvala nos verdadeiros ladrões da floresta. Aqui, no comércio da valiosa madeira, reside a origem do problema. Ou se enfrenta a lógica dessa economia perversa ou nada restará da floresta amazônica.Esse processo histórico, um conluio entre o poder público e o privado, madeireiros e proprietários rurais, posseiros e assentados de reforma agrária, exige duas formas de controle: primeira, a fiscalização do transporte, vistoriando os caminhões nas rodovias que partem da Região Norte. As cargas são volumosas, notórias. A polícia, armada nas barreiras, não pega ladroagem se não quiser.
Segunda, urge reduzir o uso da madeira de lei na construção civil, substituindo-a por floresta plantada (pinus e eucalipto) na confecção de telhados e que tais. São Paulo consome 15% do rico lenho extraído da Amazônia. Nos tempos de aquecimento global, esse costume, quase uma adoração, pelo uso da madeira de lei, inclusive na movelaria, precisa ser repensado. Gosto antigo, oligárquico.Calma. Para liquidar o assunto falta ainda burilar num dogma: a legislação agrária do País continua confundindo floresta com terra improdutiva. Resultado: para escapar da reforma agrária, ao adquirir uma mata virgem, o proprietário manda derrubar, rápido, tudo o que puder. Vem sendo assim desde os anos 60, com o Estatuto da Terra.
Ora, os tempos mudaram. Terra de onça não pode ser sinônimo de latifúndio. É verdade que, averbando a Reserva Legal à margem da escritura, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) fica impedido de considerá-la improdutiva. Nesse caso, a área preservada fica exposta, sem perdão, aos invasores de terra. Triste sina.
A corrente da devastação somente se inverterá quando um pedaço de floresta, mantido em pé, valer mais que tombado. A equação é complexa, dispensa raciocínio fácil. Um dia a sociedade vai premiar, e não castigar, a conservação ambiental.
Com atraso de mais de 50 anos o Brasil poderá acatar convenção da OIT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso mensagem propondo a ratificação da Convenção nº 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que, se aplicada, fortalecerá os sindicatos e dificultarão demissões sem justificativas. Um dos artigos da convenção determina que qualquer dispensa não justificada terá de ser previamente negociada pela empresa com o sindicato dos trabalhadores. Se a empresa alegar motivos de natureza econômica para a demissão, terá de justificá-los.

Os sindicalistas aplaudiram a iniciativa (durante o ato, o presidente assinou também mensagem propondo a ratificação da Convenção nº 151, segundo a qual a administração pública deve fazer negociação coletiva com os funcionários, o que atende a uma exigência dos sindicalistas do setor público). A convenção, segundo eles, reduzirá a rotatividade da mão-de-obra, mecanismo utilizado pelas empresas para, como afirmam os sindicalistas, forçar a redução da remuneração média dos trabalhadores.

É a segunda vez que o governo propõe a ratificação da convenção. A primeira vez foi no governo Itamar Franco. O Congresso aprovou o texto da convenção, mas o presidente Fernando Henrique suspendeu sua vigência no direito brasileiro.Desde então, os sindicalistas vêm pedindo o envio de nova mensagem ao Congresso. O presidente Lula aceitou fazer o que lhe pediam seus antigos companheiros sindicalistas. A ratificação da convenção será um marco e uma conquista para a classe trabalhadora brasileira.

Em tempo: essa convenção da OIT á da década de 50 do século passado e somente agora o Brasil efetivamente poderá acatá-la.
JOGO BAIXO ENTRE OS DEMOCRATAS
Com uma semana para as próximas primárias do Texas e Ohio, agentes da campanha de Hillary Clinton teriam começado a circular neste fim de semana uma foto de Barack Obama vestido com roupas tradicionais da Somália, causando discussão entre os pré-candidatos democratas. Isso tudo para associar a candidatura de Obama aos negros africanos, como forma de preconceito racial e religioso, uma vez que circula na internet informações de que ele seria mulçumano. E é só o começo.

A foto foi tirada em 2006, durante uma visita do pré-candidato republicano a Wajir, área rural do norte do Quênia. Na ocasião, Obama visitou 5 países africanos.

JUNTO COM A FOME ACABARÃO OS CORONÉIS
Os Territórios da Cidadania, que prevê investimentos de R$ 11,3 bilhões para reduzir a pobreza em áreas rurais de baixo desenvolvimento social, certamente será criticado por ser considerado assistencialista, mas quem tem fome tem pressa. Ademais, esse tipo de benefício é uma forma de distribuição de renda. Paralelo a isso uma forte ação na área de educação é vital para que o país não precise um dia de programas sociais dessa natureza. O lançamento do novo programa, que beneficiará 958 municípios em 2008, acontece em ano eleitoral, onde predomina a força dos coronéis. Junto com a fome acabarão os coronéis.

25 de fev. de 2008


A religião do Verbo e a pureza eliotiana frustrada
Toda filosofia pós-derrocada-das-últimas-fantasmagorias-metafísicas tenderia a estender a acepção heideggeriana "a língua é a morada do ser" para algo como "a língua é a morada, a origem e a finalidade do ser", instituindo assim a nova religião de neo-kantianos e wittgenstanianos de plantão. O principal mote destes novos fiéis, cujo tour-de-force consiste em transformar o deus do opúsculo em quintandeiro, e os major dilemmas em quimeras verbais , é a idéia de que só existe realidade dentro da linguagem, sendo qualquer inclinação para além dela considerada uma metaphysical delusion.
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A função de todo símbolo, portanto, que seria a de apontar para algo além dele próprio, se restringe a confluir para o símbolo hipersaturado da linguagem, que cria e absorve os efeitos de suas associações lógicas - uma espécie de metonímia de si mesma. O papel específico do logos parece ter sido reabsorvido pelo myhtos, transformando tudo em fabulação, e retirando a dimensão do desvelamento da realidade ao qual a linguagem se subordinava.
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A interiorização do Ser, a imanentização do eschaton, os adiamentos de significado, imantam todos de uma vez a "medida invisível" - responsável pela escalada dos graus de consciência - suprimindo-a em seu redomoinho. A insubordinação da linguagem e sua negação de que a realidade é algo que não ela própria, faz criar uma arbitrária teia verbal que joga com a própria crença de poder instaurar os mais diversos sentidos que lhe ocorra, fazendo um verdadeiro carnaval, tanto na linguagem das artes quanto da filosofia.
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Talvez o teor intelectualista da poesia de Eliot, seja resultado daquilo que ele dizia sobre a poesia não precisar ter comprometimento algum com a visão de mundo do autor, e que, para gostar de um poema, você não precisava necessariamente gostar da idéia contida no poema, isto é, a filosofia pode estar na poesia, mas como elemento estrutural, como "correlato objetivo". Concordo com reservas. É certo que a poesia não precisa ser filosofia e vice-versa, mas não porque elas se encerram em linguagens "puras", mas simplesmente porque utilizam os meios mais adequados para atingirem suas metas, o que não impede, oras, de a poesia ser sim, filosofia também, e a filosofia de estar expressa de uma forma mais poética: segundo Orígenes, é possivel atingir o mesmo gist por caminhos diferentes.
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Todos elogiam o fraseado de Eliot, mas a verdade é que ele não seria bom se a sua poesia em algum momento não deixasse de trair sua visão de mundo, daí que "a poesia não é um modo de libertar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade. É claro, porém, que somente aqueles que possuem personalidade e emoção sabem o que significa querer escapar delas".


Onde Os Fracos Não Têm Vez


Cena do filme O humor negro e uma fina ironia diante do lado escuro da alma humana frequentam habitualmente a obra dos irmãos cineastas Joel e Ethan Coen (Fargo e E Aí Meu Irmão, Cadê Você?). Mais uma vez, este é o tom em Onde os Fracos não Têm Vez.
» Veja fotos do filme


O roteiro, também assinado pela dupla, parte do romance Onde Os Velhos Não Têm Vez, do norte-americano Cormac McCarthy, considerado um dos melhores escritores em atividade dos Estados Unidos.
Na fronteira do Texas, região do Rio Grande, um sujeito comum chamado Llewelyn Moss (Josh Brolin, Planeta Terror) encontra uma picape cercada de corpos, com US$ 2 milhões e uma grande quantidade de heroína.
Moss nem desconfia que ao pegar do dinheiro desencadeará uma série de acontecimentos que poderão culminar em sua ruína. Especialmente porque isso coloca em seu caminho Anton Chigurh (Javier Bardem, de O Amor nos Tempos do Cólera), um assassino sem escrúpulos ou limites.
A terceira peça desse jogo é o xerife Ed (Tommy Lee Jones, de No Vale das Sombras), a voz da razão nesse inferno povoado por homens sem escrúpulos. Ele está prestes a se aposentar. Este poderá ser seu último caso antes do adeus à profissão, a mesma, aliás, de seu pai e avô.
Chigurh não mede esforços para ir atrás daquilo que julga ser seu e foi roubado. Isso significa dizer que absolutamente ninguém fica em seu caminho - aparentemente, ninguém sobrevive a um encontro com esse homem, é bom dizer.
Indicado ao Oscar de coadjuvante por esse trabalho, o ator espanhol Javier Bardem parece vestir Chigurh como uma segunda pele. Seu olhar sempre parado, seu corte de cabelo engraçado e suas atitudes imprevisíveis transformam-no numa das figuras mais assustadoras do cinema dos últimos tempos.
Essa interpretação já lhe rendeu diversos prêmios, como o Globo de Ouro e o do Sindicato dos Atores da América, e o coloca como favorito para o da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas, que será anunciado dia 24 próximo.
O tom irônico dos filmes dos Coen encontrou na obra de McCarthy uma profundidade muito bem-vinda abordando uma história tipicamente norte-americana de ambição desmedida, onde será inevitável correr muito sangue.

Fonte: Site oficial do filme

24 de fev. de 2008


Eu acho que falta de pudicícia é isso...
Maiores explicações (ou não) estão primeiro aqui, depois ali e acolá. A gravura ao lado chama-se singelamente Guitar Lesson (1934) e causou certo escândalo ao mostrar uma púbere sendo molestada sexualmente por sua professora. Aprendam, meninos; isto sim é falta de pudicícia! A propósito, no próximo 29 de fevereiro fará cem anos que seu autor, Balthus (1908 - 2001), nasceu. Apesar disto, a produção de Balthazar Klossowski de Rola não era nada bissexta, era antes copiosa, cheia de meninas púberes em poses lânguidas. Mas não se enganem, foi um imenso pintor e sua produção é significativa e variada.

21 de fev. de 2008



Por qué não te callas, Bush ?


O nazi-fascista presidente dos EUA, George Bush, que dissemina a "democracia" no Oriente Médio com bombardeios, deveria calar a boca. É o último a ter direito a algum comentário sobre a merecida aposentadoria do vitorioso líder cubano Fidel Castro, que acaba de ser anunciada. Bush espera que haja uma "transição democrática" em Cuba após a saída de cena de Fidel Castro. Transição democrática um cacete.


O castrismo foi o símbolo de soberania e independência de um povo. Os abutres estão de olho em Cuba. Leiam o que disse o secretário de Estado para Assuntos Europeus da França, Jean-Pierre Joueyt. Ele espera que Cuba siga pelo caminho da "democracia". Que democracia cara-pálida?


Fidel Castro entendeu muito bem o significado da queda do Muro de Berlim, o desmoronamento da URSS, a hegemonia do Império no mundo, o risco de tudo isso para o povo cubano. Tanto que endureceu o jogo com os governantes nazi-fascistas dos EUA que se dizem democratas. Democratas um cacete.Se os EUA foram o maior inimigo de Cuba, responsáveis pelo "democrático" bloqueio econômico, Cuba foi o país que mais resistiu ao imperialismo dos EUA.


Fidel permaneceu mais de cinco décadas no poder, o que não teria acontecido se não tivesse o apoio da população.Fidel sobreviveu a nove diferentes governos nazi-fascistas dos EUA. E também a várias tentativas de assassinato planejadas pela CIA. Ousou nacionalizar empresas norte-americanas e passou a sofrer o embargo econômico.Fidel é um revolucionário. Ele derrubou o regime de Fulgêncio Batista, marcado pela corrupção, que fazia de Cuba um paraíso dos ricos dos EUA que dominavam a prostituição, a jogatina e o tráfico de drogas. Era a democracia. Mesmo aposentado, fora do poder, Fidel Castro será um exemplo para o mundo. Os EUA tentaram derrubar Fidel Castro em 1961 desembarcando traidores cubanos chefiados por marines na Baía dos Porcos. Fracassaram. Os EUA ao longo de 50 anos fracassaram sempre ao tentarem impor a "democracia" na Ilha.Cuba sempre foi solidária com os movimentos revolucionários no mundo inteiro. Deu apoio às guerrilhas revolucionárias em Angola e Moçambique. Enviou Che Guevara para a Bolívia.


O tempo da revolução passou, e Cuba avançou no bem-estar do seu povo, apesar do criminoso bloqueio econômico dos EUA. O serviço de saúde pública de Cuba é considerado um dos melhores do mundo. Possui o menor índice de mortalidade infantil em comparação com as "democracias" da América Latina.

20 de fev. de 2008


OBA! OBAMA



É Luther king, Zumbi e Nelson Mandela.
Tomara que não seja mais um Michael Jackson ou Pelé.

O mito do quarto poder e
outros mitos diante da crise do jornalismo


No jornalismo, freqüentemente se recorre ao discurso de crise profissional. Espremido entre os interesses políticos e as pressões do mercado, o jornalista se apega a essa idéia para legitimar sua independência e função social, pois a prática cotidiana dificilmente se aproxima da auto-imagem da profissão. Dessa forma, a análise que se faz da realidade do jornalismo se confunde com o discurso normativo sobre o que deveria ser essa atividade de um ponto de vista idealizado.
Atrás do discurso de crise, existe um complexo mecanismo de construção e reificação do jornalismo enquanto realidade socialmente construída. Através dele, o conflito entre os mitos da profissão e a prática cotidiana ajudam a explicar a identidade social do jornalista. A seguir, uma breve exposição dessa relação.
O mito da "idade de ouro" da imprensa
A crise do jornalismo se baseia, antes de tudo, no mito de uma "idade de ouro" da atividade, que teria ocorrido por volta da década de 1950. Nessa época se construiu a definição do jornalismo informativo, independente, compromissado com a verdade e com o interesse público. Essa concepção foi expressa pela Teoria da Responsabilidade Social no Jornalismo, elaborada nos Estados Unidos pela Comissão para a Liberdade de Imprensa. A teoria é, sobretudo, uma resposta à crescente concentração empresarial dos meios de comunicação norte-americanos. Por isso, ela institui diretrizes que orientaram a prática jornalística de forma a melhorar a qualidade da produção noticiosa e separá-la da necessidade de gerar lucros
A transformação dos jornais em empresas capitalistas a partir dos anos 1970 e a conseqüente submissão das redações à lógica do mercado teriam levado a um declínio desse ideal. O que o mito da idade de ouro faz, nesse caso, é buscar separar o que seria "o verdadeiro jornalismo" dessa versão corrompida de profissão, através de uma espécie de apropriação da teoria do bom selvagem. Assim, o jornalismo seria intrinsecamente bom, o mercado é que o corrompe.
Quando confrontado com o cotidiano das redações, mesmo nos anos 1950, o mito da idade de ouro parece menos consistente. Daniel Hallin explica que a definição de um jornalismo informativo e objetivo nos Estados Unidos, muitas vezes levava à passividade dos veículos frente às versões oficiais. "Se na prática o jornalismo de informação asséptica significava conceber validade auto-evidente às declarações oficiais, parecia agora que estas podiam se converter em ‘inoperantes’, tal e qual Nixon havia feito durante o Watergate; por isso, os jornalistas se sentiam atraídos a preencher esse vazio". Ele explica também que, diferente do que se imagina, o jornalismo hoje consegue ser mais acessível e atrativo, capaz de atingir um público muito mais amplo e diversificado do que durante sua "idade de ouro".
O mito do "quarto poder"
Visto como o quarto poder o jornalismo se impõe como algo essencial à construção dos regimes democráticos. Os governos, para funcionar bem, precisam prestar contas de suas ações aos cidadãos. A imprensa, uma entidade independente e apartidária, cumpre o papel de fiscalizar os desvios do poder.
Partindo-se do mito do quarto poder, a crise profissional deriva da subserviência das empresas de comunicação frente às autoridades, sobretudo porque o governo é um grande anunciante. Mas se explica sobretudo pelas dificuldades impostas aos jornalistas no exercício dessa função. O ritmo intenso de trabalho dos repórteres e a explosão das assessorias de imprensa limita o acesso dos jornalistas às fontes, deixando-os cada vez mais restritos às informações oficiais (press releases, notas, entrevistas coletivas etc). O cerceamento do exercício do quarto poder explica a má qualidade da cobertura política – matérias burocráticas e sem interesse – ao mesmo tempo que o ideal de transparência democrática é questionado.
A crítica que se faz à noção de quarto poder é que ele se baseia numa visão maniqueísta. Como um jogo de gato e rato, os jornalistas (heróis) devem zelar pelos interesses da sociedade, vigiando políticos (vilões) sempre passíveis de cometerem deslizes em benefício próprio. É uma concepção simplista que demoniza a classe política, ignora os interesses da imprensa e do jornalista e produz uma definição reduzida do jornalismo político – como se toda matéria política se resumisse à procura de escândalos, ao questionamento do poder. Finalmente, o mito do quarto poder funciona como um poderoso mecanismo de preservação e legitimação do jornalista: qualquer forma de intervenção do governo é vista como um atentado ao princípio fundamental da liberdade de expressão.
O mito do profissionalismo
Parte da crise no jornalismo pode ser explicada pela invasão do território profissional por jornalistas-amadores: blogueiros, indivíduos ligados à mídia alternativa, voluntários nas rádios comunitárias etc. Ou, ainda, pela explosão de empresas não-jornalísticas que passam a atuar na produção de informações, como os jornais produzidos por instituições públicas e privadas que preferem se dirigir ao público sem passar pela mediação da imprensa tradicional. Neste caso, está expressa a idéia de que a legitimidade profissional (o registro no Ministério do Trabalho e o diploma em jornalismo) e institucional (o noticiário produzido pelas empresas jornalísticas) garantiriam a qualidade do produto. Na medida em que essa realidade é contestada, estaríamos no vale-tudo das informações falsas, interessadas ou mal apuradas.
É difícil dizer até que ponto a diversificação dos produtos "jornalísticos" levou realmente a uma perda da qualidade informativa. Aliás, nunca é tarde para lembrar que erros e arbitrariedades acontecem também com as notícias produzidas pelas empresas tradicionais e por jornalistas profissionais. O que nos interessa aqui é ver como o discurso do profissionalismo acusa o surgimento desses novos espaços de produção informativa como uma das causas da crise profissional. Esse discurso integra as estratégias de apropriação desses espaços pelos jornalistas. Assim, se hoje uma quantidade imensa de informações prolifera nos blogs e nos veículos institucionais, a figura do jornalista continua essencial para garantir a qualidade do que está sendo noticiado. Por isso, esses espaços teoricamente deveriam ser ocupados por jornalistas profissionais.
Mitologias podem não corresponder à realidade, do ponto de vista da epistemologia científica. Mas elas possuem seu poder explicativo, pois expressam uma cosmovisão que, ao ser aceita pelos membros de uma comunidade, passa a integrar a realidade tout court. Por mais que os mitos gregos nos pareçam absurdos enquanto narrativas sobre a realidade, eles participaram da organização social e do estabelecimento de normas de conduta para os membros daquela sociedade. Da mesma forma, a identidade do jornalista depende dos seus mitos para se construir; ela, contudo, é permanentemente confrontada pelo que acontece no dia-a-dia das redações. O resultado é o sentimento de crise profissional.

19 de fev. de 2008

Tempos depois compreendo uma parábola de kafKa, ainda bem que é cedo. Irei atravessar à porta.
Já são 2 da manhã desta quarta de fevereiro, gosto muito de Kafka, porém, anos atrás, não concordava com esta pequena parábola de Kafka. O fato é que não tinha experiência para poder compreendê-la. Hoje, ela literalmente me arrepia em sua verdade.
Diante da Lei faz parte de um dos poucos livros que Kafka publicou em vida: Um Médico Rural – Pequenas Narrativas (Ein Landarzt. Kleine Erzälungen - 1919). A tradução que copio abaixo é a do escritor Modesto Carone, que foi multi-premiado no início dos 90 por suas traduções de quase todo o Kafka. Não lembro se América foi traduzido. As traduções anteriores eram insatisfatórias; tratavam de “melhorar” a estranha pontuação de Kafka e muitas não eram feitas a partir do original, mas do francês. Minha edição é da Brasiliense (1990), mas penso que a Cia. das Letras republicou tudo há uns dez anos. Lá vai.
Diante da Lei
Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.
- É possível – diz o porteiro. – Mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado anos e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito de sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos estes anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas de sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
- O que é que você ainda quer saber? – pergunta o porteiro. – Você é insaciável.
- Todos aspiram à lei – diz o homem. – Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.
Não há nada mais tolo que o chavãozinho 'a crítica deve ser sempre construtiva': 'edificante ' é exatamente o que ela não deve ser. Pois, cabendo à ela a parte braçal e dinamiteira da vida intelectual, é de sua essência transformar em ruína toda a fachada que julgue objeto de uma notoriedade imerecidamente exagerada.
CINEMA : UMA GRANDE PAIXÃO
A maior dificuldade em ter sido um cinéfilo precoce, é fato de você chegar no topo de quase 40 anos de vida sabendo que já assistiu praticamente todos os filmes imaginavelmente bons do planeta terra. Ao contrário da literatura, é perfeitamente possível um sujeito afirmar no alto de quase 40 anos de vida que esgotou seu interesse por cinema porque já viu tudo o que merecia ser visto. Aí falar sobre filmes com outras pessoas que gostam de cinema pode se tornar uma fonte de frustração, quando você descobre que aquele seu colega que alega adorar clássicos, efetivamente só assistiu "Cantando na chuva", alguns Hitchcocks e um filme da Audrey Hepburn, ou que relaciona 'clássicos' com os filmes do Coppola da década de 70 ou com o cinema americano independente da década de 60. Para um cinéfilo genuíno o limite para chamar um filme de clássico é a década de 50 (embora ele possa abrir algumas exceções à de 60 quando se trata de filmes que ainda trazem uma atmosfera näif tipicamente fifties , ou o tipo clássico de montagem. Isto é, À queima roupa ( 1967) de John Boorman não é um clássico, Charada (1963), sim), pois não há como a terminologia 'clássico' remeter a outra coisa senão à Gene Tierney, Error Flynn, noir, Billy Wilder, His girl friday, Cary Grant, Howard Hawks, RKO, e assim vai.

Frustrante também: quando você sabe que o sujeito só expressa uma admiração muito encarniçada por algum diretor talentozinho, tipo, sei lá, Paul Thomas Anderson, pelo fato de nunca ter visto nenhum William Wellman, nenhum Lubitsch, nenhum John Ford (que nem é o pior tipo - até vá lá gostar de Anderson - o pior tipo é aquele que não consegue entender porque Spielberg é bom e Antonioni é um pulha).

Cinema é aquela arte que ficou no meio do caminho na busca de seu estatuto de 'genuína forma de expressão estética', e opera como um verdeiro pharmakon quando toca extremos opostos: quando tem pretensões por demais esteticistas, se torna patética (e mata de tédio, por extensão), se não tem pretensão nenhuma e só busca o entretenimento fácil, se torna estúpida. Se tiver que escolher, preferível o entretenimento estúpido ao esteticismo vazio: a diferença entre uma maioria estúpida a uma minoria imbecil, é que a primeira ao menos revela alguma sensibilidade, mesmo que rudimentar, enquanto a segunda já se tornou de fato inumana. E um dos problemas do cinema, que é o problema de outras artes também, é o hábito daquela hordinha em atribuir sentidos inúmeros a uma obra obscurantista e de fácil execução. O que há de comum nos objects trouvés, ready-mades, happenings, und so weiter, é que seja por sua falta de clareza ou seu deslavado simplismo, sempre estão associados à fácil execução, e seus resultados duvidosos - mas nem por isso ausentes de público - sempre serviram de álibi para a falta de imaginação, fórmula inversa de Pound, que dizia, com toda razão, que a arte é beleza difícil.

*Vício tipicamente da postmodernité este solipicismo em capitalizar o suposto 'elemento característico' do veículo em questão a fim de produzir uma 'arte pura'. Arte pura é esculhambação da grossa - não existe 'literatura pura', 'poesia pura', 'filosofia pura' ou 'ciência pura'. O resultado inevitável da busca pela 'pureza' absoluta sempre vem a ser a dissolução, assim como a tentativa oposta de anular as fronteiras entre as áreas - apenas o outro lado da moeda (só ver aqueles casos mais extremos do concretismo, que não vinga ser nem artes plásticas e muito menos poesia; no caso da filosofia, só lembrar da obsessão doentia de Derrida pela sacralidade do texto escrito e sua negação do logos. Se bem que quase ninguém mais - quase, quase - leva o Derrida a sério). E como dizia Henry Levin (ah, o grande Henry Levin, que bem faria um Henry Levin a um Roland Barthes) as coisas só existem em contexto, jamais nelas próprias.*Mas então o cinema.

Todos gostam de cinema, e todos se sentem no direito de poder opinar sobre cinema, como dizia Truffaut quando observava que ao contrário da literatura, o diletante em cinema não precisa conhecer as ferramentas do especialista. E deve ser algo muito raro encontrar um connoisseur que disserte sobre as relações entre a imagem e a filosofia bergsoniana ou sobre a estética do cinema neo-realista, que não seja uma pessoa chata. Como atividade passiva, o cinema é perfeito para aquelas horas de torpor mental em que você não está com a mínima disposição para seguir um Nabokov, Musil ou Tolstoi.

E se não chega a ser uma experiência estética completa, ou uma forma legítima de aquisição de conhecimento, ao menos sua dignidade como entretenimento de alto nível basta para não te deixar com aquele peso na consciência por um dia disperdiçado em tirar sujeira do umbigo ou olhar o bolor da parede.



















CONECTANDO O POETA RILKE
Fitando as grades seu olhar arrefecee
fora isso a nada mais se atém.
A ela: como se mil grades houvesse,
mil grades e nenhum mundo além.

A leve marcha de seu passo altivo,
o qual se move em giros que decrescem
Qual dança de força em torno a um alvo
em que um anseio, nobre, se entorpece

Às vezes se descerra o véu, silente,
de sua pupila,– onde uma imagem irrompe,
e através dos membros em tensão inerte
no coração, se interrompe.

Apesar de já existirem algumas tantas competentes traduções deste famoso poema de Rilke, resolvi assim mesmo humilhar-me em público e mostrar a minha.

Hoje em dia, é impossível não perceber algo de caricato no temperamento do homem Rilke: o estigma de 'poeta seráfico', o sentimentalismo exagerado das primeiras obras, a incapacidade de exercer atividades burocráticas, e toda esta atmosfera que se criou em torno da sua biografia, que antes me convence de que estamos lidando com um bebê chorão do que com um, oh, 'trágico expatriado", sendo que esta veneração incondicional do poeta por seu mestre Rodin, soa apenas como mais uma de suas futilidades poéticas. Seja como for, o bebê chorão Rilke é dos melhores poetas do século passado, e 'A pantera', dentre todos os poemas do mundo, é um dos que eu mais gosto.Como se estivesse realizando a tarefa de um escultor, Rilke opta por um sistema preferencialmente imagético, dentro do qual a descrição da pantera na jaula vai se ampliando de modo que, gradativamente, esta descrição abarque também os seus estados fisiológicos, engendrando a metáfora. Transcrevo aqui um trechinho do ensaio de Eliot "a música da poesia": "há poemas nos quais somos inebriados pela música e admitimos o sentido como correto, assim como há poemas nos quais prestamos atenção ao sentido e somos envolvidos pela música sem que disse nos apercebamos". Neste aspecto, a artesania brilhante de "A pantera" enquadra-se naquele segundo tipo de poema descrito por Eliot, justamente por 'neutralizar' a forma na imagem, e naturalizar a regularidade ritmica, métrica e sonora de maneira a dar a impressão de que na verdade não foi empregada uma forma fixa ali (pentâmetro iâmico). Se quiserem ver este efeito, é preciso ler o original ou uma tradução competente (a tradução do Augusto consegue com muito sucesso este efeito, mesmo que tenha que metaforizar algumas partes que no orginal são mais definidas. Na minha versão, ao contrário, a forma é mais pronunciada). De fato, "somos envolvidos pelo música sem o perceber", e ao final do poema temos o sentido claro diante de nós: a idéia do confinamento do homem à si próprio, e a visão efêmera do transcendente que o assalta de tempos em tempos, entre cujos intervalos é relegado à tensão decorrente de sua própria limitação. A perfeita harmonia entre forma e conteúdo pode ser ilustrada no último verso, que é o único a não obedecer o padrão métrico do restante do poema; suprime três pés, para coincidir com o momento em que a 'imagem deixa de existir no coração". Um dos aspectos presentes na maioria das traduções que eu li, modifica a perspectiva dos primeiros versos para a voz ativa, pois no orginial alemão "..ist vom Vorübergehn der Stäbe", não quer dizer "a pantera olha o passar das grades", e sim que "as grades passam pelo seu olhar", como se fossem elas que se movimentassem, e não a pantera - reforçando a idéia da passividade. (este recurso me lembra um comentário de Harold Bloom sobre um trecho da novela "Hadju Murad", na qual, para criar o efeito do movimento dos cossacos sobre os cavalos, Tolstoi descreve a passagem rápida das nuvens enquanto cavalgavam).


"O homem, dizem, é um animal racional. Não sei por que não se disse que é um animal afetivo ou sentimental. Talvez, o que o diferencie dos outros animais seja muito mais o sentimento do que a razão. Vi mais vezes um gato raciocinar do que rir ou chorar. Talvez chore ou ria por dentro, mas por dentro talvez também o caranguejo resolva equações do segundo grau."
Do excelente "O sentimento trágico do mundo" de Miguel de Unamuno. É só pra mim, ou este trechinho não é simplesmente perfeito?
Aqueles blogueiros espertalhões que adoram falar sobre o quanto são espertalhões ("hu, watch my catwalk babe") e que fazem de seu blog um santuário particular da própria espertalhice.
Pois blogueiro megalômano com direito de causa é como mãos de lixeiro cheirando a jasmim.

A vida é um ensaio da eternidade, não podemos perder o seu apreço

É possível que a afirmação cristã de que ao se perder a vida se a estará salvando, não esteja se referindo à dicotomia entre a mortalidade e vida eterna; é possível, talvez, que ela esteja omitindo aquém de seu sentido prestigiado, algum lamento anescatológico, céptico, a respeito da eternidade. Pois não é a negação desta vida que serve aos propósitos da eternidade, mas é a afirmação da eternidade que faz perseverar o apego à vida. A projeção de imortalidade, ou vida eterna, o "salto na fé" ou "existência autêntica", por apascentarem os imperativos persistentes da mortalidade real, continua a ser mero expediente para exaltar esta mesma existência mortal. Pois o último desdobramento da máxima "esquecer de si mesmo" só faz nos levar a vivenciarmos nós mesmos mais intensamente, mais egoticamente. Depois de perder a vida, a eternidade; depois de perder a eternidade, a vida.
Pode ser que a fé que teve que se expandir até os limites do Universo a fim de descobrir sua própria nulidade, mesmo quando deixa de ser, jamais consiga retraçar seu caminho de volta, mas por outro lado jamais abandonará também o seu molde original. Tal molde não se desligará da consciência, e como seu antigo esforço não pode ser anulado, recusa-se a não ser preenchido por algo, de maneira que o antigo conteúdo da fé é substituído pelo conteúdo de uma desolação serena que agora suspira pelo ameno, pelo agradável.
A fé no Todo, portanto, a fim de não ser desperdiçada, é transmutada numa gigantesca poesia do eu, onde a suspension of disbelief coleridgiana se torna não apenas um pacto ficcional, mas um técnica para a própria existência. Só é nobre aquele buscou a fé de forma sincera, e do mesmo modo, com a mesma sinceridade, perdeu-a. Pois não seria a fé algo mais nobre que a razão, e a fé perdida ainda mais nobre que a fé positiva? "Is there no change of death in paradise?" diz um verso de Stevens, cuja poesia pode ser lida como uma espécie de soteriologia prática, esse Wallace Stevens que converteu-se pouco antes de sua morte, decerto porque viveu como se imanentizasse o eterno no efêmero, e quando soube que morreria, quis reificar o efêmero no eterno. E ele tem razão, pois conforme o verso, se houver uma eternidade, esta não deverá será muito diferente da vida.

O cordial por fora é o mesmo intolerante por dentro

Ao ridículo da atitude do sujeito 'denso' que esnoba as frívolas e banais alegrias da vida está a do sujeito hedonista que ridiculariza suas dimensões mais - caso vocês me permitam - fecundas. O segundo estará correto ao dizer ao primeiro que o sorriso de uma bela mulher vale muito mais do que 10 anos de filosofia alemã, porém o primeiro terá a seu favor o argumento de que seus 10 anos de filosofia alemã podem até ajudar a cativar uma bela mulher. Por mais ridícula que seja a grandiloqüência ingênua, mais ridículo ainda é o receio constante de que alguém perceba que em seu caráter reside uma dimensão que vá além da capacidade de fazer amenos e divertidos comentários sobre coisas simples e elegantes. O espertalhão super-ultra cool bem resolvido, que torce o nariz pra quem diz que lê Hegel, dizendo que pessoas inteligentes de verdade não lêem Hegel, é o mesmo cara que aprecia secretamente um arroubo sentimental excessivo lido numa elegia de Rilke, mas que publicamente apenas admite sua admiração pelo witticism britânico ( e se alguém perguntar se você está chorando você diz que foi um cisco).É engraçado como existe uma espécie de pacto subjacente com relação à restrição do uso de termos como, por exemplo, "condição humana", "vida interior" ou "sabedoria", os quais podem parecer deslocados dentro da sensibilidade moderna, que os acusa de indicar nada mais do que uma grandeza algo caricata, um sopro retardatário do ennui ou mal du siecle. Um escritor inteligente e ponderado, que tenha que enfrentar fatalmente alguns destes termos, talvez sinta a necessidade de fazer uso de certa justificativa, ou solução criativa a fim de não comprometer a eficácia de sua argumentação, como fez Eliot num certo ponto de seu ensaio sobre Goethe: "Receio que a palavra que estou prestes a pronunciar venha a surpreender muitos ouvidos como um anticlímax a esse exórdio(...)". Quando um certo tipo de linguagem começa a cair em descrédito, é sinal de que o sentido o qual ela designava com perfeição começa a perder sua significação. No caso da reação negativa à grandiloqüência dita caricata, talvez nem seja o caso de que tais palavras tenham perdido seu sentido, mas apenas assumido uma forma mais eufemística, adaptada à afetada sensibilidade moderna e sua despropositada suspeita do 'profundo'. Não se pode esquecer que o hedonismo sofisticado só é logrado por aqueles que possuem certo talento para o drama, e que a irreverência na maioria das vezes disfarça uma tocante tragédia pessoal, a qual, por inteligência e cordialidade se transforma, em público, em gentil espirituosidaE parece ser uma regra universal o fato de que quanto mais você sofistica o seu gosto, mais cordial você se torna por fora, e mais intolerante por dentro.

"DEUS, ESSA GRANDE ILUSÃO"


Chegou-me às mãos, generosamente, uma cópia do “Deus, Essa Grande Ilusão” do Richard Dawkins. Vou começar a ler, mas a frase que Dawkins escolheu como epígrafe já me sugere que ele acertou a mão:
“Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?“
Que, pelo que eu entendi, é de Douglas Adams.
***
Eu sempre tive essa mesma impressão ao conversar com alguém que não consegue imaginar que os seres vivos possam ser apenas um tipo diferente de máquina. Sempre há uma sensação de horror, um esgar de reprovação _ “como você pode imaginar uma coisa horrível dessas, que somos apenas máquinas?“
O problema é que eu sempre me maravilhei com o contrário _ com a idéia de que mesmo máquinas possam ser gente.

A cor de São Paulo

No Estadão, enquete para saber qual entre 10 diferentes cores é a que melhor representa São Paulo. No momento em que olhei o placar, as duas mais votadas eram:
a) Vermelho : 11.68%
b) Azul : 8.16%
Reproduzindo, inconscientemente, a guerra eleitoral nos EUA.
Mas eu acho que a vencedora devia ser mesmo o arco-íris.
Qual deve ser a cor que melhor representaria São Luís? Que tal a marron, haja sujeira!

Você conhece o teste 99

Reza a lenda que o escritor Ford Madox Ford tinha uma receita para se saber se um livro era bom ou não: bastava dar uma olhada na página 99.
Isso podia começar um novo meme, mas por piedade da blogoseira vamos fazer outra coisa inteiramente diferente, que é recomendar este site _ o Page 99 Test _ onde vocês encontrarão, é claro, as páginas 99 de um monte de livros, voluntariamente submetidos ao site pelos seus autores.
Cada coisa.

A ILHA

Certamente posts condenando, louvando ou simplesmente biografando o Comandante brotarão como cogumelos na blogoseira.
Como se trata de gente muito mais capaz de fazer isso do que eu, vou deixar quieto.Publiquei poucas impressões sobre esse processo e só. Ademais, quero chamar a atenção para uma coisa: Como se não bastasse o exemplo russo, em breve teremos Cuba como um novo experimento natural sobre a transição para o capitalismo.
E esse será imperdível.
Sem paixão falar de Fidel, nos conduz as seguintes elaborações:1. É o último dos gigantes revolucionário dos países emergentes do século 20. Homens como ele, Simon Bolívar, José Marti, San Martin, Frei Caneca, Abreu e Lima, Che-Guevara e Salvador Allende marcaram profundamente uma era.2. A qualidade de vida que proporcionou aos cubanos é inédita para qualquer país da América Latina. Por outro lado, o sistema político não evoluiu. E não conseguiu com que o capital humano que desenvolveu nesse período permitisse a Cuba um crescimento auto-sustentável. Tinha uma medicina evoluidíssima, mas não conseguiu avançar na área sucro-alcooleira, em que poderia ser uma das campeãs. Toda a energia estava voltada para a promoção das condições de vida. Mas, ao abandonar o lado econômico, comprometeu o todo. Obviamente temos que analisar os efeitos do bloqueio econômico americano sobre Cuba.3. Quanto à democracia-ditadura de Cuba, um bom tema para discussão é, de um lado, os limites para as liberdades individuais. De outro, o fato de que mesmo cubanos com destaque mundial permaneceram fiéis ao país - vide Savon, Stevenson, músicos e artistas em geral. Obviamente não era uma democracia. Mas também não tinha a faceta sanguinolenta de outros regimes comunistas.Por conseguinte, nada na história recente da humanidade poderá ser escrito sem Fidel. Nada de grandioso se faz sem paixão e entrega, eis as condições de ser revolucionário. "Trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega totais, às quais não estou em condições físicas de oferecer. Digo-o sem dramatismo", escreveu Fidel, afastando-se definitivamente do comando da revolução cubana."Não me despeço de vocês, desejo apenas combater como soldado das idéias", sentencia El Comandante.As elites do nosso continente vão ter que agüentar caladas, continuando a chamar Fidel de "ditador" enquanto ele recebe homenagens do povo cubano. Mas em Cuba tudo é relacionado aos estados Unidos. Mas para a evolução dessa pequena nação histórica, a eleição do democrata Obama, un negro de origem humilde,poderia ser sísmica.Por último, uma boa lembrança de Fidel. O ano é de 1986 quando o Drº Jackson Lago e Drª Kley estiveram na casa da minha mãe , no parque amazonas, em São Luís, para pedirem que eu fosse com Igor, seu filho, estudar em Cuba. Eu era o seu filho caçula , talvez por isso a decisão de D. Maritite não foi favorável à minha viagem , ela precisava da minha companhia( e eu muito mais dela), pois o Leo já estava fazendo residência médica e mestrado no Rio. O Igor foi estudar num dos melhores centros de medicina do mundo. Fui até o Rio conversar com Neiva Moreira e para minha surpresa estava com ele Carlos Aves, então dirigente do jornal Granma, órgão oficial do governo cubano. Ele me presenteou um pôster de Fidel com Che, foto de Corda e esse fato foi minha consolação. Mais tarde, soube que um amigo meu(Márcio Jardim, então vice-presidente nacional da UNE) estivara com Fidel durante o Congresso da UNE de 2003 e o presenteou com a camisa da seleção brasileira. É como se eu próprio condecorasse o Presidente cubano com tal troféu.O Igor Lago hoje é um dos melhores cardiologista brasileiro, trabalhando em São Paulo, Minas e Imperatriz.O Presidente Lula está certo:Fidel é o maior mito vivo da humanidade. "Hasta la vitoria siempre, COMANDANTE!" Uma vida ainda longa para você, "compan~ero" FIDEL CASTRO RUZ.

Fidel renúncia e a nova geração assumirá seu compromisso histórico com o socialismo

HAVANA - Veja na íntegra o artigo Mensagem do Comandante Chefe publicado no jornal cubano Granma em que o presidente de Cuba, Fidel Castro, renunciou à Presidência do país.

"Queridos compatriotas:

Les prometí el pasado viernes 15 de febrero que en la próxima reflexión abordaría un tema de interés para muchos compatriotas. La misma adquiere esta vez forma de mensaje.

Ha llegado el momento de postular y elegir al Consejo de Estado, su Presidente, Vicepresidentes y Secretario.

Desempeñé el honroso cargo de Presidente a lo largo de muchos años. El 15 de febrero de 1976 se aprobó la Constitución Socialista por voto libre, directo y secreto de más del 95% de los ciudadanos con derecho a votar. La primera Asamblea Nacional se constituyó el 2 de diciembre de ese año y eligió el Consejo de Estado y su Presidencia. Antes había ejercido el cargo de Primer Ministro durante casi 18 años. Siempre dispuse de las prerrogativas necesarias para llevar adelante la obra revolucionaria con el apoyo de la inmensa mayoría del pueblo.

Conociendo mi estado crítico de salud, muchos en el exterior pensaban que la renuncia provisional al cargo de Presidente del Consejo de Estado el 31 de julio de 2006, que dejé en manos del Primer Vicepresidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. El propio Raúl, quien adicionalmente ocupa el cargo de Ministro de las F.A.R. por méritos personales, y los demás compañeros de la dirección del Partido y el Estado, fueron renuentes a considerarme apartado de mis cargos a pesar de mi estado precario de salud.

Era incómoda mi posición frente a un adversario que hizo todo lo imaginable por deshacerse de mí y en nada me agradaba complacerlo.

Más adelante pude alcanzar de nuevo el dominio total de mi mente, la posibilidad de leer y meditar mucho, obligado por el reposo. Me acompañaban las fuerzas físicas suficientes para escribir largas horas, las que compartía con la rehabilitación y los programas pertinentes de recuperación. Un elemental sentido común me indicaba que esa actividad estaba a mi alcance. Por otro lado me preocupó siempre, al hablar de mi salud, evitar ilusiones que en el caso de un desenlace adverso, traerían noticias traumáticas a nuestro pueblo en medio de la batalla. Prepararlo para mi ausencia, sicológica y políticamente, era mi primera obligación después de tantos años de lucha. Nunca dejé de señalar que se trataba de una recuperación "no exenta de riesgos".

Mi deseo fue siempre cumplir el deber hasta el último aliento. Es lo que puedo ofrecer.

A mis entrañables compatriotas, que me hicieron el inmenso honor de elegirme en días recientes como miembro del Parlamento, en cuyo seno se deben adoptar acuerdos importantes para el destino de nuestra Revolución, les comunico que no aspiraré ni aceptaré- repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe.

En breves cartas dirigidas a Randy Alonso, Director del programa Mesa Redonda de la Televisión Nacional, que a solicitud mía fueron divulgadas, se incluían discretamente elementos de este mensaje que hoy escribo, y ni siquiera el destinatario de las misivas conocía mi propósito. Tenía confianza en Randy porque lo conocí bien cuando era estudiante universitario de Periodismo, y me reunía casi todas las semanas con los representantes principales de los estudiantes universitarios, de lo que ya era conocido como el interior del país, en la biblioteca de la amplia casa de Kohly, donde se albergaban. Hoy todo el país es una inmensa Universidad.

Párrafos seleccionados de la carta enviada a Randy el 17 de diciembre de 2007:

"Mi más profunda convicción es que las respuestas a los problemas actuales de la sociedad cubana, que posee un promedio educacional cercano a 12 grados, casi un millón de graduados universitarios y la posibilidad real de estudio para sus ciudadanos sin discriminación alguna, requieren más variantes de respuesta para cada problema concreto que las contenidas en un tablero de ajedrez. Ni un solo detalle se puede ignorar, y no se trata de un camino fácil, si es que la inteligencia del ser humano en una sociedad revolucionaria ha de prevalecer sobre sus instintos.

"Mi deber elemental no es aferrarme a cargos, ni mucho menos obstruir el paso a personas más jóvenes, sino aportar experiencias e ideas cuyo modesto valor proviene de la época excepcional que me tocó Vivir.

"Pienso como Niemeyer que hay que ser consecuente hasta el final."

Carta del 8 de enero de 2008:
"...Soy decidido partidario del voto unido (un principio que preserva el mérito ignorado). Fue lo que nos permitió evitar las tendencias a copiar lo que venía de los países del antiguo campo socialista, entre ellas el retrato de un candidato único, tan solitario como a la vez tan solidario con Cuba. Respeto mucho aquel primer intento de construir el socialismo, gracias al cual pudimos continuar el camino escogido."

"Tenía muy presente que toda la gloria del mundo cabe en un grano de maíz", reiteraba en aquella carta.

Traicionaría por tanto mi conciencia ocupar una responsabilidad que requiere movilidad y entrega total que no estoy en condiciones físicas de ofrecer. Lo explico sin dramatismo.

Afortunadamente nuestro proceso cuenta todavía con cuadros de la vieja guardia, junto a otros que eran muy jóvenes cuando se inició la primera etapa de la Revolución. Algunos casi niños se incorporaron a los combatientes de las montañas y después, con su heroísmo y sus misiones internacionalistas, llenaron de gloria al país. Cuentan con la autoridad y la experiencia para garantizar el reemplazo. Dispone igualmente nuestro proceso de la generación intermedia que aprendió junto a nosotros los elementos del complejo y casi inaccesible arte de organizar y dirigir una revolución.

El camino siempre será difícil y requerirá el esfuerzo inteligente de todos. Desconfío de las sendas aparentemente fáciles de la apologética, o la autoflagelación como antítesis. Prepararse siempre para la peor de las variantes. Ser tan prudentes en el éxito como firmes en la adversidad es un principio que no puede olvidarse. El adversario a derrotar es sumamente fuerte, pero lo hemos mantenido a raya durante medio siglo.

No me despido de ustedes. Deseo solo combatir como un soldado de las ideas. Seguiré escribiendo bajo el título "Reflexiones del compañero Fidel" . Será un arma más del arsenal con la cual se podrá contar. Tal vez mi voz se escuche. Seré cuidadoso."

Gracias

Fidel Castro Ruz
18 de fevereiro de 2008

Partidos políticos se mobilizam para discutir comunicação no país

A Comissão Executiva Nacional do PT definiu na quinta-feira (14) as linhas gerais da Conferência Nacional de Comunicação que o partido vai realizar entre os dias 24 e 26 de abril deste ano – segundo deliberação anterior do DN.
A Conferência será dividida em dois blocos: um para tratar da comunicação do PT, restrito a dirigentes do partido e pessoas ligadas à comunicação interna; e outro sobre as políticas de comunicação no país, com a participação de especialistas, profissionais da área, movimentos sociais e representantes do governo.
Neste segundo bloco, que será aberto ao público mediante taxa de inscrição, devem ser discutidos os seguintes temas:
a) Lei Geral, marco institucional das comunicações e convergência tecnológicab) Concessões de rádio e TVc) Mídias não-comerciaisd) Pluralidade e diversidadee) Acesso aos meios de comunicação
O bloco sobre comunicação interna vai tratar da integração dos sistemas de comunicação partidária, da criação de novos veículos e aperfeiçoamento dos atuais, das inserções nos horário de rádio e TV e da relação do PT com a mídia, entre outros temas.
A Executiva também aprovou a criação de uma comissão para elaborar o formato completo da Conferência. Fazem parte dela os dirigentes Gleber Naime (coordenação), Renato Simões, Valter Pomar, Valdemir Garreta e Maria do Carmo .

18 de fev. de 2008

PT quer barrar avanço da direita

Resolução do ano passado vale ser revisitada pelos petistas do Maranhão.
Veja A ÍNTEGRA DA RESOLUÇÃO POLÍTICA APROVADA PELO PT

O filme tropa de elite é facista mesmo

Já escrevir bem sobre tropa de elite, isto é , na fase do pré-cochicho, do cochicho, da maturação e agora é hora de falar do seu conceito.
O blog Último Segundo foi o primeiro a mostrar a crítica demolidora de Jay Weisberger, da revista Variety, uma das mais respeitadas publicações sobre cinema do mundo. O filme Tropa de Elite é um exercício da elite branca saudosa do DOI-CODI da ditadura militar. O filme não passa de recrutamento para delinqüentes fascistas, uma monótona celebração da violência policial. No blog Último segundo tem link para a revista em inglês.
LEIA MATÉRIA DO ÚLTIMO SEGUNDO

Ouça um bom conselho que lhe dou de graça

Paulo Henrique Amorim no site Conversa Afiada desmascara Diogo Mainardi. Ele afirma que Mainardi, como sempre, não tem provas do que escreve no caso Telecom Itália. O texto de Mainardi que está na revista Veja (nas bancas neste domingo, 17 de fevereiro) não vale nada. Aliás, vale tanto quanto o que ele escreve sobre Lula. O jornalista Paulo Henrique Amorim dá ao leitor um conselho: Sobre a revista Veja o melhor é não comprá-la, não assiná-la, não visitar seu site na web porque lá estão depositados os dejetos. Logo, também não se deve recomendá-la aos amigos. O que se deve mesmo fazer é ir ao blog do Luis Nassif, que está escrevendo uma série de reveladores artigos sobre a revista Veja.
LEIA NO CONVERSA AFIADA
LEIA BLOG DO NASSIF E 12 ARTIGOS SOBRE A REVISTA VEJA

As idéias de Mangabeira Urger para Amazônia

O projeto Amazônia, apresentado pelo Ministro Estraordinário de Assuntos Estratégico se tornou objeto de ampla discussão na imprensa.
Baixe aqui a íntegra do documento.

Serra versos Aércio e Alckmin

Serra versus Aécio e Perguntei a um tucano plumado aqui no MA sobre o significado da vitória de José Aníbal .
Faço um comentário- Ele sempre foi mais ligado ao Geraldo Alckmin (candidato derrotado do PSDB a presidente da República) do que ao (José) Serra (atual governador de São Paulo). Tudo indica que o Aécio Neves (governador de Minas Gerais) deve ter se juntado ao Alckmin e os dois derrotaram o Serra. Afinal, o Madeirinha é muito ligado ao Serra...

Tucano aplumado- Que nada, Eri! O Aníbal já se bandeou pro lado do Serra. O Madeirinha está na campanha do Alckmin pra prefeito. E fez sua campanha a líder com o apoio do Aécio. Você vai ver. Quem ganhou essa parada foi o Serra. O Aécio e o Alckmin perderam. A imprensa ainda não notou isto, mas logo vai notar.É mole? Em política, a gente pensa que sabe de tudo e, de repente, esbarra em uma novidade.

Máxima do dia

O tolo aprende por experiência própria. O inteligente aprende pela experiência dos outros. E, pode-se acrescentar, o idiota nunca aprende, nem por experiência própria.

Lula sobe e mídia desce

A pesquisa Sensus de fevereiro, encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), além da confirmação da popularidade do presidente Lula, contém uma informação que todos os jornalistas (os do bem e os do mal) deviam ler com atenção. Enquanto o presidente Lula obteve sua melhor avaliação desde a posse (52,7%) uma certa instituiçao chamada "imprensa" obteve 12,7% no índice de confiança da população, menos que as Forças Armadas (16,5%) e menos ainda que a Igreja Católica (39,4%). Em 2003, logo após a posse, Lula obteve 56,6%.O desempenho pessoal do presidente Lula foi aprovado por 66,8% dos entrevistados, contra os 61,2% da sondagem anterior (outubro).

Pior mesmo que a imprensa/mídia se situam a Justiça (11,3%), a Polícia (4,1%) e o Congresso Nacional (0,5%). É bem verdade que a instituição "Governo Federal" ficou mal com 4,4%. É que a população, em sua sabedoria, diferencia a figura do presidente Lula da máquina burocrática chamada Governo Federal.Segundo todos os jornais, a avaliação do presidente Lula, em fevereiro, foi a melhor desde sua primeira posse em janeiro de 2003. A avaliação positiva do governo subiu para 52,7% em fevereiro, enquanto em outubro ficou em 46,5%, data do levantamento anterior. Já a avaliação negativa caiu de 16,5% para 13,7%. Ou seja, a rejeição ao governo Lula se reduziu.

O desempenho pessoal do Presidente Lula foi aprovado por 66,8 por cento dos entrevistados, ante 61,2 por cento na sondagem anterior.Se houvesse o TERCEIRO MANDATO, o Presidente Lula teria vantagem sobre os demais oponentes. Na pesquisa espontânea (sem lista) Lula aparece com 18,6% das intenções de voto.Vejam a cara de pau da Folha de S. Paulo. Enquanto 36,8% dizem votar em candidato apoiado pelo presidente Lula, a Folha afirma que José Serra "lidera" as intenções de voto na sucessão presidencial com 5,1%.Até nas eleições municipais Lula será o grande eleitor. Candidato a prefeito que tiver apoio do presidente Lula em outubro vai levar vantagem. Quem vota no candidato a presidente que Lula indicar, vota também no candidato a prefeito apoiado por Lula.

13 de fev. de 2008

Por que o Brasil visto de fora é diferente do Brasil que a mídia nacional fala?

São reconfortantes as análises, cada vez mais abundantes, divulgadas por periódicos estrangeiros sobre os bons resultados sociais e econômicos alcançados pelo Brasil sob o governo Lula, em contraste com o que é noticiado, em geral, pela grande mídia nacional. “Brazil’s Progress” é o título da matéria publicada ontem no jornal Financial Times, de Londres, enquanto a revista britânica The Economist estampava novamente uma reportagem sobre o Bolsa Família, um programa social do governo brasileiro que “está ganhando adeptos em todo o mundo”.
Muito provavelmente um historiador futuro terá de se debruçar sobre textos em inglês se quiser entender com precisão o que ocorre no Brasil dos dias atuais, para compensar a escassez de material noticioso de fontes nacionais. Assim é que, por feitos e malfeitos da grande mídia, em geral, que parece operar sob censura auto-imposta, nos encontramos na situação paradoxal de estarmos experimentando, sob pesado silêncio, a maior transformação social e econômica das últimas décadas.
O Brasil cresce há 23 trimestres consecutivos — o ciclo mais longo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) desde o início dos anos 80. Um tal desempenho perde apenas para o “milagre” dos anos 70. Isso, porém, não é tudo: o atual ciclo difere qualitativamente dos anteriores por combinar expansão do investimento e do consumo com justiça social. E não há como dissociar um tal desempenho da orientação estratégica do governo Lula e do programa do Partido dos Trabalhadores. O aumento simultâneo de crédito, da renda e do emprego tem permitido às famílias manter seu consumo em elevação há pelo menos quatro anos.
Essa tríplice combinação de PIB em crescimento, ampliação da capacidade produtiva e expansão da demanda interna com inclusão social – amparada por contas externas sólidas e inflação sob controle – faz os analistas estimarem que esse ciclo pode sustentar-se por muitos mais trimestres, embora se reconheça que o ritmo do crescimento está aquém do obtido por outros países emergentes como China e Índia.
As expectativas para 2008 são as mais otimistas das últimas décadas, em que pese o risco de recessão da economia americana e seu impacto sobre o crescimento mundial. Em entrevista ao jornal Valor Econômico (11/02/2008), Geraldo Langoni, ex-presidente do BC, corrobora a opinião de outros analistas ao afirmar que o Brasil nunca esteve tão preparado para enfrentar uma turbulência externa. A crise da dívida, deflagrada há 26 anos, acabou sob o governo Lula. “Dentro de mais 30 dias, provavelmente em março, acontecerá algo emblemático: o Brasil terá reservas internacionais acima do total da dívida externa pública e privada... Mesmo que tenhamos um déficit em conta corrente em 2008, ele será facilmente coberto por capitais de longo prazo (investimento direto), que devem cair de US$ 34,7 bilhões, em 2007, para US$ 25 bilhões neste ano, ainda assim equivalente a 2,5 vezes o déficit projetado”.
O balanço de pagamentos deixou de ser um problema. A demanda doméstica e as importações podem agora crescer com vigor, como tem ocorrido, sem onerar as contas externas. Ao exportar mais, o País pôde passar a importar mais, permitindo que a demanda interna cresça firmemente sem pressionar a inflação. As importações de bens de capital estão entre as que mais crescem, sustentando a ampliação da capacidade produtiva das empresas, para atender à expansão do mercado interno, convertido em locomotiva do crescimento. De janeiro a agosto do ano passado, as importações de bens de capital aumentaram 33%. Em janeiro deste ano, as importações como um todo cresceram 45,6% (um dado “impressionante”, na avaliação de Langoni) em relação ao mesmo mês de 2007.
Impulsionada pelo vigor do mercado interno, a produção da indústria cresceu 6% em 2007, segundo o IBGE. É o melhor desempenho desde 2004 (8,3%). O resultado corrobora as expectativas de expansão do PIB superior a 5% em 2008 e está diretamente ligado ao aumento da demanda doméstica, estimulada pelo maior volume de crédito e melhoria do mercado de trabalho, com a expansão da renda e do emprego, que geraram o aumento do consumo.
O investimento em firme expansão é a característica mais celebrada do atual ciclo de crescimento pelos analistas econômicos — crescimento de cerca de 10% em 2007, seguindo-se ao avanço de 8,7% de 2006 — para o que contribuiu a queda consistente dos juros reais, embora ainda em patamares estratosféricos, num cenário de inflação baixa e controlada. O setor privado é o motor que puxará os investimentos em infra-estrutura nos próximos quatro anos, sendo responsável por 60,5% do capital a ser aplicado na construção de ferrovias, estradas, estações de tratamento de água e esgoto, hidrelétricas e mineração. Perfazem R$ 82,7 bilhões.
O BNDES, principal fonte de financiamento de longo prazo em moeda doméstica, liberou R$ 65 bilhões no ano passado, um aumento de 24% na comparação com o ano anterior. O bom desempenho do banco foi impulsionado pelos projetos em infra-estrutura, que somaram R$ 25,6 bilhões, expansão anual de 62%. Esse desempenho deverá prosseguir. Os desembolsos projetados para 2008 atingem R$ 80 bilhões. Na área de saneamento básico — um dos setores prioritários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)—, um levantamento preliminar do Ministério das Cidades indica investimentos superiores a R$ 16,7 bilhões em obras de saneamento até 2010. São informações bastante auspiciosas.
O consumo das famílias também apresenta um desempenho “chinês”, impulsionado em grande parte pela expansão, a uma velocidade inédita, do crédito. Com juros menores e prazos cada vez maiores, o volume de crédito (empréstimos e financiamentos) aumentou R$ 200 bilhões em 2007, mais de R$ 1.000 por habitante, recorde histórico. Em razão dos empréstimos, as vendas de automóveis e a construção civil, entre outros setores, superaram todas as marcas de produção e vendas do passado. A expansão do crédito foi o principal propulsor do crescimento econômico em 2007.
Mais importante que a expressividade dos números, é de observar que o atual ciclo rompeu com o padrão de arrancadas e freadas que predominou a partir de 1980, porque foram corrigidos ou atenuados os principais problemas macroeconômicos do País. Nos ciclos anteriores, o próprio crescimento acentuava os desequilíbrios externos, inflacionários ou fiscais, o que levava a crises. Desta vez, o quadro é totalmente outro. Há muito que avançar, sem risco iminente de que a fase atual de expansão seja detida no médio prazo.
A aceleração do crescimento, associada à redução da taxa de juros real (que caiu de 12% no fim de 2006 para menos de 7% em dezembro de 2007), teve efeitos benéficos sobre as finanças públicas. Assim, o aumento das receitas do governo, resultante da expansão econômica, permitiu a redução na relação dívida publica/PIB, de 44,4% no início de 2007, para 42,6% em novembro de 2007, a despeito da elevação concomitante do gasto público – para estupefação da oposição neoliberal. Assim, o efeito virtuoso do crescimento sobre as finanças públicas permitiu ao governo federal melhorar as condições de solvência fiscal e ao mesmo tempo aumentar o gasto público, sobretudo na área social e na melhoria da infra-estrutura. É inegável, portanto, a diferença entre a política fiscal de FHC e a de Lula, uma vez que esta combina de maneira pertinente equilíbrio fiscal com aumento do gasto público.
Mas o que mais chama atenção dos analistas estrangeiros é o êxito do governo Lula na área social, especialmente a redução da pobreza. Dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios (Pnad) revelam que o número de brasileiros abaixo da linha da pobreza caiu 15% em 2006, “o melhor resultado em dez anos”, na avaliação de Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais do Instituto Brasileiro de Economia - órgão da FGV. A proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza, que era de 22,77% em 2005, recuou para 19,31% — um marco histórico. Em 1993, antes da estabilização da economia, ela havia atingido 35%. Isso significa uma queda de 45% nesse espaço de tempo”, afirma Neri.
Como resultado do crescimento econômico e dos programas sociais do governo Lula, nos últimos quatro anos 14 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza. Observe-se que cerca de 36 milhões de brasileiros ainda se encontram abaixo da linha. Daí a necessidade se intensificar os programas sociais, consoante o novo padrão de políticas públicas, não assistencialista e integrador.
Em 2003, o orçamento elaborado pelo governo anterior destinava cerca de R$ 7 bilhões para programas sociais. No governo Lula, os investimentos saltaram para R$ 14,3 bilhões em 2004; R$ 18 bilhões em 2005; R$ 21,6 bilhões em 2006 e R$ 24,9 bilhões em 2007. A expectativa é que os recursos se elevem a R$ 28,5 bilhões em 2008. O número de beneficiários do Bolsa Família atinge 45,8 milhões, e o programa é responsável por 40% da redução da desigualdade social.
Segundo Neri, a pesquisa do Pnad mostra também um crescimento da renda domiciliar per capita (descontado o crescimento da população) de 9,16% — “resultado mais próximo ao de um crescimento chinês”. As análises da Pnad pela FGV indicam ainda que, do ponto de vista da distribuição de renda, os 50% mais pobres tiveram a sua participação nas riquezas do País elevada em 12%, enquanto os 10% mais ricos em 7,8%, em 2006.
Mantém-se assim o compromisso do governo Lula pela redução dos índices de desigualdade e a distribuição de renda, iniciada a partir da recuperação da recessão verificada em 2003. “Isso significa que o bolo continuou a crescer para todos, mas com mais fermento para os mais pobres. Os indicadores sociais baseados na renda são os melhores dos últimos dez anos. Desde o boom do Real que não se via melhora tão acentuada”, afirma Neri.
Mas são os indicadores do emprego que expressam de forma mais eloqüente o acerto do governo Lula em se distanciar das políticas neoliberais adotadas pelo governo FHC. À medida que o Brasil vai se distanciando da visão neoliberal, o emprego assalariado volta a crescer, pondo a nu o falso mito de que o aumento do salário mínimo acarreta elevação do desemprego (fechamento de empresas) e da informalidade nas relações de trabalho e queda do salário real. Percebe-se, ao invés, que a recuperação do valor real do salário mínimo no governo Lula vem acompanhada da estabilidade dos preços, queda do desemprego e da informalidade.
Da mesma forma desnuda-se o mito de que a legislação social e trabalhista seria um entrave à expansão do emprego. Como observa Márcio Pochmann, presidente do Ipea, “desde o afastamento do assédio liberal-conservador, o mercado de trabalho reage menos desfavoravelmente aos trabalhadores. Não somente o emprego formal é o que mais cresce no País desde 2003 (4% em média ao ano) como também permitirá ultrapassar o estágio atingido pelo mercado de trabalho na década de 1980, desde que a economia continue a perseguir o ritmo de expansão superior a 5% ano”.
Eis a imagem que se tem do Brasil visto em inglês.

Texto de Tarso Genro sobre a composição do novo Diretório Nacional do PT

Mensagem e Método


A eleição no DN/PT da sua Comissão Executiva suscitou numa série de interpretações, na imprensa, não só originária de jornalistas que acompanham a vida interna do PT, com uma boa vontade conhecida de todos nós, bem como por parte de dirigentes que não lograram obter a aceitação da maioria eventual dos membros do DN, para as suas pretensões naquele organismo partidário. Como fui mencionado faço algumas ponderações e esclarecimentos.
Desde a sua primeira aparição pública o grupo político “Mensagem ao Partido” vem se colocando como uma força política interna (PT-ms) que defende a composição de um novo grupo dirigente para o PT. Um novo grupo acordado em torno de uma plataforma de renovação dos métodos de direção, recomposição da densidade ética do PT, defesa da transição (já iniciada) para um modelo de crescimento econômico, distribuição de renda e radicalização da democracia.
Na nossa trajetória de negociação interna jamais fizemos constar nenhuma alusão pessoal a qualquer personalidade partidária – para desqualificá-la ou endeusá-la – limitando a nossa postura (no que se refere aos conhecidos eventos que causaram as CPIs e os processos criminais em curso) a atacar as causas que proporcionaram erros políticos e eventuais ilegalidades que estão sendo avaliados pela Justiça, através da proposição de um abrangente e efetivo Código de Ética.
De outra parte, não nos movemos, em nenhum momento, para “queimar” ou desqualificar qualquer quadro do PT, de porte nacional, que eventualmente possa ser indicado para concorrer à Presidência da República, mesmo porque em nenhum momento tratamos desse assunto. Da minha parte, por exemplo, ao lado de outras referências nossas, entendo que o nome da companheira Marta Suplicy não pode deixar de ser considerado para qualquer candidatura relevante, no momento apropriado.
No que se refere à formação de blocos internos ao DN, se depender de minha opinião, vamos dialogar com todas as tendências e posições internas ao PT, para compor resoluções e ações políticas que renovem a vida partidária, sem qualquer tipo de formação de bloco. Resoluções que reformem os nossos métodos de luta interna, desbloqueiem as relações entre as tendências e movimentos, “federalizem” a produção de políticas partidárias, que está excessivamente centrada em São Paulo. Posições que dêem sustentação, com autonomia, ao governo do Presidente Lula, que está mudando a fisionomia social e política da nação e potencializem a base partidária para a sua defesa.
O método que adotamos para que o companheiro José Eduardo assumisse a condição de Secretário-Geral do PT e o companheiro Joaquim Soriano a de Secretário de Formação, na atual gestão, foi o diálogo em torno de dois pontos-chaves para uma plataforma mínima: aprovação do código de ética até julho deste ano e não formação de maiorias automáticas, buscando acordos para promover um programa de profunda renovação partidária.
Na minha opinião o programa de renovação deve estar contido na seguinte agenda interna: a) alianças em 2008 com base numa Frente de Esquerda, ampliando em direção ao centro democrático em cada região, de acordo com suas condições específicas; b) reorganização interna do PT para qualificar seus métodos de direção e aprovação do Código de Ética; c) o Brasil pós segundo governo Lula.
A Mensagem não vai fazer nenhum alinhamento automático e convida todos os companheiros do DN a fazer o mesmo. O primeiro momento desta construção é o conteúdo do Código de Ética que deverá presidir nosso comportamento, nas relações internas e nas questões de financiamento eleitoral já no pleito de 2008.
O presidente eleito Ricardo Berzoini tem toda legitimidade política para dirigir o partido, originária da sua vitória inquestionável nas eleições do PED/2007. Impulsionar seu mandato para o cumprimento acordado de um programa mínimo de mudanças políticas e éticas é preparar o PT para aumentar a sua relevância, juntamente com os demais partidos de esquerda, na revolução democrática em curso, iniciada pelos governos do Presidente Lula.
Tarso Genro é ministro da Justiça e integrante do Diretório Nacional do PT

A nova propriedade social

O Brasil que emergiu da Revolução de 30 caminhou no sentido da modificação importante do conceito tradicional da propriedade. Em vez do clássico entendimento que separa o proprietário do não-proprietário imobiliário (posse da terra) e de demais detentores das fontes de geração de renda e riqueza, passou a ganhar maior relevância a interpretação a respeito da propriedade social mediada pelo trabalho e diversos mecanismos de proteção e segurança social.

Justamente em torno dos riscos relacionados ao pleno exercício do trabalho (acidente, doença, invalidez e morte, desemprego e instabilidade contratual, precocidade e envelhecimento, variabilidade e sub-remuneração, despreparo formativo, entre outros) conformou-se a propriedade social, operada, na maioria das vezes, por fundos públicos absorvedores de parcela do excedente econômico nacionalmente gerado pelo conjunto do país. Nesse sentido, deve-se reconhecer o papel pioneiro das ações estabelecidas em 1923, com a Lei Eloy Chaves (base da Previdência Social), e, em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho, que fundamentaram a propriedade social no Brasil.

O financiamento da propriedade social ocorre de forma tanto contributiva (previdência social) como impositiva (tributos e taxas). O resultado final disso tem sido a geração de uma massa expressiva de recursos comprometida originalmente com a promoção e defesa do bem-estar social geral dos detentores da propriedade social. O brasileiro ampliou o tempo de vida para além do exercício exclusivo do trabalho na medida em que avançou a titularidade da propriedade social.

Antes da existência da propriedade social, por exemplo, o trabalho comprometia dois terços do tempo de vida de cada cidadão. Por conta disso, o ingresso na vida laboral iniciava-se aos cinco ou aos seis anos de idade e se encerrava somente com a morte, geralmente próxima dos 35 anos, que representava a expectativa média de vida dos brasileiros do início do século 20. Ao se acrescentar ainda a ausência da regulação do tempo de trabalho (48 horas semanais, férias, descanso semanal, feriados) e de medidas de aposentadoria e pensão, o tempo de trabalho podia equivaler a mais de 5.500 horas de trabalho por ano. Com o desenvolvimento urbano e industrial protagonizado desde a década de 1930, parte dos ganhos de produtividade foi carreada para a nova propriedade social. Em conseqüência da difusão da titularidade dos novos proprietários, tornou-se possível reduzir o peso do trabalho heterônomo (realizado em troca de uma remuneração pela sobrevivência) para um quinto do tempo de vida. Isso porque o ingresso no mercado de trabalho foi postergado para os 15 anos de idade, após o acesso ao ensino básico, enquanto a saída para a inatividade se deu a partir da contribuição por 35 anos ao fundo previdenciário. Contando com a duplicação da longevidade da vida ao longo do século 20 (de 35 para 70 anos), percebe-se que o desenvolvimento nacional permitiu à propriedade social alargar o tempo de vida, bem como direcioná-lo à sociabilidade moderna, com mais educação, saúde, consumo e investimento humano.

No limiar do século 21, com a perspectiva de elevação da longevidade de vida para acima dos cem anos de idade e a profunda ampliação da produtividade do trabalho, especialmente do trabalho imaterial, abrem-se oportunidades inéditas de o desenvolvimento fortalecer ainda mais a nova propriedade social. Seus detentores possuem cada vez maior influência sobre as decisões públicas e privadas nacionais, como no caso dos fundos de aposentadoria e pensão, FGTS, FAT, entre outros. Tudo isso motiva preparar, em novas bases, as ações estratégicas para o desenvolvimento brasileiro de longo prazo.

Para quem vai viver cem anos, com a intensificação da produtividade, ampliam-se as possibilidades de ingresso no mercado de trabalho após os 25 anos de idade -conforme já ocorre para os filhos dos ricos no país-, assim como o tempo de trabalho em menor escala, contando com o seu exercício em diversas modalidades e cada vez mais distante do local de trabalho tradicional. Se, tecnicamente, já é possível, por que não convergir para as condições estruturais necessárias para que isso realmente venha a ocorrer? Somente com a promoção do desenvolvimento nacional os brasileiros universalizarão as possibilidades de acesso à nova propriedade social.

Será se nossos comunistas sabem o que é comunismo?

É o capitalismo, e não o comunismo, o gerador do que o comunista Leon Trotsky denominou de "revolução permanente". É o único sistema econômico para o qual o epíteto é verdadeiro. "Destruição criativa" foi como Joseph Schumpeter qualificou o processo. Agora, após o colapso de seu adversário, emerge outro período revolucionário.

]O capitalismo está novamente em mutação.Grande parte do cenário institucional de duas décadas atrás-elites empresariais nacionais independentes umas das outras, controle gerencial estável sobre as companhias e relacionamentos de longo prazo com instituições financeiras - está desaparecendo da história econômica. O que temos, em vez disso, é o triunfo do mundial sobre o nacional, do especulador sobre o administrador e do financista sobre o produtor. Estamos testemunhando a transformação do capitalismo gerencial de meados do Século XX num capitalismo financeiro mundial.Acima de tudo, o setor financeiro, acorrentado após a depressão da década de 30, está novamente livre de seus grilhões. Muitos dos novos fenômenos foram irradiados dos EUA. Mas são cada vez mais mundiais. Com eles, vêm não apenas novas atividades econômicas e novas riquezas, mas também um novo cenário social e político.Em primeiro lugar, o volume de recursos financeiros explodiu.

Segundo o McKinsey Global Institute, a proporção de ativos financeiros mundiais em relação à produção anual disparou de 109%, em 1980, para 316% em 2005. Em 2005, o estoque mundial de ativos financeiros principais totalizou US$140 trilhões .Esse crescimento na movimentação financeira foi particularmente acentuado na zona do euro: a relação entre ativos financeiros e Produto Interno Bruto (PIB) na região deu um salto de 180%, em 1995, para 303% em 2005. No mesmo período, a taxa cresceu de 278% para 359%, no Reino Unido, e de 303% para 405%, nos EUA.Em segundo lugar, o mundo financeiro tornou-se bem mais centrado em transações. Em 1980, os depósitos bancários constituíam 42% de todos os títulos financeiros. Em 2005, o percentual havia caído para 27%. Os mercados de capital executam cada vez mais as funções de intermediação do sistema bancário. Este, por sua vez, migrou do terreno dos bancos comerciais, que concedem empréstimos de longo prazo a clientes e mantêm relacionamento duradouro com a clientela, para atividades típicas de bancos de investimentos.Em terceiro lugar, uma série de novos produtos financeiros complexos foram derivados dos tradicionais títulos, ações, commodities e câmbio. Assim nasceram os "derivativos", dos quais os mais conhecidos são opções, futuros e swaps. Segundo a Associação Internacional de Swaps e Derivativos, no fim de 2006 o valor de swaps de juros, swaps cambiais e opções de juros no mercado tinham atingido US$ 286 trilhões, aproximadamente seis vezes o Produto Mundial Bruto (PMB), em comparação com meros US$ 3,45 trilhões em 1990. Esses derivativos transformaram as oportunidades de gerenciamento de riscos.Em quarto lugar, surgiram novos atores, especialmente fundos de hedge e fundos privados de investimento em participações. Estima-se que o número de fundos de hedge tenha crescido de apenas 610, em 1990, para 9.575 no primeiro trimestre de 2007, com um montante de aproximadamente US$1,6 trilhão sob sua administração. Os fundos de hedge desempenham as funções clássicas de especuladores e arbitrador (aquele que explora desníveis entre mercados), em contraste com os tradicionais fundos com visão de longo prazo, como fundos mútuos, cujos recursos são investidos em ações ou bônus. A captação de recursos por fundos de investimento em participações atingiu níveis recordes em 2006 - a Private Equity Intelligence diz que 684 fundos captaram um total de US$ 432 bilhões. Em quinto lugar, o novo capitalismo está cada vez mais globalizado. A soma dos ativos e passivos financeiros internacionais em poder de residentes em países de alta renda deu um salto de 50% do PIB agregado, em 1970, para 100%, em meados dos anos 1980, e para cerca de 330%, em 2004.

A globalização do capitalismo financeiro é transparente tanto em seus atores como na natureza de seus ativos. Os grandes bancos operam em nível mundial. O mesmo vem acontecendo cada vez mais com os fundos de hedge e de investimento em participações. Em 2005, por exemplo, a América do Norte respondia por 40% dos investimentos privados mundiais em participações (uma queda, em comparação com 68% em 2000) e 52% dos recursos financeiros captados (uma queda em relação aos 69%). Por outro lado, entre 2000 e 2005, a Europa ampliou sua participação em investimentos de 17% para 43%, e os recursos financeiros captados cresceram de 17% para 38%. A participação da região Ásia-Pacifico nos fundos de investimento em participações cresceu de 6% para 11 % durante esse período.O que explicaria o crescimento da intermediação financeira e a atividade do setor financeiro? As respostas são muito semelhantes às que explicam a globalização da atividade econômica: liberalização e progresso tecnológico. Em meados do Século XX, o setor financeiro era extremamente regulamentado em todo o mundo. Nos EUA, a lei Glass-Steagall separou a atividade bancária comercial da atividade bancária de investimento. Quase todos os países praticavam controles rigorosos sobre a posse de moeda estrangeira por seus residentes e, assim, automaticamente, sobre a participação em ativos estrangeiros. Eram comuns limites sobre juros que os emprestadores poderiam cobrar. O mais famoso desses tetos - o "Regulamento Q", nos EUA, que proibia o pagamento de juros sobre depósitos à vista -, estimulou o desenvolvimento do primeiro mercado financeiro estrangeiro relevante no pós-guerra: o mercado de euro-dólares em Londres.Durante o último quarto de século, porém, quase todos esses regulamentos foram abolidos. Desapareceram as barreiras entre as atividades bancárias comerciais e de investimentos. Controles cambiais desapareceram em países de alta renda e foram substancialmente ou, com freqüência, até totalmente liberalizados também em muitas economias de mercados emergentes. A criação do euro, em 1999, acelerou a integração dos mercados financeiros na zona do euro, segunda maior economia no mundo. Hoje, grande parte do setor financeiro está tão liberalizado quanto estava um século atrás, pouco antes da Primeira Guerra Mundial.Não menos importante tem sido a revolução na computação e nas comunicações. Esse progresso permitiu a criação e a cotação de um mix de transações complexas, especialmente derivativos. Também permitiu a negociação, 24 horas por dia, de enormes volumes de ativos financeiros. Novos modelos de gerenciamento de risco baseados em computador têm sido empregados em todo o setor financeiro. O setor financeiro atual é um filho particularmente vigoroso da revolução da informática.

Dois desdobramentos adicionais de longo prazo ajudam a explicar o que aconteceu. O primeiro é a revolução na economia financeira, especialmente a descoberta de uma fórmula para estimar o valor das opções de ações por Myron Scholes e Fischer Black, no início da década de 70, que criou o embasamento técnico dos atuais enormes mercados de opções. O segundo é o sucesso alcançado por bancos centrais na criação de um ambiente monetário estável para a economia mundial - e, portanto também, para o sistema financeiro mundial. O dinheiro "fiat" - criado por governos, sem relação com o padrão-ouro - funcionou bem durante um quarto de século, proporcionando a estabilidade monetária da qual sempre dependeram sistemas financeiros complexos.Mas existe também uma explicação de mais curto prazo para o recente crescimento explosivo das finanças: a atual enxurrada da liquidez de poupança mundial. Juros baixos e o acúmulo de ativos líquidos, para o que contribuem os bancos centrais em todo o mundo, estimularam engenharia e alavancagem financeiras. Somente saberemos quanto do recente crescimento do sistema financeiro devesse a esses fenômenos de prazo relativamente curto - e quanto se deve a aspectos estruturais de mais longo prazo -, quando as condições relaxadas chegarem ao fim, como vão chegar.

Quais foram, então, as conseqüências dessa vasta expansão das atividade financeiras, grande parte delas cruzando fronteiras internacionais? Uma das conseqüências é que as famílias agora podem manter uma carteira mais ampla de ativos e podem também tomar empréstimos mais facilmente, tornando seu consumo mais constante ao longo de suas vidas. Entre 1994 e 2005, por exemplo, a dívida das famílias britânicas deram um salto de 108% do PIB para 159%. Nos EUA, os passivos dispararam de 92% para 135%. Até mesmo na conservadora Itália, o endividamento cresceu de 32% para 59% do PIB.Analogamente, é cada vez mais fácil empresas serem adquiridas ou fundirem-se com outras. O valor total envolvido em fusões e aquisições em todo o mundo em 2006 foi US$ 3,861 trilhões, o mais alto valor já registrado, com 33.141 transações individuais. Em ano tão recente quanto 1995, o valor de fusões e aquisições era de apenas US$ 850 bilhões, com apenas 9.251 negócios fechados. Tendo em vista a enorme dimensão dos novos fundos de investimento em participações e a escala de financiamento via bônus organizado pelos grandes bancos, até mesmo as companhias maiores e mais estabelecidas são alvo potencial de aquisição e desmembramento, a menos que gozem de proteção especial. O mercado controlador de empresas, para o qual os fundos de investimento em participações são um contribuinte ativo, ampliou substancialmente o poder de seus controladores (acionistas) sobre o poder da administração corrente.

O novo capitalismo financeiro representa o triunfo dos negociantes de ativos sobre os produtores de longo prazo. Fundos de hedge são exemplos perfeitos dos negociantes que se dedicam a especulação e arbitragem. Fundos de investimento em participações são conglomerados que negociam empresas com o objetivo de obter ganhos financeiros.Da mesma forma, o novo sistema bancário é dominado por instituições que negociam com ativos, em vez de mantê-los por longos períodos em suas carteiras. O foco voltou-se para contratos explícitos (em vez de acordos implícitos), para contratos e acordos centrados exclusivamente em interesse financeiro, em vez de relacionamentos de longo prazo. Os denominados "contratos relacionais" deixaram de valer o papel em que não são escritos. Estão sujeitos à solvência de novas oportunidades de lucro. Não é de surpreender, portanto, que tenham evaporado tanto as participações cruzadas do capitalismo do pós-guerra no Japão como o controle acionário proprietário dominado pelos bancos no pós-guerra alemão.

Além disso, há grande número de estrangeiros possuidores de ações - e plenamente dispostos a exercer seus direitos de controle proprietário - que não se sujeitam a laços sociais e políticos nacionais, transformando, assim, a maneira como as companhias operam: a bem-sucedida revolta de acionistas contra os planos da administração da Deutsche Bôrse (bolsa de valores alemã) de adquirir a London Stock Exchange (bolsa britânica) é um excelente exemplo. Assim, o capital financeiro global está minando a autonomia do capital nacional.Outra conseqüência foi a emergência de dois centros financeiros internacionais dominantes: Londres e Nova York Não é acidental o fato de ambos estarem em países de língua inglesa com uma longa história de capitalismo financeiro. Não é também por acidente que Hong Kong, e não Tóquio, seja de modo geral considerada centro financeiro internacional líder na Ásia, apesar de o Japão ser o maior país credor no mundo. A herança de Hong Kong é britânica. A tradição legal e as atitudes dos países de língua inglesa parecem ser de grandes influência no desenvolvimento de centros financeiros.Como deveríamos avaliar essa mais recente transformação do sistema capitalista?Trata-se de "algo bom?" Argumentos sólidos podem ser arrolados a seu favor: investidores financeiros ativos identificam rapidamente bolsões de ineficiência e os atacam; ao agir assim, melhoram a eficiência do capital em todo o mundo; impõem a disciplina do mercado aos administradores responsáveis por empresas; financiam novas atividades e alocam atividades velhas e ineficientes àqueles capazes de melhor explorá-las; criam melhor capacidade mundial para lidar com riscos; aplicam seu capital onde este funcionará melhor em qualquer parte do mundo; e, nesse processo, proporcionam a cidadãos comuns a capacidade de administrar suas finanças com maior êxito.Mas é igualmente evidente que a ascensão do novo capitalismo financeiro cria novos e enormes desafios sociais, políticos e de regulamentação. Otimistas tendem a argumentar que o novo sistema financeiro combina eficiência com estabilidade em grau sem precedentes. Bancos segurados pelo Estado não apenas assumem menos riscos do que no passado como também administram muito melhor os riscos que assumem. Otimistas também destacam a facilidade com que o sistema financeiro mundial enfrentou o colapso do estouro da 'bolha no mercado acionário em 2000 e os ataques terroristas em 200, em especial, a não-ocorrência de nenhuma grande colapso bancário nesses momentos. Otimistas enfatizam também diminuição na freqüência das metas crises financeiras mundiais nesta década. Os pessimistas podem argumentar que as condições monetárias têm sido tão benignas há tanto tempo, que enormes riscos estão sendo acumulados, não identificados e não controlados, no interior do sistema.Pessimistas também argumentam que o novo capitalismo financeiro mundial ainda não foi submetido a nenhum teste.

A regulamentação e fiscalização de um sistema tão complexo e mundial é tarefa nova para as agências reguladoras, ainda predominantemente nacionais. A cooperação rnelhorou. Relatórios, como o Global Financial Stability Report, do Fundo Monetário Internacional (FMI), e seus equivalentes nacionais, fornecem úteis avaliações dos riscos. Novos grupos, especialmente o Financial Stability Forum, fundado em 1999, congregam autoridades fiscalizadoras. Mas apenas pressões severas podem testar efetivamente o sistema.Os problemas com que se defrontam as agências reguladoras são bastante grandes. Mas estão longe de ser os únicos. A hostilidade de do ex-premiê socialista francês Lionel Jospin ao que ele denominou uma sociedade de mercado" é amplamente compartilhada. Poderosas coalizões políticas estão se formando para limitar o impacto dos novos atores e dos novos mercados. São sindicatos, administradores de empresa, políticos nacionais e centenas de milhões de pessoas comuns que se sentem ameaçadas por uma máquina de fazer lucros considerada remota e desumana - até anti-humana. Por fim, embora não menos importante, há também problemas para o próprio terreno da política. Em todo o mundo, ocorreu uma considerável migração de renda do trabalho para o capital. Administradores de empresas, estimulados por incentivos e imunes a inibições, sentem-se no direito a ganhar múltiplas vezes o salário de seus empregados. Especuladores financeiros ganham bilhões de dólares, não durante uma vida inteira, mas num único ano. Esse tipo de situação levanta questões políticas na maioria das sociedades. Nos EUA, o cenário parece ser tolerado. Em outros países, porém, tais desigualdades são menos toleradas. A política democrática, que confere poder à maioria, certamente reagirá contra as novas concentrações de riqueza e renda.Muitos países continuarão resistindo ao capitalismo financeiro desenfreado. Outros admitirão seu funcionamento somente em íntima coexistência com poderosos interesses nacionais. A maioria dos países buscará maneiras de domar suas conseqüências. Todos permanecerão preocupados com a possibilidade de grave instabilidade.

Nosso admirável mundo novo capitalista tem muitas semelhanças com o do início da década de 1900. Mas, sob diversos ângulos, foi muito além. Esse mundo cria oportunidades empolgantes. Mas é também um mundo em larga medida não testado. E está criando novas elites. Essa mutação contemporânea do capitalismo tem amigos leais e inimigos ferozes.Mas ambos os lados concordam que seu surgimento é um dos acontecimentos mais importantes de nosso tempo.